Créditos: Divulgação
30-09-2026 às 10h20
Caroline Fakhouri*
A consulta é em um dia. A terapia, em outro. Tem reunião na escola, avaliação, exame, deslocamento, mensagens para responder e decisões a tomar. No meio disso tudo, continuam o trabalho, as contas da casa, o cuidado com os outros filhos, o relacionamento e a própria vida. Para muitos pais de crianças com deficiência ou condições de desenvolvimento que exigem acompanhamento contínuo, cuidar pode se transformar em uma tarefa que ocupa praticamente todo o espaço da rotina.
É nesse contexto que aparece o conceito de parentalidade atípica. Mais do que lidar com as necessidades específicas da criança, esses pais muitas vezes precisam reorganizar toda a dinâmica familiar para dar conta dos cuidados. E, quando não existe uma rede de apoio, o desgaste pode se acumular.
“Quando pensamos em uma criança que precisa de muitos acompanhamentos, é comum que toda a organização da família passe a girar em torno dessas necessidades. Se os pais não encontram apoio para compartilhar tarefas e também cuidar da própria saúde emocional, a sobrecarga pode aumentar bastante”, explica o psicólogo Filipe Colombini, CEO da Equipe AT e especialista em orientação parental e atendimento de crianças, jovens e adultos.
O cuidado que não aparece na agenda
Boa parte da sobrecarga é bastante concreta. São horas de deslocamento, organização de consultas, acompanhamento de tratamentos, contato com a escola e busca por profissionais. Dependendo da situação, também entram na conta gastos com terapias, medicamentos, transporte e outros serviços.
Mas existe uma parcela desse trabalho que não aparece em nenhuma agenda: a preocupação constante.
Como será o desenvolvimento do meu filho? Ele terá autonomia? Como será sua vida escolar? E quando crescer? Perguntas sobre o futuro podem acompanhar os pais por anos e provocar ansiedade, principalmente quando faltam informações, acesso a serviços ou perspectivas claras sobre os próximos passos.
Também podem surgir culpa, medo, frustração e insegurança. Alguns pais precisam rever expectativas que tinham para o desenvolvimento dos filhos e encontrar uma nova forma de compreender essa trajetória.
“É importante compreender que esses sentimentos podem aparecer durante o processo de adaptação. O problema é quando o cuidador começa a se sentir sozinho, sem espaço para falar sobre suas dificuldades e acreditando que precisa dar conta de tudo o tempo inteiro”, afirma Colombini.
A criança não é a única que precisa de cuidado
Quando a rotina da família passa a ser organizada em função das necessidades da criança, é comum que os pais deixem as próprias necessidades para depois. Descanso, lazer, encontros com amigos e até cuidados básicos podem perder espaço.
Para Colombini, procurar ajuda antes de chegar ao esgotamento pode fazer diferença.
“O cuidado psicológico também pode ser preventivo. Ele ajuda os pais a reconhecerem sinais de sobrecarga, entenderem melhor o próprio funcionamento e encontrarem maneiras mais sustentáveis de exercer o cuidado”, diz.
A psicoterapia pode auxiliar no manejo da ansiedade, na reorganização de expectativas e na construção de estratégias para lidar com as demandas do cotidiano. Não significa, porém, que a responsabilidade pelo bem-estar da família deva ficar apenas com os pais.
Rede de apoio precisa ser prática
Dizer que uma família precisa de uma rede de apoio é mais fácil do que construí-la. Na prática, ajuda pode significar alguém levar a criança a uma consulta, ficar com os irmãos por algumas horas, preparar uma refeição ou simplesmente oferecer um espaço de escuta.
Grupos de pais e familiares também podem cumprir esse papel. A troca com pessoas que vivem situações semelhantes pode reduzir a sensação de isolamento e facilitar o acesso a informações sobre escolas, profissionais, serviços e direitos.
“Quando os pais percebem que outras pessoas também vivem desafios semelhantes, muitas vezes existe uma redução da sensação de isolamento. Essa troca não substitui acompanhamento profissional, mas pode ser muito valiosa”, afirma Colombini.
A escola também integra essa rede. O diálogo entre família, educadores e profissionais que acompanham a criança pode ajudar a estabelecer estratégias mais adequadas às necessidades individuais e favorecer a inclusão no ambiente escolar.
Na rede pública, as Unidades Básicas de Saúde podem ser uma porta de entrada para informações sobre os serviços disponíveis na região e possíveis encaminhamentos. Dependendo das necessidades da criança e da estrutura disponível, o atendimento pode envolver profissionais como psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e assistentes sociais.
No fim, cuidar de uma criança que precisa de mais suporte não deveria significar que os pais precisam desaparecer da própria rotina. Uma rede de apoio efetiva é aquela que ajuda a dividir não apenas as tarefas, mas também o peso emocional que acompanha o cuidado.
Ou seja, falar sobre inclusão também significa olhar para essa família como um todo: garantir que a criança tenha acesso a tratamento, educação e participação social, mas que seus pais também encontrem espaço para trabalhar, descansar, manter seus vínculos e seguir cuidando de si.
Mais sobre Filipe Colombini: psicólogo, fundador e CEO da Equipe AT, empresa com foco em Acompanhamento Terapêutico (AT) e atendimento fora do consultório, que atua em São Paulo (SP) desde 2012. Especialista em orientação parental e atendimento de crianças, jovens e adultos. Especialista em Clínica Analítico-Comportamental. Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Professor do Curso de Acompanhamento Terapêutico do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas – Instituto de Psiquiatria Hospital das Clínicas (GREA-IPq-HCFMUSP). Professor e Coordenador acadêmico do Aprimoramento em AT da Equipe AT. Formação em Psicoterapia Baseada em Evidências, Acompanhamento Terapêutico, Terapia Infantil, Desenvolvimento Atípico e Abuso de Substâncias.

