Créditos: Divulgação
28-09-2026 às 15h44
Luciana da Silva*
Com a aproximação da primavera e a elevação gradual das temperaturas, o projeto das edificações ganha um papel central na busca por ambientes mais confortáveis sem depender exclusivamente do ar-condicionado. A chamada arquitetura bioclimática considera as características do clima e do local desde o planejamento da construção, utilizando fatores como direção dos ventos, incidência solar, temperatura média e umidade para definir as melhores soluções.
Um estudo de 2023 realizado pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) apontou que a implementação de estratégias bioclimáticas em habitações populares reduziu o consumo de energia em até 82,6%, com o percentual de horas dentro de uma faixa de temperatura tida como confortável ficando em torno de 80% do dia. O investimento adicional necessário para a implementação das estratégias não chegou a 7% do valor total da edificação.
É nesse contexto que aparece a expressão “prédio que respira”. A ideia está relacionada a edificações que favorecem a renovação natural do ar e aproveitam as condições do ambiente para melhorar o conforto interno. Segundo Vitor Del Giudice Pena, professor de Arquitetura e Urbanismo da UNIASSELVI, um dos principais recursos é a ventilação cruzada, que permite a circulação do ar entre diferentes aberturas.
“Não é apenas abrir grandes janelas. O projeto precisa entender de onde o vento vem, por onde ele entra, como ele percorre o ambiente e por onde ele sai”, explica Vitor. Para isso, a posição das janelas, a orientação da edificação e até a presença de construções vizinhas precisam ser consideradas. Em situações nas quais a ventilação natural não é suficiente, sistemas mecânicos de ventilação ou exaustão podem complementar a estratégia.
“Em alguns projetos mais específicos também podem ser utilizadas estratégias mais complexas, como torres de ventilação, pátios internos ou sistemas subterrâneos de condicionamento do ar”, complementa o especialista.
Cada clima exige uma resposta
A arquitetura bioclimática pode ser aplicada tanto em grandes edifícios quanto em residências, mas as soluções precisam ser adaptadas às condições de cada região brasileira. “Nosso país possui diferentes zonas climáticas e as estratégias precisam ser adaptadas a cada uma delas. Uma solução que funciona muito bem em uma região mais quente, como o Nordeste ou o Centro-Oeste, pode não ser a melhor escolha para uma região fria, como o Sul ou o Sudeste”, afirma Pena.
Além da ventilação cruzada, que funcionaria em boa parte dos contextos brasileiros, há outras soluções mais específicas que podem ser avaliadas na criação de um projeto arquitetônico. “Podemos trabalhar com sombreamento das fachadas e das aberturas; orientação adequada da edificação em relação ao nascente e ao poente do sol; proteção contra a radiação solar direta; utilização de materiais apropriados e, dependendo da situação, estratégias como o ‘efeito chaminé’, com aberturas em diferentes alturas para facilitar a saída do ar quente”, enumera o professor da UNIASSELVI.
Material certo para o contexto da edificação
A escolha dos materiais também interfere diretamente no comportamento térmico das construções. Características como condutividade térmica, densidade e capacidade de armazenar calor determinam como cada sistema construtivo absorve, transmite e libera energia.
“Em algumas situações, podemos buscar materiais e sistemas construtivos que dificultem a transferência de calor, funcionando como uma espécie de barreira térmica. Em outras, podemos aproveitar a capacidade térmica de determinados materiais para armazenar calor e liberá-lo posteriormente, em horários mais frios do dia”, explica o especialista.
Por isso, a decisão não deve considerar apenas o material isoladamente, mas sua aplicação em conjunto com o sistema construtivo e as condições climáticas do local. “Não existe simplesmente um ‘material melhor’ para o conforto térmico. O mais importante é entender qual é o comportamento daquele material dentro do sistema construtivo e em relação ao clima onde a edificação está localizada”, explica Pena.
‘Telhado verde’ vai além da estética
Outra estratégia que pode ser incorporada aos projetos são os ‘telhados verdes’, sistemas de cobertura de edificações que recebem vegetação, reduzindo a transferência direta da radiação solar para a cobertura e contribuindo para melhorar o desempenho térmico do edifício.
“Além da estética, o telhado verde pode funcionar como uma estratégia de desempenho ambiental. Mas ele exige projeto adequado, execução especializada e manutenção posterior, justamente para evitar problemas”, ressalta o professor.
O sistema também pode ajudar no gerenciamento das águas pluviais, retendo parte da chuva e liberando-a gradualmente. Mas, para isso, a adoção exige planejamento específico. “É importante destacar que telhados verdes não são simplesmente terra e plantas colocadas sobre o edifício. Existe uma composição de camadas necessária para que o sistema funcione corretamente, como estrutura apropriada, impermeabilização, sistemas de drenagem e filtragem, entre outras camadas específicas”, afirma Vitor.
Mais do que depender de uma tecnologia isolada, a arquitetura bioclimática busca integrar diferentes decisões desde o início do projeto. Ventilação, orientação, sombreamento, materiais e vegetação podem atuar em conjunto para aproveitar melhor as condições naturais do local e contribuir para o conforto dos usuários.
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