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25-09-2026 às 10h04
Direto da Redação*
O barro que durante gerações ajudou a sustentar famílias do Vale do Jequitinhonha atravessou o Atlântico e chegou a Paris. Em setembro de 2026, a cerâmica produzida por artesãs mineiras ocupou espaços de destaque na capital francesa durante a Paris Design Week, levando para o público internacional não apenas esculturas e objetos de decoração, mas histórias de mulheres, famílias, comunidades e saberes transmitidos de geração em geração.
Entre as comunidades representadas estava Coqueiro Campo, no Vale do Jequitinhonha, território conhecido pela força de sua produção cerâmica e pelo protagonismo feminino. A participação fez parte de uma iniciativa de internacionalização do artesanato mineiro realizada pelo Sebrae Minas em parceria com o Governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico.
Ao todo, cerca de 150 obras produzidas por artesãos de quatro comunidades — Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado — foram apresentadas em Paris. As peças chegaram à Maison & Objet Paris 2026, uma das principais feiras internacionais de design, decoração, arte e lifestyle, realizada entre 10 e 14 de setembro.
A produção também integrou a exposição “La terre façonnée par l’art” — “A terra moldada pela arte”, realizada na Ricardo Fernandes Gallery, no bairro Marais, durante a programação da Paris Design Week. A mostra ficou aberta até 18 de setembro.
Coqueiro Campo: quando o barro vira identidade
A história de Coqueiro Campo é inseparável das mãos das mulheres que trabalham o barro.
A Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo está localizada no distrito de Campo Buriti, em Turmalina, e tem uma trajetória construída a partir da organização das ceramistas da região. Segundo registros do Governo de Minas, a associação foi criada em 1994, depois de um processo de mobilização iniciado ainda no começo da década de 1990 por mulheres das comunidades de Coqueiro Campo, Campo Buriti e Campo Alegre.
Na Rede Artesol, a associação é apresentada como um grupo formado por mulheres que transformam a argila em moringas, filtros, noivas, mulheres grávidas, mulheres amamentando, trabalhadoras e figuras que representam cenas do cotidiano. O processo envolve a retirada do barro, sua secagem, socagem no pilão, peneiramento, preparação e modelagem. As cores são obtidas com pigmentos naturais, como o tauá e a tabatinga.
Mais do que uma técnica, trata-se de um conhecimento transmitido dentro das famílias.
As informações da Rede Artesol registram que muitas das técnicas utilizadas pelas ceramistas foram ensinadas por mães e avós, estabelecendo uma cadeia de transmissão de saberes que atravessa gerações.
É justamente essa continuidade que ajuda a explicar por que a presença de Coqueiro Campo em Paris tem significado que vai muito além de uma exposição.
Adriana Xavier: uma história de cinco gerações
Uma das mulheres que levou essa história para o cenário internacional foi Adriana Xavier.
Adriana começou a modelar o barro aos 10 anos, na comunidade de Campo Alegre, em Turmalina. Aprendeu o ofício dentro da própria família, seguindo uma tradição em que sua mãe havia aprendido com a avó e a avó com a bisavó.
A trajetória mostra como o artesanato foi, para muitas mulheres do Jequitinhonha, simultaneamente conhecimento cultural, trabalho e possibilidade de autonomia econômica.
Em 2024, Adriana mudou-se para Campo Buriti. No quintal de casa, montou seu próprio ateliê e continuou produzindo cerâmica. A tradição também passou para a filha, mantendo vivo um saber familiar que já atravessa cinco gerações de mulheres.
Reconhecida especialmente pelas bonecas de cerâmica, Adriana também passou a desempenhar um papel de representação coletiva. Ela representa a Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo no Conselho das Artesãs do Vale do Jequitinhonha (CAVJ). A associação é formada por dezenas de mulheres.
Por isso, sua presença em Paris não representou apenas uma trajetória individual.
Ela levou consigo a história de outras mulheres que, diariamente, transformam barro em renda, memória e identidade.
“Vou levar a história das mulheres”
Ao falar sobre a participação na Maison & Objet, Adriana destacou justamente esse caráter coletivo.
A artesã afirmou que estava feliz por representar as mulheres de sua associação e do Vale do Jequitinhonha na França e que levaria para Paris não somente suas esculturas, mas também a história das 52 mulheres da Associação dos Artesãos de Campo Buriti e de tantas outras artesãs da região.
A declaração ajuda a compreender a dimensão simbólica da viagem.
A obra que chega a uma galeria parisiense não começa em Paris. Ela começa no território: na busca pelo barro, no conhecimento sobre a terra, no preparo da argila, na modelagem manual, na pintura e na queima.
Cada peça carrega, portanto, uma cadeia de conhecimentos que não aparece necessariamente aos olhos de quem observa a obra pronta.
Rita Gomes Ferreira e a memória de Coqueiro Campo
A trajetória de Rita Gomes Ferreira ajuda a compreender a profundidade dessa tradição.
Nascida em Coqueiro Campo, em 1959, Rita aprendeu a trabalhar com barro ainda criança, por volta dos 11 anos, com sua tia Rosa. Depois de morar em outra cidade, retornou à comunidade e retomou o trabalho com cerâmica em 2000. Começou fazendo pequenas peças, como galinhas e flores, e posteriormente passou a produzir bonecas.
Seu trabalho integra registros de importantes instituições ligadas ao artesanato e às artes brasileiras. O Sesc, por exemplo, apresenta obras de Rita em seu acervo editorial relacionado às artes visuais, enquanto registros do Museu Casa do Pontal são utilizados em referências sobre sua trajetória.
Rita também representa uma geração de ceramistas para quem o artesanato deixou de ser apenas uma atividade doméstica e passou a ocupar espaços de circulação cultural, feiras, exposições e mercados especializados.
De objeto do cotidiano a peça de arte
Durante muito tempo, o barro do Jequitinhonha esteve associado principalmente a objetos utilitários.
Moringas, potes, panelas, pratos e outros utensílios faziam parte da vida cotidiana das comunidades. Com o passar dos anos, porém, as ceramistas ampliaram seus repertórios e passaram a produzir figuras humanas, animais, flores, cenas do cotidiano e esculturas.
Em Coqueiro Campo, as mulheres são protagonistas desse processo.
A produção da associação inclui figuras femininas em diferentes situações: noivas, mulheres grávidas, mulheres amamentando, mulheres trabalhando e representações de relações comunitárias.
Essa presença recorrente da figura feminina transforma a cerâmica em uma espécie de narrativa visual sobre a própria vida das mulheres do Vale.
São corpos, gestos e histórias moldados pelas mãos de quem conhece de dentro as experiências representadas.
Paris recebe quatro comunidades do Jequitinhonha
A participação internacional de 2026 não foi construída em torno de uma única comunidade.
O projeto reuniu quatro importantes polos da cerâmica do Vale: Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado. Cerca de 150 esculturas foram selecionadas para a Maison & Objet, com curadoria de Marco Aurélio Pulchério.
Cinco artistas acompanharam a programação presencialmente em Paris: Anísia Lima, Andréia Andrade, Augusto Ribeiro, Alice Costa e Adriana Xavier.
Anísia Lima representou Campo Alegre. Alice Costa levou miniaturas inspiradas nas casas e construções de sua comunidade. Andréia Andrade, neta da renomada ceramista Dona Izabel Mendes da Cunha, apresentou suas tradicionais noivas. Augusto Ribeiro também levou trabalhos ligados à tradição de Dona Izabel. Adriana Xavier representou a produção associada a Coqueiro Campo.
Assim, embora nem todas as cinco artistas fossem de Coqueiro Campo, a comunidade esteve inserida no conjunto da mostra e teve sua produção apresentada ao mercado internacional.
Dona Izabel: uma homenagem que também atravessou o Atlântico
Outro momento de forte significado na exposição foi protagonizado por Andréia Andrade, neta de Dona Izabel Mendes da Cunha, uma das grandes referências da cerâmica do Jequitinhonha.
Andréia levou para Paris suas tradicionais noivas e uma escultura criada em homenagem à avó, retratando Dona Izabel modelando uma cabeça de noiva.
A peça transforma a memória familiar em obra de arte e registra, no próprio barro, a transmissão de um saber entre gerações.
A história de Dona Izabel ajuda a explicar a dimensão alcançada pela cerâmica do Jequitinhonha. Suas bonecas-moringa tornaram-se conhecidas muito além de Minas Gerais e ajudaram a consolidar a produção cerâmica feminina do Vale como uma expressão artística de grande reconhecimento.
Mais de 20 anos de construção
A chegada a Paris não aconteceu de repente.
O Sebrae Minas informa que atua há mais de 20 anos no artesanato do Vale do Jequitinhonha. O projeto Identidade e Origem foi criado em 2019, e a marca Território Vale do Jequitinhonha foi lançada em 2021.
Segundo o Sebrae, aproximadamente 120 artesãos foram atendidos pelas iniciativas, envolvendo as quatro comunidades beneficiadas pelo projeto. Nos últimos anos, as ações movimentaram cerca de R$ 2,5 milhões em vendas. A edição de 2025 da chamada “Viagem para a Origem”, que leva compradores ao território, gerou mais de R$ 450 mil em compras diretas e encomendas.
A Artesol também mantém uma relação histórica com comunidades como Coqueiro Campo, Campo Alegre e Santana do Araçuaí desde o início dos anos 2000, com ações relacionadas ao fortalecimento dos grupos, circulação das peças e geração de renda.
Da comunidade para o circuito internacional
A participação em Paris coloca uma questão importante em evidência: como uma produção artesanal profundamente ligada a um território rural passa a dialogar com um dos principais circuitos internacionais de design.
Na Maison & Objet, as obras foram apresentadas a compradores, galeristas, arquitetos, designers, curadores e profissionais de mais de 130 países.
Não se trata apenas de vender uma peça.
Para as comunidades, a internacionalização abre possibilidades de novos mercados, amplia a visibilidade dos autores e ajuda a estabelecer o valor cultural e econômico de uma produção que durante muito tempo foi vista apenas sob a ótica do artesanato popular.
A curadoria da mostra procurou justamente apresentar a diversidade dessas produções. No conjunto estavam figuras femininas, noivas, moringas, animais, casas e cenas do cotidiano, revelando que o Vale não possui uma única linguagem estética, mas diferentes trajetórias e repertórios.
O barro como patrimônio vivo
A história de Coqueiro Campo também desmonta uma visão limitada sobre o Vale do Jequitinhonha.
A região é frequentemente associada às dificuldades econômicas e sociais. Mas, paralelamente a esses desafios, existe uma riqueza cultural construída por comunidades que preservam técnicas, festas, músicas, histórias e conhecimentos tradicionais.
Na cerâmica, essa resistência cultural aparece de maneira particularmente forte.
O barro é retirado da terra, preparado manualmente e transformado em objetos que carregam referências da vida comunitária. O conhecimento não está apenas no produto final, mas no processo: saber onde encontrar a matéria-prima, reconhecer o ponto da argila, preparar o barro, modelar, pintar e queimar.
É um conhecimento que passa de uma mulher para outra.
De mãe para filha.
De avó para neta.
E que agora chega a Paris.
Um capítulo novo para uma história antiga
A presença de Coqueiro Campo na Paris Design Week 2026 pode ser compreendida, portanto, como mais um capítulo de uma história muito maior.
As artesãs não chegaram à França abandonando suas origens. Chegaram justamente porque suas origens passaram a ser reconhecidas como parte essencial do valor de suas obras.
O que foi apresentado em Paris nasceu em comunidades mineiras onde o barro continua sendo preparado pelas mãos, onde a técnica ainda é ensinada dentro das famílias e onde mulheres encontram na cerâmica uma forma de trabalho, expressão e autonomia.
Adriana Xavier resumiu esse sentimento ao afirmar que levaria para a França não apenas suas esculturas, mas a história das mulheres de sua associação e das demais artesãs do Vale.
É talvez essa a imagem mais forte deixada pela participação brasileira na capital francesa: uma peça de cerâmica pode atravessar um oceano, mas não precisa deixar para trás a terra de onde nasceu.
Em Paris, o barro do Jequitinhonha ganhou novos olhares.
E, por trás de cada peça, estavam as mãos das mulheres de Coqueiro Campo, carregando consigo a memória de suas mães, avós e antepassadas — e mostrando ao mundo que uma tradição local também pode ocupar espaços internacionais sem perder sua identidade.
Observação importante para publicação: encontrei divergência nas fontes sobre o número atual de integrantes da Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo: a página da Rede Artesol informa 39 mulheres, enquanto matéria do Sebrae de 2026 informa 52 mulheres. Por isso, na matéria acima preferi tratar como “dezenas de mulheres” em alguns trechos e atribuir o número de 52 especificamente à informação divulgada pelo Sebrae.
Também vale corrigir uma possível confusão de nomenclatura: Coqueiro Campo e Campo Buriti aparecem associados à mesma organização artesanal, mas são referências territoriais distintas; a Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo está situada em Campo Buriti, no município de Turmalina. Minas Gerais

