Créditos: Divulgação
02-09-2026 às 15h42
Patrícia Dornelas*
No ano de 1944, na Praça Tiradentes, foi inaugurado o Museu da Inconfidência. Oitenta e dois anos depois, o museu segue como um dos museus nacionais mais visitados do país, recebendo em média 350 mil visitantes por ano. Como parte do Programa de Exposições 2026 do Museu da Inconfidência, também conhecido como Min, será realizada, de 05 de setembro a 08 de novembro, a mostra “Sala da Vida Privada” que, em diálogo com a Sala da Vida Social – uma das 17 salas do circuito expositivo de longa duração da instituição, apresentará obras das artistas Carol Ambrósio (1981), Poliana Toussaint (1980) e Tathyana Santiago (1987).
“Sala da Vida Privada” foi desenhada de modo a atender aos eixos curatoriais, estabelecidos no Plano Museológico para o período de 2025-2029: Questões de gênero e desdobramentos contemporâneos, Patrimônio e arte contemporânea, Impactos socioambientais, culturais e humanos do sistema político e econômico contemporâneo e Releituras e revisão da história política e da formação da identidade nacional.
Idealizada pela curadora do Min, Carla Farias Cruz, a exposição apresentará um conjunto de obras de três artistas mulheres contemporâneas, nascidas nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Sergipe, todas representadas pela WG galeria (São Paulo), de modo a colocar os seus trabalhos em relação à produção material e intelectual de mulheres do Brasil-colônia, tais quais a poetisa Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira (1759-1819), a ativista anticolonial Hipólita Jacinta Teixeira de Melo (1748-1828), e Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão (1767-1853), tradicionalmente reconhecida como a musa-personagem da obra do Arcadismo, “Marília de Dirceu”.
Em continuidade ao Projeto do Min “Este Objeto, o que ele nos fala?” – Sobre questões de gênero e desdobramentos contemporâneos – criando bens culturais que, colocados em tensão com obras contemporâneas, possam deslocar a condição de simples objetos, como testemunhos de um modo de vida, para compreendê-los como agentes de uma complexa rede de relações e como dispositivos de construção, inscrição e reprodução de identidades sociais atravessadas pelo gênero.
“Sala da Vida Privada”, que ocupará a Galeria Manoel da Costa Ataíde e ativará o percurso expositivo de longa duração do Museu-Sede, conta com a coordenação institucional, seleção de obras e texto curatorial de Carla Farias Cruz. Já a Pesquisa Histórica sobre os objetos museológicos e suas complexas relações é assinada pela pesquisadora Viviane Soares Aguiar – Pós-doutoranda do Museu Paulista/USP, e por fim, a exposição tem o apoio da WG galeria.
Mais do que celebrar o feminino, a mostra evidência um movimento maior: o de transformar o museu em espaço de convivência. Ao apostar em iniciativas como esta, o Museu da Inconfidência redesenha a relação entre o público e a instituição, mostrando que a arte contemporânea também pode caber no espaço habitado pelo tempo, pela identidade e pelas lutas femininas.
Sobre o Min:
O Min é uma instituição pública federal gerida pelo Instituto Brasileiro de Museus e vinculada ao Ministério da Cultura, cuja missão institucional é “Promover o acesso à memória e aos bens culturais, valorizando a pluralidade interpretativa sobre a História do Brasil, com ênfase no período colonial, na Conjuração Mineira e sua contribuição para a formação da identidade nacional.”
Sobre as artistas:
Carol Ambrósio: É artista multidisciplinar. Sua produção articula-se, em grande parte, na elaboração de assemblages e na reutilização de materiais. Seu interesse parte de um repertório construído desde a infância, pois conviveu com acúmulos, antiguidades e histórias vivenciadas no antiquário da família. A criação conceitual vai em busca de aceitar a forma das coisas imperfeitas, transitórias, incompletas e não convencionais. Realiza uma ampla coleta de cerâmicas tradicionais e de diferentes contextos que são destruídas e reconstruídas e, como resultado, temos novos objetos que se formam por meio de jogos de palavras.
Poliana Toussaint: Nascida em Belo Horizonte, a artista têxtil vive e trabalha em Paris. Desenvolve uma abordagem singular e universal, que ressoa com temas como ecologia, memória, transmissão ancestral e deslocamento. Usando o bordado como principal meio de expressão, cria obras poéticas marcadas pela improvisação total. Suas peças são bordadas manualmente, sem desenhos preparatórios, em uma prática que remete tanto à liberdade do gesto pictórico quanto à gestualidade ancestral do fazer manual, herdado em sua infância em Minas Gerais — tradição transmitida de mãe para filha por gerações. Sua técnica combina fios variados — de lã, algodão e materiais sintéticos — sobre tecidos ou superfícies perfuráveis. Cerca de 90% desses fios são adquiridos por meio de upcycling, reaproveitando lotes em desuso ou excedentes industriais.
Tathyana Santiago: Com formação em Arquitetura e Urbanismo, sua pesquisa artística foca na retratação feminina em ambientes íntimos, por meio da pintura, combinando cores vibrantes, formas orgânicas e texturas marcadas. Concentra-se na investigação do corpo feminino em relação ao espaço doméstico, utilizando a pintura meio principal. Guiada por memórias pessoais e narrativas femininas, e, ainda que retratando mulheres do seu tempo, a artista faz um questionamento ao cotidiano doméstico, que pode aprisionar ou libertar.
Serviço:
Abertura: 05 de setembro
Local: Museu da Inconfidência
Endereço: Praça Tiradentes, 139 – Centro – Ouro Preto
Horário de visitação:
Ingressos: Grátis
Texto crítico
O que a casa silencia
Em diálogo com a Sala da Vida Social, esta exposição reúne trabalhos de três artistas contemporâneas cujas obras estabelecem relações críticas e sensíveis com o acervo do Museu da Inconfidência, tomando objetos como dispositivos de construção, inscrição e reprodução de identidades sociais de gênero.
Num recente esforço de atualização de sua narrativa expográfica, o Museu tem lançado luz sobre a trajetória de mulheres, reabilitando a memória e discursos sobre as biografias de Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira (1759-1819), Hipólita Jacinta Teixeira de Melo (1748-1828) e Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão (1767-1853). A primeira, poeta, a segunda, ativista anticolonial, e a terceira uma mulher cuja existência foi em grande medida eclipsada pela construção literária de Marília de Dirceu. Pouco se sabe sobre a história de Maria Dorotéia para além de sua condição de prometida de um dos inconfidentes. O seu anel de noivado, preservado no acervo, adquire uma dimensão que ultrapassa o valor documental. Como símbolo de uma promessa interrompida, o objeto conecta a personagem à pessoa, restituindo à materialidade aquilo que a narrativa histórica subtraiu. Essa aliança, apresentada na mostra junto a poemas, produções pictóricas e cartas, torna-se ponto de partida para aproximar subjetividades e produções de mulheres separadas por mais de dois séculos de história.
No Brasil-colônia a divisão entre as esferas pública e privada foi consolidada de modo a propiciar a naturalização do papel da mulher à domesticidade e a sua idealização como esposa, mãe e dona de casa. A presença feminina foi circunscrita a uma esfera privada, concebida como complementar e subordinada à vida pública, política e intelectual. Essa separação produziu uma ordenação dos papéis sociais, determinando quem poderia ocupar determinados lugares, produzir discursos e deixar marcas reconhecíveis na história.
Partindo dessa perspectiva, a exposição propõe uma leitura crítica da relação entre mulheres, objetos e espaços domésticos. Se o museu é, por excelência, um lugar em que os objetos participam da construção do discurso histórico, ora constituindo suas evidências, ora sendo submetidos às narrativas que lhes conferem sentido, esta mostra desloca essas relações fazendo emergir contra-narrativas. O que um objeto doméstico revela quando deixamos de observá-lo apenas por sua função? Que histórias permanecem inscritas em sua matéria, e quais foram apagadas?
Na Sala da Vida Social foram destacadas do acervo a aliança, uma escarradeira, uma forma de doces e uma amassadeira, que em diálogo com obras contemporâneas instigam o expectador a compreender os objetos não como simples testemunhos de um modo de vida, mas como agentes de uma complexa rede de relações entre funcionalidade-corpo-espaço e identidade.
Num jogo semântico entre as designações das duas salas, a palavra privada remete ao que foi subtraída, obliterada e reprimida. O privado não se opõe simplesmente ao social, mas constitui, também, uma de suas dimensões fundamentais. A vida doméstica é colocada em evidência a partir de seus artefatos e rituais, revelando como os espaços privados foram também lugares de sociabilidade, circulação de ideias e articulação política, sobretudo no contexto das reuniões e redes de convivência entre os conjurados.
Ao incorporar itens de antiquário em suas obras, Carol Ambrósio subverte a lógica do servir e desloca os objetos domésticos de sua condição utilitária. Agrupados em composições escultóricas, esses artefatos deixam de responder à finalidade para a qual foram concebidos e passam a operar como matéria de uma nova linguagem. O gesto da artista interrompe a cadeia de funções que historicamente vinculou determinados objetos ao trabalho doméstico e, por extensão, ao lugar social atribuído às mulheres. Ao retirar os objetos de seu regime de uso, Ambrósio produz uma espécie de desobediência material: aquilo que foi criado para servir passa a interrogar a própria lógica do serviço.
Por sua vez, Tathyana Santiago tensiona as fronteiras entre corpo e espaço ao dissolver a figura feminina no ambiente doméstico. Mobiliário, objetos, arquitetura e corpo deixam de constituir elementos autônomos e passam a compartilhar uma mesma superfície pictórica na qual as fronteiras formais se tornam deliberadamente instáveis. Por meio de densas camadas de tinta, sobreposições cromáticas e formas que transitam entre a figuração e a abstração, Santiago constrói uma visualidade em que a casa se converte em extensão do corpo. Frequentemente despersonalizadas e fundidas ao ambiente e à vida familiar, suas figuras evocam a complexidade de uma experiência feminina marcada por apagamentos. A pintura torna-se, assim, lugar de sobreposição de memórias, identidades e tensões, revelando a ambivalência da casa como espaço simultaneamente de intimidade, criação, resistência e afirmação da identidade feminina, ao mesmo tempo que lugar de confinamento, invisibilização e reprodução de estruturas sociais que historicamente circunscreveram a mulher à esfera privada.
Partindo de outro universo de gestos e saberes domésticos, Poliana Toussaint evoca a tríade “cama, mesa e banho” com elementos que condensam dimensões fundamentais da vida privada, do cuidado e da construção afetiva cotidiana. Na obra Tempo Suspenso, a intenção de confeccionar uma toalha de mesa desloca o objeto de sua dimensão estritamente utilitária. No trabalho Trama, a intervenção sobre uma colcha de crochê produzida por sua avó para cada neto que nascia inscreve no presente uma memória familiar transmitida pela matéria. Em Cura, a representação de uma cachoeira invoca a água e o banho como símbolos de passagem e renovação. Se alguns dos seus trabalhos remetem ao interior da casa e aos seus ritos, as paisagens introduzem uma abertura: um movimento para fora, para o espaço externo, para aquilo que escapa às fronteiras da domesticidade.
Ao mobilizar saberes transmitidos pela mãe e pela avó, Toussaint reconfigura o bordado ao abandonar os pontos tradicionais e trabalhar em grandes dimensões, à mão livre e sem desenhos prévios. A artista preserva a memória de uma técnica, mas recusa a obrigação de reproduzi-la tal como foi herdada. Seus trabalhos afirmam, assim, uma gestualidade que, embora nasça do universo doméstico, já não se deixa domesticar.
Carla Farias Cruz,
Curadora

