Créditos: Divulgação
29-08-2026 às 14h40
José Aparecido Ribeiro*
Não basta promover Belo Horizonte no Brasil e no exterior enquanto o poder público permite que o entorno de seu principal atrativo turístico permaneça sujo, degradado e perigoso
Proximidades do Mercado Central
Indiscutivelmente, o Mercado Central é um dos maiores símbolos de Belo Horizonte. Conhecido no Brasil e no exterior, o espaço reúne história, gastronomia, cultura, religiosidade e a identidade do povo mineiro. Isso é ponto pacifico.
Está presente nas campanhas da Belotur, da Secretaria Estadual de Cultura e Turismo, do Governo de Minas, da Casa do Turismo (BH Convention & Visitours Bureau) e nas ações promovidas pela própria administração do Mercado, que participa de eventos dentro e fora do país para atrair visitantes à capital.
Mas existe uma incompatibilidade gritante entre a imagem vendida e a realidade encontrada. O turista é convidado a conhecer um dos mercados mais tradicionais do mundo, mas, ao chegar a Belo Horizonte e se dirigir para o Mercado, depara-se com um entorno marcado por calçadas irregulares, sujeira, obstáculos, degradação urbana e ocupações desordenadas de moradores em situação de rua e prédios abandonados.
Espaço interno do Mercado Central
Trata-se de um cenário deprimente que não combina com a importância histórica, cultural, econômica e turística do Mercado Central. As pessoas não chegam ao mercado voando. Elas desembarcam de ônibus, táxis ou veículos de aplicativo e, muitas vezes, precisam percorrer a região a pé.
Nesse trajeto, idosos, formadores de opinião, turistas, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida e famílias com crianças são expostos a calçadas danificadas e ao risco de quedas. Antes mesmo de entrar no Mercado Central, o visitante já recebeu uma péssima apresentação da cidade, seja ele cidadão belo-horizontino ou visitante.
A situação das pessoas em condição de rua também não pode ser tratada apenas como um problema estético ou resolvida com ações de retirada. Trata-se de uma questão humana e social que exige assistência permanente, acolhimento, saúde, segurança, direitos, deveres e políticas públicas efetivas.
Entrada do Mercado Central pela Av. Augusto de Lima
O que não se pode admitir é a omissão do poder público, que abandona simultaneamente essas pessoas, os comerciantes, os moradores, os pedestres e os turistas. Não adianta investir em publicidade, participar de feiras e vender Belo Horizonte como destino turístico se a prefeitura não consegue garantir limpeza, acessibilidade, iluminação, segurança e conservação justamente no entorno de seu principal cartão-postal.
Recentemente o Mercado Central ganhou o apoio de uma das maiores empresas do Brasil, a mineradora Vale. Quem sabe em vez de patrocinar o que já é sucesso, a empresa não assume o seu entorno com ações simples de limpeza, reforma e manutenção das calçadas?
A propaganda pode levar o turista até o Mercado Central, mas é a realidade encontrada nas ruas que determinará a imagem que ele levará da cidade. A direção do mercado também precisa exercer sua influência institucional e cobrar providências. O que assistimos até aqui mostra que os responsáveis estão indiferentes ao problema, parece não enxergá-lo.
Rei da Empada dentro do Mercado Central
Embora a responsabilidade pela manutenção dos espaços públicos seja principalmente da municipalidade – e, em determinados casos, também dos proprietários dos imóveis, incluindo prédios antigos e lanchonetes internas -, um equipamento dessa importância não pode permanecer indiferente ao processo de degradação que avança ao seu redor.
Belo Horizonte precisa, com urgência, de um plano integrado de revitalização do entorno do Mercado Central. O trabalho deve incluir recuperação e padronização das calçadas, limpeza permanente, acessibilidade, iluminação, segurança, ordenamento urbano, paisagismo, sinalização turística e atendimento digno à população em situação de rua.
Não se trata de uma intervenção pontual para produzir fotografias de divulgação, mas de manutenção contínua e responsabilidade compartilhada. Talvez parte da população já tenha se acostumado à feiura, à sujeira, o cenário de degradação e deixado de perceber a gravidade do abandono.
O visitante, entretanto, percebe imediatamente. E não há campanha publicitária capaz de esconder aquilo que está diante dos olhos: Belo Horizonte promove seu maior símbolo turístico para o mundo, mas ainda não demonstra competência nem cuidado suficientes para organizar o caminho que conduz até ele.
(*) José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor – Ex-presidente da ABIH-MG e da Abrajet-MG. Presidente da Ajoia Brasil – profissional de hotelaria e consultor hoteleiro com 35 anos de experiência no setor.
www.minasconexao.com.br

