Créditos: PSDB Divulgação
29-08-2026 às 09h21
Samuel Arruda*
A eleição para o Senado em Minas Gerais ganhou nesta sexta-feira (28) um novo protagonista — e, com ele, uma dose considerável de incerteza.
Depois de anunciar que não disputaria nenhum cargo eletivo em 2026, Aécio Neves (PSDB) voltou atrás e oficializou sua candidatura a uma das duas vagas de senador pelo Estado. O anúncio ocorreu na sede do PSDB mineiro, em Belo Horizonte, diante de dirigentes partidários e aliados.
A decisão encerra uma das maiores reviravoltas da eleição mineira até agora. Aécio havia decidido ficar fora da disputa, mas passou a receber pressão de prefeitos, empresários e lideranças políticas para reconsiderar a decisão. Nesta sexta, confirmou o retorno à arena eleitoral.
O argumento central apresentado pelo tucano é a necessidade de defender Minas Gerais no Senado, especialmente nas discussões sobre a dívida do Estado com a União. Aécio pretende transformar a questão fiscal mineira em uma das principais bandeiras de sua campanha.
Mas, eleitoralmente, a consequência é outra: a entrada de Aécio muda a matemática da disputa pelas duas vagas.
O cenário agora: cinco candidatos para duas vagas
A disputa que já vinha sendo acompanhada com atenção por analistas agora passa a ter cinco nomes claramente competitivos:
Marília Campos (PT)
Aécio Neves (PSDB)
Carlos Viana (PSD)
Domingos Sávio (PL)
Marcelo Aro (PP)
A situação é particularmente interessante porque Aécio não chega às urnas como um desconhecido ou um candidato experimental.
Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho, Marília Campos tinha 18% e Aécio 16%, enquanto Carlos Viana, Marcelo Aro e Domingos Sávio apareciam mais atrás, dependendo do cenário testado.
Ou seja: o tucano retorna à disputa com uma vantagem que poucos candidatos conseguem ter — alto conhecimento de nome e uma base eleitoral previamente identificada.
Marília continua sendo a candidata a ser batida?
Por enquanto, sim.
Marília Campos aparece na liderança dos levantamentos mais recentes. Pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta semana apontou 24% para a petista, enquanto a segunda vaga aparecia tecnicamente embolada entre diferentes candidatos.
O dado mais importante, entretanto, é que a candidatura de Aécio altera a leitura da segunda vaga.
Marília está posicionada em um campo político bastante diferente do tucano. A disputa mais direta de Aécio tende a ocorrer no eleitorado de centro e centro-direita.
É aí que entram Marcelo Aro e Carlos Viana.
Aro pode ser um dos mais atingidos
Entre os adversários, Marcelo Aro talvez seja aquele que tenha mais motivos para observar a candidatura de Aécio com preocupação.
Aro construiu uma candidatura competitiva no campo de centro-direita e vinha aparecendo no pelotão da frente das pesquisas.
O problema é que Aécio possui um ativo que nenhum dos demais candidatos desse campo consegue reproduzir: a memória eleitoral de décadas de atuação política em Minas.
Foi governador, senador, deputado federal e candidato à Presidência da República. Sua volta pode despertar um voto de identificação entre eleitores que não estavam necessariamente mobilizados pelos demais candidatos.
A disputa, portanto, deixa de ser apenas ideológica.
Passa a ser também uma disputa por recall eleitoral, estrutura partidária e capacidade de ocupar o centro político mineiro.
Carlos Viana tem um eleitorado para defender
Carlos Viana também está no centro da turbulência provocada pelo retorno de Aécio.
O senador já possui mandato e exposição estadual, além de uma base construída ao longo de sua trajetória política.
Mas Aécio pode disputar parte do eleitorado que procura um candidato de oposição ao governo federal sem necessariamente se identificar integralmente com o bolsonarismo.
Essa diferença pode ser decisiva.
Viana terá de preservar seu eleitorado enquanto tenta avançar sobre os indecisos. Aécio, por sua vez, precisa convencer o eleitor de que seu retorno não representa apenas uma volta ao passado, mas uma alternativa para o futuro político de Minas.
Domingos Sávio pode ter uma vantagem
A situação de Domingos Sávio é um pouco diferente.
Ligado ao PL e ao campo conservador, o deputado disputa um eleitorado que tem maior identidade ideológica.
Por isso, a chegada de Aécio pode atingir menos diretamente sua base do que a de candidatos de centro.
Mas há uma questão estratégica: até que ponto Domingos Sávio consegue crescer para além do eleitorado bolsonarista/conservador?
Se conseguir, poderá disputar a segunda vaga com força.
Se permanecer restrito a seu nicho, poderá ser ultrapassado por candidatos capazes de dialogar com um espectro mais amplo do eleitorado.
O que dizem os analistas?
A análise publicada pela Itatiaia mostra justamente esse ponto: com Aécio na disputa, Marília Campos, Aécio, Carlos Viana, Domingos Sávio e Marcelo Aro passam a formar o núcleo mais competitivo da corrida pelas duas vagas.
O cientista político Malco Camargos, da PUC Minas, avalia que o retorno de Aécio representa uma tentativa de reconstrução de seu espaço na política mineira.
O tucano ainda tem reconhecimento, mas não necessariamente conserva a força eleitoral de seu período de maior protagonismo.
Essa é a grande incógnita da campanha.
Aécio é conhecido. A pergunta é quanto desse conhecimento ainda se converte em voto.
Aécio começa melhor do que parece
Existe um dado que pode favorecer o tucano.
Antes mesmo de confirmar sua candidatura, Aécio já aparecia bem colocado em pesquisas.
Em maio, por exemplo, levantamento Real Time Big Data apontou:
Marília Campos — 22%
Aécio Neves — 15%
Marcelo Aro — 14%
Domingos Sávio — 10%
Em outro cenário, Carlos Viana aparecia com 12%, Aécio com 12% e Marcelo Aro com 13%.
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CartaCapital
Isso significa que o retorno do tucano não começa do zero.
Ao contrário: ele pode começar a campanha já instalado no grupo que disputa uma das duas vagas.
O problema de Aécio
O principal obstáculo é o mesmo que pode ser sua maior força: seu passado político.
Aécio tem uma trajetória conhecida por praticamente todo o eleitorado mineiro. Isso significa reconhecimento, mas também significa rejeições e memórias negativas.
Sua campanha terá de equilibrar duas imagens.
De um lado, o Aécio ex-governador, ex-senador e líder político de projeção nacional.
De outro, o Aécio que perdeu espaço na política nacional depois da eleição presidencial de 2014 e passou por um longo período de desgaste político.
O tucano aposta agora na reconstrução da imagem como político mineiro, deixando a disputa presidencial em segundo plano.
É uma estratégia inteligente: quanto menos a eleição para o Senado for tratada como um plebiscito sobre o passado nacional de Aécio, maior a possibilidade de ele transformar sua experiência em vantagem.
Quem está melhor hoje?
1. Marília Campos — vantagem
É quem aparece de maneira mais consistente na liderança das pesquisas.
Tem uma base política própria e um eleitorado que não depende diretamente da disputa entre os candidatos de centro-direita.
Situação: favorita a uma das vagas.
2. Aécio Neves — forte candidato à segunda vaga
Volta à disputa com conhecimento de nome muito alto e pesquisas anteriores que já mostravam desempenho competitivo.
Seu desafio é recuperar o eleitorado que se afastou e impedir que sua entrada seja neutralizada pelos adversários.
Situação: candidato com condições reais de eleição.
3. Carlos Viana — na briga
Tem mandato, visibilidade e eleitorado próprio.
Mas será obrigado a defender espaço justamente contra um candidato com enorme reconhecimento estadual.
Situação: competitivo, mas pressionado pela chegada de Aécio.
4. Marcelo Aro — risco de perda de espaço
Está no grupo de candidatos competitivos, mas sua faixa de eleitorado é uma das que podem sofrer maior concorrência com o tucano.
Situação: precisa reagir rapidamente.
5. Domingos Sávio — depende da consolidação do voto conservador
Possui uma base ideológica mais definida e pode resistir melhor à entrada de Aécio.
Seu desafio é ampliar o eleitorado para garantir uma das duas vagas.
Situação: competitivo, mas precisa crescer.
A eleição pode ser decidida pelo segundo voto
Há uma particularidade importante na eleição para o Senado: cada eleitor poderá votar em dois candidatos.
Isso abre espaço para combinações.
Um eleitor pode, por exemplo, votar em Marília e Aécio. Outro, em Aécio e Domingos Sávio. Outro, em Aro e Viana.
Por isso, a campanha não será apenas uma guerra para ser o primeiro colocado.
Será uma disputa para conseguir entrar na dupla de preferência do eleitor.
Essa dinâmica pode beneficiar candidatos com capacidade de construir pontes para além de sua própria base.
A grande incógnita: para onde vai o eleitor de centro?
É justamente aqui que a candidatura de Aécio pode produzir o maior terremoto.
Se o tucano crescer, alguém terá de perder espaço.
E, neste momento, os candidatos mais vulneráveis parecem ser Aro e Viana.
Domingos Sávio possui uma identidade ideológica mais definida. Marília tem uma base petista consolidada.
Aécio, por sua vez, tenta ocupar o espaço entre os dois polos.
É uma estratégia que pode funcionar — mas também pode produzir o efeito contrário: dividir tanto o eleitorado de centro-direita que nenhum dos candidatos consiga abrir vantagem suficiente.
A aposta de Aécio
A campanha tucana deverá tentar transformar a eleição em uma escolha entre experiência e renovação.
Aécio quer vender ao eleitor mineiro a ideia de que seu retorno ao Senado não é uma operação de sobrevivência política, mas uma resposta a uma necessidade concreta de Minas.
A dívida do Estado com a União será a principal bandeira.
A mensagem é simples: Minas precisa de alguém com trânsito em Brasília para defender seus interesses.
É um argumento que pode encontrar receptividade, especialmente entre prefeitos e lideranças políticas preocupadas com as finanças estaduais.
A disputa que começa hoje
A fotografia eleitoral ainda pode mudar muito.
A candidatura de Aécio foi oficializada apenas nesta sexta-feira. Portanto, as pesquisas que captam o novo cenário ainda estão por vir.
Mas os dados disponíveis já permitem uma conclusão:
Aécio não voltou para ser figurante.
Ele entra numa eleição em que Marília Campos aparece na frente e quatro candidatos disputam acirradamente o espaço restante.
A pergunta agora não é se Aécio tem condições de disputar uma vaga.
Ele já demonstrou que tem.
A pergunta é outra:
quem vai pagar a conta eleitoral pela volta do tucano?
Marcelo Aro? Carlos Viana? Domingos Sávio?
Ou o próprio Aécio, caso o eleitor mineiro conclua que seu ciclo político já passou?
A resposta começa a ser construída a partir de hoje.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

