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28-08-2026 às 10h23
Samuel Arruda*
Depois de anunciar que encerraria a carreira eleitoral para se dedicar ao comando do PSDB, ex-governador de Minas reconsidera decisão e avalia disputar uma das duas vagas ao Senado. Movimento é calculado, mas também carrega riscos diante da transformação do eleitorado mineiro
A política mineira ganhou, nesta semana, uma reviravolta que poucos dias atrás parecia improvável. Depois de anunciar que não disputaria nenhum cargo nas eleições de 2026, o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, voltou a considerar seriamente uma candidatura ao Senado por Minas Gerais.
O anúncio ainda não havia sido formalizado até esta quinta-feira (27), mas a operação política está em andamento e poderá ser oficializada nesta sexta-feira. A mudança tornou-se possível depois da desistência de Marcelo Heringer, do PDT, e da negociação para que o candidato tucano Gustavo Galassi também deixe a disputa. Com isso, abre-se espaço para Aécio entrar na corrida mesmo com a campanha já iniciada. A legislação eleitoral permite a substituição de candidatos dentro de determinadas condições e prazos.
A pergunta, portanto, não é apenas por que Aécio mudou de ideia. É por que decidiu fazê-lo justamente agora.
A pressão que veio de Minas
Quando anunciou, em 4 de agosto, que não concorreria em 2026, Aécio afirmou que pretendia permanecer à frente do PSDB e trabalhar para reconstruir uma alternativa política de centro no país. Também estabeleceu como objetivo fortalecer a bancada federal tucana.
A decisão veio depois de o mineiro avaliar que uma candidatura presidencial teria pouco espaço em uma eleição marcada pela polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. Aécio também carregava um índice elevado de rejeição em pesquisas nacionais, o que dificultava uma tentativa de voltar ao Palácio do Planalto.
Para o Senado, porém, o cálculo é diferente.
Segundo relatos publicados nesta quinta-feira, prefeitos, empresários e dirigentes partidários passaram a pressionar pelo retorno de Aécio à disputa. Entre os argumentos apresentados pelos aliados está a avaliação de que sua experiência política e sua capacidade de articulação em Brasília poderiam ser úteis a Minas Gerais em um momento particularmente delicado para as contas públicas do Estado.
A dívida de Minas com a União já ultrapassa a marca de R$ 200 bilhões, transformando a renegociação do passivo em um dos principais temas da eleição estadual. Aécio pretende justamente explorar sua experiência política em Brasília e construir a candidatura em torno da ideia de “defesa de Minas Gerais”.
É uma mudança importante de estratégia: em vez de tentar reconstruir uma candidatura nacional de centro, Aécio volta os olhos para seu principal patrimônio político — Minas Gerais.
O peso de ter governado Minas por oito anos
Aécio não é um candidato qualquer na política mineira. Ele governou o Estado de 2003 a 2010 e foi reeleito em 2006 com 77,03% dos votos válidos, uma das maiores votações já obtidas por um candidato ao governo mineiro.
Seu governo ficou marcado pelo chamado “Choque de Gestão”, programa que buscava reorganizar a máquina pública, controlar despesas e introduzir mecanismos de avaliação e cobrança de resultados. A administração tucana também construiu uma marca de responsabilidade fiscal e modernização administrativa que permanece associada ao nome de Aécio.
Na reta final de seu segundo mandato, sua avaliação era elevada. Levantamentos compilados em estudo da UFMG apontam que a avaliação ótimo/bom do governo chegou a 75% em 2009. Em março de 2010, quando deixou o cargo para disputar o Senado, o Datafolha registrava 73% de ótimo/bom.
Esse é, provavelmente, o principal argumento eleitoral de Aécio: ele pode tentar transformar a memória de seu período no governo em uma espécie de capital político acumulado.
Há, contudo, uma diferença fundamental entre a Minas de 2006 e a Minas de 2026.
O eleitor que Aécio encontrará é outro
Aécio deixou o governo há 16 anos. Nesse período, Minas passou por governos de Antonio Anastasia, Fernando Pimentel, Romeu Zema e, agora, Mateus Simões. A política mineira também sofreu profunda transformação.
O PSDB perdeu espaço, enquanto novos polos surgiram à direita, à esquerda e no centro. O próprio Aécio deixou de ser o protagonista quase absoluto que foi durante os anos de seu governo.
Além disso, sua imagem nacional sofreu desgaste. Em julho, pesquisa AtlasIntel/Bloomberg apontou Aécio como um dos políticos com maior índice de rejeição entre os nomes testados nacionalmente, com 54%. Esse dado explica, em parte, por que uma candidatura presidencial seria muito mais difícil do que uma candidatura ao Senado em seu Estado.
O Senado, entretanto, oferece uma oportunidade distinta: são duas vagas em disputa, e o eleitor pode escolher dois candidatos. Isso reduz a necessidade de Aécio construir uma maioria isolada e permite uma estratégia de associação com outra candidatura forte.
Aécio tem chance real?
Sim, mas não parte como favorito.
A fotografia eleitoral disponível neste momento mostra uma disputa bastante aberta. Na pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto, Marília Campos aparecia com 11% das intenções de voto para o Senado, Carlos Viana tinha 8% e Domingos Sávio, 6%. Marcelo Aro aparecia com 5%. Ao mesmo tempo, 24% dos eleitores estavam indecisos e 21% declaravam voto branco ou nulo. Na pesquisa espontânea, impressionantes 84% ainda não sabiam em quem votar.
Isso é fundamental para entender a aposta de Aécio.
Os números atuais não podem ser interpretados como uma sentença definitiva porque Aécio sequer estava formalmente na disputa quando o levantamento foi realizado. Portanto, seu eventual desempenho não foi medido de maneira adequada nessa fotografia eleitoral.
E existe um enorme contingente de eleitores ainda disponível.
Se Aécio conseguir recuperar parte da lembrança positiva de seus dois mandatos, apresentar-se como uma liderança experiente e, principalmente, construir uma narrativa sobre a defesa dos interesses de Minas em Brasília, pode rapidamente entrar no grupo competitivo.
O problema: memória positiva não é necessariamente voto
O maior desafio de Aécio é justamente transformar o passado em futuro.
Seu histórico administrativo ainda pode ser explorado eleitoralmente. Mas também existe o desgaste provocado por anos de exposição nacional, pelas disputas políticas e pelas controvérsias que acompanharam sua trajetória depois de deixar o governo mineiro.
A candidatura, portanto, terá de responder a uma pergunta simples: o eleitor mineiro vê Aécio como uma liderança experiente que pode voltar a representar Minas ou como um político de uma era que já passou?
A resposta provavelmente será diferente conforme a região, a faixa etária e a orientação ideológica do eleitor.
E há outro fator: a eleição de 2026 não é apenas uma disputa entre nomes. É também uma disputa entre campos políticos.
De um lado, candidatos identificados com o lulismo. De outro, nomes ligados ao bolsonarismo e à direita. No meio, existe um espaço que Aécio pretende ocupar, apresentando-se como uma alternativa de centro e como uma voz mineira capaz de dialogar com diferentes forças.
O apoio de Alexandre Kalil é significativo nesse sentido. O candidato ao governo de Minas pelo PDT já declarou apoio a Aécio para o Senado, apesar de divergências políticas anteriores.
Uma candidatura que pode mexer no tabuleiro
A entrada de Aécio não significaria apenas acrescentar mais um nome à cédula. Ela pode alterar alianças, estratégias e distribuição de votos.
O primeiro efeito seria sobre o próprio PSDB, que passaria de uma posição de quase retirada da eleição para uma candidatura com um dos nomes mais conhecidos de sua história recente.
O segundo seria sobre os candidatos que disputam o eleitorado de centro. Aécio teria condições de buscar votos entre eleitores que não se identificam nem com o PT nem com o bolsonarismo.
O terceiro seria simbólico: sua volta representaria a tentativa de reconstrução de uma carreira eleitoral que parecia encerrada.
Há apenas três semanas, Aécio dizia que havia escolhido permanecer na presidência do PSDB e não disputar nenhum cargo. Agora, diante de uma janela inesperada criada pela reorganização das candidaturas ao Senado, pode estar fazendo exatamente o contrário.
O cálculo de Aécio
A reviravolta parece menos uma mudança emocional do que um cálculo político.
Aécio percebeu que uma candidatura nacional seria praticamente inviável diante da polarização e de sua rejeição. Em Minas, porém, existe um patrimônio político construído ao longo de décadas, dois mandatos de governador, uma eleição histórica de 2006, uma passagem pelo Senado e uma rede de prefeitos e lideranças que ainda lhe é favorável.
A desistência de candidatos aliados criou a oportunidade. Os pedidos de prefeitos e lideranças forneceram a justificativa política. E a existência de duas vagas para o Senado tornou a operação eleitoralmente possível.
Resta saber se esse patrimônio ainda é suficiente.
Aécio tem condições reais de chegar ao Senado, mas não pode contar apenas com o passado. A eleição será um teste sobre a capacidade de uma liderança que dominou a política mineira durante anos de reconquistar um eleitorado que mudou profundamente.
Se conseguir transformar sua experiência em uma mensagem atual — sobretudo em torno da crise financeira de Minas e da capacidade de articulação em Brasília —, sua candidatura pode se tornar competitiva rapidamente.
Se depender apenas da lembrança dos governos de 2003 a 2010, o risco é transformar uma grande memória política em uma candidatura voltada para um eleitor que já não existe.
É justamente aí que estará o desafio de Aécio: não provar que foi importante para Minas, mas convencer o mineiro de 2026 de que ainda pode ser importante para o Estado.
A matéria pode ganhar ainda mais força se você quiser uma versão mais opinativa e com cara de coluna política, explorando o paradoxo entre o legado do “Choque de Gestão”, a rejeição atual e a tentativa de Aécio de ressuscitar o PSDB em Minas.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

