Créditos: Magnific
01-08-2026 às 07h51
Samir Modad (*)
Como de costume, fui dormir às 3 horas da manhã.
Essa hora é definida como de intensa atividade sobrenatural – é chamada de hora morta, o oposto da hora em que Jesus Cristo morreu, às 3 horas da tarde.
Logo fui acordado pelo meu amigo Dante, sentado à beira da cama, dizendo que iríamos numa viagem.
Pediu-me para que eu levasse oito moedas, quatro para ele e quatro para mim, para pagarmos o barqueiro, para atravessarmos o lago de piche, duas para cada um, nas travessias de ida e volta. Pediu, ainda, para que levasse o resto de vinho Madeira que eu havia tomado mais cedo.
De certo, perguntei:
— Onde vamos? Que lago de piche é esse?
Ele respondeu:
— É o lago fervente de piche que temos que atravessar para chegarmos ao Inferno.
Perguntei:
— Vamos ao inferno?
Meu amigo Dante respondeu:
— Sim, hoje você conhecerá o inferno!
Chegamos à beira do lago e logo o barqueiro, saindo das sombras e do vapor quente que subia do piche, apareceu.
O barco era negro e muito antigo; já o barqueiro tinha dois metros de altura, vestia um manto preto, também muito antigo. Não dava para ver o seu rosto. Não segurava a gadanha da morte, mas um enorme remo com caveiras esculpidas. Pagamos o barqueiro com quatro moedas para a travessia de ida.
Dante olhou meu rosto um pouco assustado e disse:
— Calma, não é a morte, é apenas um dos seus eternos discípulos.
Chegamos do outro lado e Dante disse-me:
— Aqui começa o inferno.
Andamos um pouco e nos deparamos com um portão negro, macabro, mas muito fácil de abrir, apesar do seu tamanho.
Sobre esse portão, o Portão do Inferno, estão escritas as seguintes palavras: “Lasciate ogni speranza voi ch’entrate”, do italiano: Abandonai toda esperança, vós que entrais.
Dante disse:
— Vamos entrar e descer direto ao nono e último círculo.
Perguntei:
— E o aviso?
Ele respondeu:
— Você não está morto, só se aplica aos mortos. Além disso, Virgílio, o poeta, já está nos esperando. Nós já conhecemos tudo; você não correrá nenhum perigo, só verá muita coisa.
Atravessamos o nada agradável portão e chegamos a uma antessala, conhecida como ante-inferno, onde se via uma fila enorme de pessoas mortas e alguns lugares marcados para aqueles que ainda não haviam morrido, todos para serem julgados por Minos, o juiz do inferno.
Dante então disse:
— Todos terão um julgamento, e nos lugares marcados estão os nomes dos que ainda não desceram.
A curiosidade foi grande e perguntei:
— Posso ler alguns dos nomes que ainda irão descer?
Dante respondeu:
— Claro que sim, veio para conhecer e saber.
Virgílio, o poeta, apareceu e me acompanhou para ler os nomes nos lugares reservados.
O interessante é que, em cada lugar marcado, dá para se ver o nome e a pessoa aqui na Terra.
Foi então que, chegando mais perto, vi:
De um lado de um dos lugares havia um cavalo negro enorme. Seus cascos eram muito grandes, seus olhos eram vermelhos e fogo saía pelas suas ventas.
Perguntei a Virgílio:
— Por que esse cavalo ficava ali de prontidão e sobre suas deformidades?
Ele respondeu:
— Essa é uma criação do demônio Orabas. Ele fica aguardando a subida dos agiotas, aqueles que, por usura, destroem famílias. Usa essas patas gigantescas para destruir o patrimônio e os poucos bens dos devedores. Cada um que chega é levado por esse cavalo para o seu julgamento. Alguns escapam da justiça dos homens, mas, no final, acabam chegando aqui.
Foi então que, olhando para baixo, vi o primeiro da fila, que descerá logo após a sua morte. Era um agiota conhecido, muito sádico e perverso, de nome Pinctus. Essa raiz latina deu origem a sobrenomes na Terra.
Depois observei outro conhecido. Também esperando a morte para descer, por sua mentira causou a morte de 700 mil, com um sofrimento brutal, sem respiração, destruindo famílias inteiras. Esse monstro terá um julgamento em ritmo sumário, antes de descer ao nono círculo, onde seu nariz ficará coberto pelo gelo.
Encontrei ainda o lugar de um traidor da Pátria e do Povo, por pirraça, ira e vantagens. Traição é considerada o maior pecado e recebe a punição máxima. Segundo Dante, vai direto para o nono círculo.
O chefe de uma nação, que se julga o dono do mundo, o senhor das guerras, o financiador de assassinatos de crianças em massa, usando uma fralda suja e jogando golfe, enquanto a laranja acaba de apodrecer, também pude ver.
Ainda consegui ver o lugar reservado ao genocida, assassino de crianças do século XXI, criado pelas mãos do próprio Satanás, que aguarda o seu retorno.
Os lugares reservados eram muitos. Logo cansei e voltei, com o poeta Virgílio, ao encontro de Dante. Juntos descemos ao nono círculo.
Nesse círculo havia um lugar chamado Antenora, onde existe um lago todo congelado, de nome Cocito, onde as almas ficam só com o pescoço de fora.
Perguntei a Dante:
— Por que gelado e não de fogo?
Ele logo respondeu:
— Para a frieza dos atos, a frieza da falta de amor, a frieza das omissões e, principalmente, a frieza dos espíritos. O certo é um lugar muito frio, ao invés de quente.
Em Antenora, dentro do lago Cocito, vi todos os homens ruins do passado, como os que chegaram depois da última visita de Dante e Virgílio:
Leopoldo, que instituiu o método de cortar membros do povo africano, e todos os que roubaram as riquezas da África, sob o pretexto de levar desenvolvimento. Vi alguns que mataram em nome de Deus. O lago é muito grande, tem lugar para muitos e muitos ainda.
Dante me disse que todos os que eu vi e ainda não desceram, com toda certeza, virão para esse lugar frio, escuro, de silêncio sepulcral, onde Deus não ouve.
Antes de terminarmos a visita, já estávamos no último circuito do inferno.
Perguntei:
— Onde fica esse lugar?
Os dois responderam:
— Esse lugar foi criado pela queda de Lúcifer, em Jerusalém, a Terra Santa. Ali está o portal do inferno.
Pensei… a “Terra Santa”.
Tornamos a pagar o barqueiro para atravessar o lago de piche. Desta vez pagamos seis moedas, pois o poeta Virgílio veio conosco.
Sentado novamente no beiral da minha cama, Dante perguntou-me:
— O que achou da visita?
Respondi:
— Divina, uma Divina Comédia.
Os dois, agora já indo embora, viraram e perguntaram:
— Você não perguntou pelo Paraíso?
Respondi:
— Não tive interesse. Vi o que eu queria ver.
Os dois, com uma risada ligeiramente sarcástica, falaram ao mesmo tempo:
— Nós já sabíamos.
Após darem alguns passos, lembrei da garrafa de vinho Madeira que levamos e perguntei:
— E a garrafa de vinho Madeira?
Sorrindo, responderam:
— Era um vinho muito, mas muito bom; então bebemos tudo, enquanto você fazia as perguntas.
Logo desapareceram.
(*) Samir Modad é jornalista

