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14-07-2026 às 09h19
Daniela Rodrigues Machado Vilela*
Não há um manual com procedimentos para se chegar a um resultado predeterminado ao final de uma vida. O aprendizado se faz mediante erros e acertos. Desta feita, com o passar do tempo, tudo se modifica, ressignifica. Os dias têm luz, sombra e escuridão. Também a existência humana se perfaz de alegrias, dúvidas e tristezas.
Várias circunstâncias e acontecimentos prejudicam o cotidiano: como não realizar as tarefas, deixá-las para depois, procrastinar. Não estabelecer algo como prioridade. Talvez, muito disto se deva à ausência de autocontrole. Realizar apenas o que se quer, implica em ser escravo dos instintos.
Adiar tarefas causa sofrimento, ansiedade. Decidir é tomar para si a própria vida, estabelecer prioridades e executá-las, o que reverbera em ato de responsabilidade. Vencer o que paralisa é gesto de coragem, enfrentamento do “eu preguiçoso” que não permite o realizar.
Também, é importante ressignificar as perdas, tombos e pancadas da trajetória. Enquanto há vida existe possibilidade e potencialidade de mudança para que se percebam novas oportunidades, cores e sabores. É necessário perdoar e alegrar-se para, assim, conseguir seguir adiante.
Cada ser tem sua história e a constrói, esculpe, redesenha e ressignifica, diariamente, diante das circunstâncias e apostas realizadas. É fácil idealizar, difícil é colocar em prática, ou seja, sair do terreno da abstração e ir para a práxis.
A vida é um jogo de estratégia com escolhas que se realizam diante das possibilidades.
Ao se optar por uma visão determinista dos fatos e acontecimentos sequer se aceita a existência de escolhas. Ademais, muitas das circunstâncias vivenciadas aparentemente suscetíveis de opção, escolha, não o são. Há influência de fatores genéticos, outras propiciadas pelo meio social, cultural, costumes, hábitos, visões de mundo, classe social e tantos outros fatores. Porém, não crer em ações modificadoras da realidade apequena a existência.
Parece ser mais assertivo acreditar que ao longo de uma vida há o que seja possível modificar e o que não. Há o destino, mas também as mudanças voluntárias de curso. Tudo é incerto, transitório e movediço, mas vale a pena apostar nos sonhos, na coragem da mudança.
Para o bem ou para o mal, a vida se faz de plantações, colheitas e imprevisibilidades. Às vezes, mesmo diante de uma bela plantação algo inesperado pode destruir tudo. Metaforicamente, isto vale para a vida. Porém, experimente não plantar um belo jardim, perceberá que as possibilidades de colheita se tornam improváveis.
Então, ao longo de uma jornada, semeie coisas boas e não chore pelo que não tem controle, se é que estamos no controle de algo.
A vida é como um teatro de bonecos, marionetes. A maioria crê na existência de um maestro, arquiteto, que a tudo coordena, ordena e conduz no universo.
Outro aspecto, é que pode acontecer um arrependimento sobre algo realizado, mas quando revisitamos a lembrança é importante valorizar a própria jornada, ressignificar e entender que somos todos diletantes na arte de viver. Por vezes, a decisão tomada foi a única que se enxergou naquele momento, mediante a experiência, visão de vida e mundo que tínhamos.
A vida não é um jogo em que se ganha sempre, se é que se ganha alguma vez de verdade. O movimento pendular, a dualidade, do bem e do mal, eis a essência de tudo. Se a tristeza bateu à porta hoje, não se preocupe, amanhã tudo se renova e inova, nenhum dia é igual ao outro.
Nada perdura. Nisto reside a beleza da vida e a poesia de cada dia. Pessoas e momentos são irrepetíveis. Nem só os sorrisos ensinam, as lágrimas, às vezes, sublimam.
Mudar de direção faz parte. A vida é um palco em que entramos para atuar do modo possível, cumprir um papel, realizar uma missão. É preciso aprender sempre, mas é difícil para todos, sem exceção.
Que consigamos ter leveza de corpo, alma e espírito. Entender que o desempenho é sempre provisório, imperfeito e cheio de desacertos.
O significado da vida cabe a cada um lhe conceder. Viver tem muito de artístico, envolve paixão nas escolhas, mas, às vezes, racionalidade também. Na pintura, é importante o uso das cores. Comparativamente, na vida, nada é de todo limpo, tudo é matizado em cores e possibilidades.
Enfim, pinte, invente, dê à sua existência seu traçado. Componha sua obra prima. Há um universo de opções, só não propicie, voluntariamente, dor a ninguém, ordene sua vida, mas busque deixar um legado de bondade, leveza e sabedoria. A arte para compor cada dia e desenhar sua trajetória é só sua. Boa viagem caro leitor!
*Doutora, Mestra e Especialista em Direito pela UFMG. Cursou Residência Pós-doutoral pela também UFMG, com financiamento público da FAPEMIG. Professora Universitária. Pesquisadora com ênfase em Filosofia, Trabalho e Linguagem. Diletante na arte da pintura e da vida.

