Créditos: Diorginis Pandini
10-07-2026 às 11h34
Marcelo Boero*
Em 2023, com apoio da National Geographic Society, o explorador brasileiro Marcio Pimenta percorreu sozinho, em um Jeep, mais de 11 mil quilômetros pela Patagônia e pelos canais austrais da América do Sul, refazendo os caminhos descritos nos diários de Charles Darwin durante a viagem do HMS Beagle, entre 1832 e 1835. Anos depois, a travessia deu origem a “Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo”, livro publicado pela Editora Solisluna.
Mais do que uma reconstrução histórica, o explorador utiliza os passos de Darwin como ponto de partida de uma jornada para investigar o tempo, em suas diferentes escalas, e o deslocamento interior que surge quando alguém decide permanecer tempo suficiente em uma paisagem.
A imagem mais difundida do naturalista inglês ainda está ligada às Ilhas Galápagos, entre tartarugas gigantes e tentilhões de bicos distintos. Mas foi na Patagônia e na Terra do Fogo que muitas de suas ideias começaram a tomar forma. A escassez de informações sobre esse período foi o ponto de partida da expedição de Pimenta, que percorreu territórios essenciais para Darwin conceber a gênese da teoria da evolução.
“O Darwin que emerge do livro está distante da imagem do cientista consagrado. É um jovem em formação, moldado pela dúvida, pela paciência e pela disposição de mudar de ideia. Ele não surgiu pronto nas Galápagos. Suas ideias começaram a germinar antes, na Patagônia, entre fósseis, arbustos e ventos” – Marcio Pimenta, explorador e escritor
“Encontrando Darwin” é o ponto de partida para uma investigação mais ampla sobre a condição humana, que se constrói no encontro entre paisagem, história e experiência. O livro articula diferentes camadas da mesma jornada, que começa em Porto Alegre e vai até Ushuaia.
Há a experiência prática, marcada por imprevistos e decisões solitárias; o fio histórico, que revisita a viagem do HMS Beagle – navio usado por Darwin em suas expedições – e o contexto científico da época; e um movimento mais silencioso, de observação e permanência, em que o território deixa de ser cenário e passa a atuar como argumento, marcado por histórias densas e, muitas vezes, por tragédias silenciosas.

Ao longo da travessia, Pimenta descreve com franqueza os efeitos da experiência em ambientes extremos. Em meio a estradas isoladas, o explorador enfrentou um colapso por estresse agudo que exigiu atendimento hospitalar em Ushuaia. O episódio é narrado sem romantização. “A fragilidade não é o oposto da coragem, mas parte dela”, afirma.
“A expedição incluiu ainda uma investigação sobre os povos que habitaram a região há milênios, como Selk’nam, Yámana, Kawésqar e Tehuelche. Suas histórias, profundamente conectadas ao território, foram drasticamente impactadas pela colonização europeia. As visitas feitas a museus, estâncias e comunidades locais ampliam essa dimensão histórica e revelam outras camadas da paisagem que Darwin também atravessou.” – Marcio Pimenta, explorador e escritor
Ao usar a jornada de Charles Darwin como ponto de partida, o livro desloca o foco da história da ciência para a experiência de quem atravessa o mundo e é transformado por ele. Entre relato de viagem, história da ciência e ensaio contemporâneo, Encontrando Darwin investiga como paisagens, culturas e ideias atravessam o tempo. Pimenta sugere que compreender um lugar, assim como a nós mesmos, exige mais do que passagem, exige atenção. “A exploração verdadeira não é espetáculo, é observação. Não é conquista, é compreensão. Não é ir longe, é saber olhar”, resume.
Sobre o autor:
Formado em Economia, com doutorado em Relações Internacionais e especialização em Estudos Americanos, Marcio Pimenta deixou a carreira acadêmica em 2013 para se dedicar integralmente à fotografia e à exploração. Explorador, escritor, fotógrafo e cineasta, seu trabalho combina expedições contemporâneas, narrativa de viagem, história e reflexão sobre ciência, paisagem, cultura e conflitos. É membro do The Explorers Club e National Geographic Explorer, e já publicou nos principais veículos internacionais de jornalismo e cultura, entre eles National Geographic, Rolling Stone, The New York Times e The Wall Street Journal. Entre seus projetos anteriores estão o fotolivro Yazidis, sobre o renascimento das mulheres yazidis no Iraque pós-ISIS, o fotolivro O Homem e a Terra, sobre a relação entre a ação humana e as mudanças climáticas na América do Sul, e o curta-metragem documental Hoy’ri, filmado no Deserto do Atacama e selecionado para mais de quinze festivais internacionais. É autor de “Encontrando Darwin: uma expedição pelos confins do mundo”, publicado pela Editora Solisluna.
Instagram: @marpimenta | LinkedIn | Site (EN)

