Créditos: Divulgação
02-07-2026 às 08h41
Anna Marchesini*
Quando a narrativa confortável já não sustenta a realidade
“A verdade só encontra espaço quando se torna inevitável. Até lá, preferimos as narrativas que confortam nossas ilusões e, acima de tudo, enganam a nós mesmos.”
— Rodrigo J. Carneiro
A frase, publicada recentemente pelo filósofo Rodrigo J. Carneiro, sintetiza um dos maiores entraves do nosso tempo: a dificuldade coletiva de lidar com o real antes que ele se imponha pela força dos fatos.
A economia da ilusão
Sociedades, empresas e indivíduos operam com um excedente de narrativas. Parte delas serve à orientação. Outra parte, porém, funciona como analgésico. É mais barato, no curto prazo, manter histórias que preservam autoestima, status ou poder do que confrontar dados desconfortáveis.
O problema é que a ilusão tem prazo de validade. Ela se sustenta enquanto o custo de mantê-la for menor que o custo de encará-la. Quando essa conta inverte, o colapso é proporcional ao tempo de negação.
O ponto de inflexão
A verdade raramente chega aos gritos. Ela se anuncia em indicadores ignorados, em sintomas minimizados, em alertas tratados como pessimismo. Torna-se “inevitável” quando não há mais espaço institucional, financeiro, emocional ou físico para adiá-la.
É o diagnóstico que não se esconde mais. É a crise que já está no balanço. É a confiança pública que ruiu. Nesse momento, a discussão deixa de ser sobre preferência e passa a ser sobre sobrevivência.
O rebanho e a luz
A imagem que acompanha a reflexão traz dois símbolos: a ovelha e a lâmpada. O primeiro representa a adesão acrítica, a segurança do grupo, a delegação do pensar. O segundo, a consciência individual, o esforço de iluminar o que se prefere deixar na sombra.
Nenhuma democracia madura, nenhuma organização resiliente e nenhuma vida com propósito se constroem no rebanho permanente. Elas exigem a lâmpada acesa: crítica, dados, responsabilidade pelo próprio julgamento.
Engano que começa em casa
O trecho final é o mais duro: “enganam a nós mesmos”. Isso porque toda narrativa externa encontra terreno fértil apenas quando há conivência interna. A autodecepção é o estágio anterior à manipulação.
Quem não se faz perguntas difíceis hoje será obrigado a responder perguntas impossíveis amanhã. E o preço será pago em tempo perdido, recursos desperdiçados e oportunidades encerradas.
Da inevitabilidade à escolha,
Dizer que “a gente sempre pode mudar a direção do vento” é reconhecer agência. Mas agência sem lucidez vira voluntarismo. Mudar de rota exige, primeiro, admitir onde se está.
Sonhos não se realizam à margem da realidade. Eles se realizam quando a verdade é tratada como insumo, e não como inimiga. Proteger os sonhos, portanto, é proteger a capacidade de ver o mundo como ele é, e não como gostaríamos que fosse.
Esperar que a verdade se torne inevitável é a estratégia mais cara possível. A alternativa é ética e estratégica: antecipar o desconforto, examinar premissas, corrigir a rota enquanto ainda há margem.
Quando a verdade é escolha, ela liberta. Quando é imposição, ela apenas cobra. Entre o rebanho e a lâmpada, a sociedade que quiser futuro precisa escolher a luz.

