José Saramago - créditos: jornal Nota
20-06-2026 às 11h10
Sérgio Augusto Vicente*
Há muito tempo, pensava em ler um livro muito comentado. O tempo se passou e, em meio às prioridades outras da vida, acabei por deixá-lo de lado. No ano passado, com o falecimento de meu pai, reativei o desejo de lê-lo.
Você deve estar se perguntado o nome desse livro. Estou me referindo à obra do grande escritor José Saramago, intitulada “As intermitências da morte”. Na semana passada, ganhei-o de presente de Reinaldo Emerson e comecei a lê-lo no sábado. De lá pra cá, não consegui parar de devorar as 207 páginas. Hoje, terminei a leitura extasiado.
Nesse livro, José Saramago nos convida a pensar sobre como seria se, durante um período indeterminado e por razões cientificamente desconhecidas, a morte parasse de ceifar vidas. A fábula se passa num país não identificado, habitado por 10 milhões de pessoas, que recebem a novidade com alegria e entusiasmo. Afinal de contas, o desejo de eternidade é uma das utopias da história humana. No entanto, o que parecia ser uma ótima notícia acaba se tornando um sacrilégio, caos e pesadelo. Durante sete meses suspensa, de férias, a morte nunca foi tão aclamada. Famílias padeciam com seus entes em estado vegetativo, condenados a nunca morrerem. O sistema de saúde colapsa, por não haver desocupação dos leitos hospitalares, funerárias entram em profunda crise financeira, sistema de pensões e beneficios não suporta a pessão demográfica, autoridades da Igreja se apavoram diante do suposto fim do mistério da vida após a morte e o consequente fim da ideia de ressurreição. Filósofos questionam sobre o sentido da vida sem a morte. O regime monárquico começa a ser questionado de forma mais veemente naquele país pelos defensores do regime republicano. Afinal, como ficaria a questão da sucessão ao trono, uma vez que o rei nunca morreria?
Paradoxalmente, a morte nunca teve tamanha centralidade na vida social, no instante mesmo em que ela deixa de existir. Há, porém, um detalhe a ser considerado. A morte estava suspensa apenas dentro daquele país, de modo que os indivíduos que desejassem partir dessa pra melhor deveriam atravessar a fronteira. Famílias desesperadas com o sofrimento de seus entes doentes (padecentes) começam a atravessar a fronteira para lhes dar o descanso eterno. Porém, como a demanda era grande, essa atitude começou a atritar com os países vizinhos, que viam com maus olhos seus territórios se transformarem em cenário de mortes a céu aberto. Para além disso, havia o seguinte questionamento: as pessoas que levavam seus entes doentes para morrerem do outro lado da fronteira estavam cometendo o crime de homicídio? Um dilema ético se instaurava, sem uma eficiente resposta da lei. As autoridade públicas, na tentativa de mitigar o problema da alta pressão demográfica, organizam um esquema clandestino para levar as pessoas a morrerem nos territórios vizinhos, mesmo que essas pessoas fossem levadas rapidamente para o outro lado para darem o último suspiro e, depois, regressassem sem vida para sua “pátria” de origem, onde seriam sepultadas. Tudo isso, é claro, mediante pagamentos e transações fraudulentas.
Eis que, depois de sete meses, a morte volta a trabalhar naquele país. Um alívio? Talvez, se não fosse o agravante da demanda reprimida. Todos que, durante esse período, deveriam ter morrido de forma bem distribuída, morreram praticamente tudo de uma só vez, sobrecarregando as funerárias, que precisaram trabalhar 24h para tentarem dar conta de tantos mortos.
Por fim, a fria e esquelética morte decide expedir cartas com aviso prévio de 8 dias para as pessoas, de modo que elas pudessem ter tempo para se organizarem antes da partida. Friamente, a impiedosa morte abria os pulsos de tanto redigir e enviar cartas aos “agraciados”. Até que, num belo dia, uma carta retorna e ela (a morte) vai até a casa do sujeito verificar o que aconteceu.
De forma invisível, ela entra na casa do homem e observa atentamente a sua rotina, encanta-se por ele, por sua devoção à arte da música, compadece de sua vida solitária e, quando se dá conta, a morte mergulha num processo tão profundo de humanização que ela se torna um ser de carne e osso. Com a carta na mão, decide se materializar em uma mulher para se apresentar ao músico, tendo nas mãos a carta, que estava reticente a entregar.
Pela primeira vez, portanto, a morte se humaniza a ponto de se apaixonar pelo músico. De mãos frias, demorou a tocá-lo. Mas o amor e o desejo a dominam. Eis que o músico, condenado a receber a impiedosa carta da morte, com a definitiva e eterna sentença, acaba tendo com a Morte (com M maiúsculo) uma experiência amorosa. Ela (a Morte), quando parecia decidida a partir, depois de uma noite de amor, resolve queimar a carta e deitar-se novamente ao lado do músico, continuando, assim, toda aquela encantadora, prazerosa e humana experiência. E, assim, o livro termina com a mesma frase que começou: “No dia seguinte, ninguém morreu”. Estava explicada a intermitência da morte.
Eis uma bela reflexão sobre a morte e seus significados teológicos, filosóficos, existenciais, sociológicos, econômicos, antropológicos, etc. Um livro que te faz pensar. Em meio a pitadas de ironia e lirismo, através dele você terá a experiência de ver a morte (fria e esquelética), sem empatia, ceifadora de vidas de forma muitas vezes despropositada, transformar-se numa pessoa de carne e osso. E, por incrível que pareça, quando ela assim se apresenta, encanta-se pelo amor, pelo prazer e resolve tirar férias. Uma reflexão engraçada, louca e, ao mesmo tempo, tão provocativa… Mas uma pergunta fica no ar: até quando ela seria capaz de suportar a vida? Qual seria o seu limite? O limite da dor e dor sofrimento?
São muitas questões que esbarram em outras várias questões. Uma delas, sem dúvida, é sobre o sentido da vida sem a morte. Seria possível a vida sem a morte? Eticamente falando, o ser humano deveria ou não ter direito a escolher o momento para morrer dignamente? O caso recente do escritor Antônio Cícero é um exemplo disso, quando a sua decisão de viajar para outro país para ser submetido ao procedimento da morte assistida, após um diagnóstico de Alzheimer.
O fato é que, com ou sem religião, seguimos sem resposta, mas certos de uma coisa: a morte é parte intrínseca da vida. Não se vive quando ela se torna nosso único desejo, mas também não se vive se não tivermos a certeza de que um dia ela virá. Um dia… Sem dia e hora marcados. Imagina o que seria de nós se nascêssemos todos com a data de validade estampada na embalagem? Tal como naquela música, eu lhe pergunto: “O que você faria se só te restasse um dia?”
*Sérgio Vicente é professor, doutor em história, coord. do Museu Mariano Procópio de Juiz de Fora e editor de cultura do jornal Diário de Minas

