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28-05-2026 às 07h38
Hatsuo Fukuda, direto de Curitiba*
Piá de prédio é a expressão curitibana para designar a criança que nada sabe da vida, pois vive confinado no apartamento, longe das brincadeiras com os vizinhos da rua. Com isso, o piá de prédio perde o contato com as fontes da vida infantil que o tornarão apto (leia-se flexibilidade, companheirismo, malícia) a enfrentar os desafios da vida adulta. Não sei como em outros lugares se expressa esta gíria. Wall Street, Faria Lima, lugares onde se decidem os rumos do mundo, devem ter expressões equivalentes. O presidente Trump, inegavelmente, é um piá de prédio. Se não fosse um mimado filho de milionário não meteria os pés pelas mãos, como tem feito nos últimos dois anos.
Piá de prédio é como muitos membros do alto escalão do Palácio Iguaçu, sede do Executivo paranaense, tem se referido ao governador Ratinho Jr. Detentor de altíssima popularidade junto à população paranaense (na casa dos 80%), graças a uma administração altamente eficaz – o que surpreendeu o mundo político local, que não acreditava que o filho de Ratinho, um mero apresentador de televisão, fosse capaz de tamanho feito – Júnior desistiu de suas ambições presidenciais e resolveu ungir um completo desconhecido, membro de sua entourage, como sucessor. Seu candidato, que piedosamente não vamos nomear, não atinge dois dígitos nas pesquisas de intenções de votos. A eleição se encaminha para um desfecho: o senador Sérgio Moro, o ex-juiz da Lava Jato, com índices altíssimos de popularidade, aparentemente será o próximo governador, talvez o primeiro turno.
O mundo político, que majoritariamente apoia o governador Ratinho Júnior, e necessita de um candidato viável para alavancar suas pretensões à Assembleia Legislativa e à Câmara Federal, está apavorado. O senador Sérgio Moro é um homem sisudo e pouco dado a conversas. Sua vida pública se resume a ucasses na 13ª Vara Judicial onde pontificava seu notório saber jurídico (tão notório que o STF derrubou todas as suas condenações). O apelido com que é conhecido entre amigos e inimigos, Marreco, sintetiza sua habilidade comunicativa. Sua experiência administrativa é zero. Seu conhecimento da máquina pública é nenhum. E nada se conhece de suas conexões no mundo dos negócios e tecnocrático, onde poderia recrutar quadros que o ajudassem a governar, especialmente do poderoso agronegócio paranaense, que não costuma brincar em serviço.
Assim se poderia resumir a visão do mundo político e de negócios paranaenses com a possibilidade do senador Sérgio Moro assumir o Palácio Iguaçu: seu passado é nulo, seu presente é escasso, e o porvir será tristíssimo, pois bem diferentes são os labores de um juiz poderoso e de um governador.
Pouco importa. O eleitorado paranaense, conservador como é, encaminha-se para ungir o herói da República de Curitiba, a menos que o principal personagem da peça – o Governador Ratinho Júnior – decida-se a ouvir o mundo político e jogue seu peso numa composição política que reúna outros candidatos mais palatáveis ao eleitorado, leia-se: mais populares, mais experientes. Mas os candidatos disponíveis, Alexandre Cury, presidente da Assembléia Legislativa e altamente popular entre os prefeitos paranaenses (diz-se que ele tem mais prefeitos aliados que o próprio governador) e o ex-prefeito de Curitiba (por três mandatos), Rafael Greca, não lograram convencer o piá de prédio.
Quando assumiu o primeiro mandato como governador, a fama de piá de prédio já acompanhava Ratinho Júnior. Mas as pessoas se esqueceram que ele era um empresário e filho de um empresário. O apresentador de televisão carismático era e é um empresário tarimbado, e deu a necessária retaguarda técnica (e sua malícia) ao filho. Boa parte dos quadros que possibilitaram um governo bem-sucedido é fruto das conexões do empresário self made man Ratinho Pai. O empresário, filho de empresário, boa praça, fez o resto. Seu timing, como governador e administrador, foi perfeito, como mostra a inauguração da Ponte de Guaratuba, obra aguardada pela população paranaense há mais de cinquenta anos.
O piá de prédio costuma ser o dono da bola de capotão, portanto, sente-se dono do time, e determina sua escalação. E assim Ratinho Junior tem sido visto pelos salões do Palácio Iguaçu e da Assembleia Legislativa. Decepcionados, os deputados vêm a possibilidade de uma hecatombe em suas fileiras nas próximas eleições, enquanto observam os movimentos dos demais candidatos.
No andar da carruagem, o senador Moro levará a eleição no primeiro turno. A única solução, para a maioria dos aliados de Ratinho Junior, seria um candidato que unisse todas as forças políticas, como aconteceu nas eleições da Prefeitura de Curitiba – inclusive a esquerda – e com isso barrando o radicalismo lavajatista e seu amadorismo administrativo e político.
Mas assim como Ratinho Junior surpreendeu o Paraná revelando-se um excelente governador, aguarda-se que ele surpreenda a todos firmando uma coalizão que atenda a sua enorme base política, hoje desnorteada como uma barata tonta. Ainda há tempo. Quem viver verá.
*Hatsuo Fukuda é procurador da Justiça no Paraná e editor do blog Ecléticos
Nota: As opiniões publicadas nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam, necessariamente, a posição institucional ou editorial do Jornal.

