Yuan digital - créditos: jornal GGN
27-05-2026 às 08h14
Natália Bracarense*
Dois mil e vinte seis começou economicamente ambíguo para a grande potência econômica asiática. O PIB chinês cresceu 5,0% no primeiro trimestre, mas os dados de abril indicam perda de fôlego: a produção industrial desacelerou para 4,1%, as vendas no varejo quase estagnaram, e a fraqueza do consumo doméstico voltaram a delongar a economia. Ainda assim, por trás dessa desaceleração interna, Pequim segue avançando em uma frente menos visível ao grande público: a construção institucional da internacionalização do renminbi (também conhecido como yuan) iniciada após a crise de 2008. Ganhando impulso depois da crise financeira de 2008 e se consolidando por meio de acordos bilaterais, sistemas de pagamento, bancos de compensação, swaps cambiais e contratos energéticos, esse processo torna-se mais evidente diante da atual crise envolvendo o Irã. De fato, a geopolítica em torno do Estreito de Ormuz recoloca no centro do debate a ligação entre petróleo, poder monetário e geopolítica.
A produção chinesa desacelera, mas sua estratégia moeda continua avançando
Uma leitura apressada da atual dinâmica econômica chinesa diria que com setor imobiliário ainda fragilizado, crédito vacilante, consumo hesitante e falta de abertura para mercados financeiros internacionais, a China teria pouca capacidade de ampliar o peso internacional de sua moeda. Mas visões curto-termistas não cabem à compreensão do percurso chinês. Recentemente, o Banco Central da China (PBOC) informou que a liquidação transfronteiriça em renminbi (RMB) feita pelos bancos em nome de clientes somou 64,1 trilhões de renminbi em 2024, alta de 22,6% em relação ao ano precedente; no primeiro semestre de 2025, já eram 34,9 trilhões. Em relação ao comércio de bens, a participação RMB atingiu 27,2% em 2024 e 28,1% no primeiro semestre de 2025. Ao mesmo tempo, o BPDC ampliou swaps com bancos centrais, autorizou novos bancos de compensação em Maurício e Turquia e reforçou a articulação entre Xangai, Hong Kong e o mercado offshore.
Os números internacionais confirmam avanços, mas também deixam claro o limite atual. No Fundo Monetário Internacional (FMI), o RMB respondeu por 1,95% das reservas cambiais globais no quarto trimestre de 2025, bem abaixo do dólar e do euro (em torno de 60% e de 20% respectivamente). No mercado cambial, porém, a moeda chinesa ganhou espaço: no levantamento trienal do BIS de abril de 2025, ela apareceu em 8,5% das operações globais de câmbio, mantendo sua trajetória ascendente. Já nos pagamentos via Swift, os números são mais modestos e instáveis: o RMB representou 3,13% dos pagamentos globais em janeiro de 2026 e 2,44% em março de 2026.
Em outras palavras, o RMB não avança através de uma liberalização generalizada nem apenas através de um processo de confiança espontânea, mas sim por planejamento de longo prazo e por desenho institucional. [1] A conclusão não é que o yuan ameaça de competir com o dólar ou substituí-lo, mas que incentivos para uma de-dolarização existem e, diante disso, o yuan vem se tornando uma moeda mais usada onde há laços comerciais, financiamento e infraestrutura favoráveis. [2]
Petróleo, Irã e o teste do Ormuz
Esse processo de de-dolarização passa pela substituição do dólar por outras moedas nas três funções internacionais da moeda: meio de pagamento, unidade de valor, e reserva de valor. O fato do faturamento de aproximadamente 1/3 do comércio mundial se apoiar no dólar é uma das maiores forças da moeda estadunidense. Essa força é ainda mais evidente quanto ao comércio de petróleo, que graça aos acordos dos anos 1970s com os países do Golfo, que deram origem ao petrodólar, é majoritariamente (80-90%) faturado em dólar. [3] Essa dinâmica apoia a hegemonia do dólar como moeda internacional, já que todo o aparelho produtivo mundial, e, portanto, todos os países, utilizam petróleo e consequentemente precisam de dólares. No entanto, desde o início dos anos 2010, a China vem testando formas de ampliar o uso do yuan em transações energéticas, especialmente com países submetidos a sanções dos EUA ou interessados em reduzir sua exposição ao dólar [4].
Diante dessa estratégia, o conflito no Irã, iniciado em fevereiro de 2026, tornou esse processo e suas consequências mais visíveis porque coloca em evidência a relação entre petróleo, sanções, rotas marítimas e moeda internacional. O Estreito de Ormuz, por onde costumava passar cerca de um quinto do petróleo mundial, ficou severamente interrompido durante várias semanas. A Agência Internacional de Energia (AIE) descreveu o choque como o mais grave da história do mercado petrolífero recente: em abril, o Brent físico no Mar do Norte orbitava a US$ 130 por barril, cerca de US$ 60 acima do nível pré-conflito, enquanto os fluxos que passam pelo estreito permaneciam grandemente bloqueados. Em maio, a AIE ainda calculava perdas acumuladas superiores a 1 bilhão de barris e mais de 14 milhões de barris por dia de oferta fechada, embora parte da produção tenha sido redirecionada por rotas alternativas. [5]
Para a China, a maior importadora de petróleo do mundo, o impacto foi direto. Depois de importar 557,73 milhões de toneladas de petróleo em 2025, alta de 4,4% sobre 2024, o país viu as compras de abril de 2026 caírem para 38,5 milhões de toneladas, o menor nível mensal desde julho de 2022. Além disso, a dependência de barris politicamente sensíveis segue alta: a China comprou em média 1,38 milhão de barris por dia de petróleo iraniano em 2025, cerca de 13,4% de suas importações marítimas de cru, absorvendo mais de 80% do petróleo exportado pelo Irã. [6] Diante de um cenário de tensão geopolítica, que ameaça travar o Estreito de Ormuz, a questão monetária deixa de ser abstrata: quem financia, em que moeda, por qual sistema e sob qual risco?
A resposta da OPEP+ mostrou, ao mesmo tempo, coordenação e impotência relativa diante de um choque geopolítico dessa magnitude. A retirada dos Emirados Árabes Unidos das negociações sobre limites produtivos no seio do cartel em maio, assim como a reiterada preocupação dos outros 7 países do grupo com a segurança das rotas marítimas e demanda de flexibilidade de planos produtivos apontam para vulnerabilidades na base do sistema de petrodólar. Em outras palavras, a crise envolvendo o Irã mostra que a disputa monetária não se limita às estatísticas de reservas internacionais. De fato, o Irã vem tentando acordos bilaterais em moedas alternativas (inclusive em yuan), autorizações políticas e mecanismos de pagamento fora do circuito dolarizado. Ao mesmo tempo, durante o bloqueio, o Irã teria privilegiado navios ligados a China, Rússia, Índia e Paquistão. [7]
Nesse contexto, o yuan deixa de ser apenas uma moeda marginal e passa a funcionar como instrumento institucional de circulação em espaços atravessados por sanções e risco geopolítico. A novidade não está apenas na moeda de faturamento, mas na fragmentação institucional do poder estadunidense sobre a circulação do petróleo. Quando o Irã negocia diretamente a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, quando países asiáticos ou europeus buscam canais diplomáticos próprios para garantir abastecimento, e quando Washington reage dizendo que um sistema iraniano de cobrança ou autorização tornaria um acordo diplomático inviável, o que está em jogo é a capacidade dos Estados Unidos de manter o petróleo dentro da arquitetura única do petrodólar que mantém a hegemonia internacional do dólar desde a quebra do Bretton Wood. Arquitetura essa que se apoio nas seguintes bases: segurança naval estadunidense, precificação em dólar, reciclagem de dólares petrolíferos em títulos estadunidenses, seguros ocidentais, bancos dolarizados e sanções extraterritoriais. [4]
O “energia-yuan” aparece menos como ruptura e mais como via alternativa
Em suma, a internacionalização do RMB não depende da liberalização do mercado financeiro chinês e não se resume a estatísticas de funções monetárias. Essa estratégia do gigante asiático também não é um gesto único, nem um “fim do dólar” anunciado em cúpulas. Ela é um plano de longo prazo, iniciado a partir da crise de 2008, e depende da acumulação de canais institucionais, culturais, geopolíticos e econômicos. Esta inclui a criação e ação de bancos de desenvolvimento internacionais, como o Export-Import Bank e o New Development Bank, iniciativas como a Nova Rota da Seda, acordos bilaterais, clearings, swaps e financiamentos envolvendo RBM [1].
Com relação ao petróleo, isso significa que o RMB aparece sobretudo onde o risco político elevou o custo do dólar. [8] Em abril de 2026 que refinarias indianas passaram a pagar compras excepcionais de petróleo iraniano em yuan por meio da filial em Xangai do ICICI (banco indiano com serviços multinacionais), sob uma dispensa temporária de sanções dos EUA. Desde 2023, quase todo o petróleo russo vendido à China, somando 21,5% das importações de petróleo cru do Reino do Meio, já vinha sendo liquidado em yuan [9]. Isso não significa que a OPEP tenha migrado para o yuan nem que o mercado global tenha abandonado o dólar. Mas representa algo mais sutil e talvez mais relevante: em corredores sujeitos a sanções, sombra regulatória e reconfiguração geopolítica, o RMB já funciona como moeda de escape, de conveniência e de redução de fricção.
A expansão e papel do BRICS
A expansão dos BRICS ganha importância particular quando observada pelo ângulo do petróleo. De fato, a entrada do Irã e dos Emirados Árabes Unidos em 2024 deslocou o grupo para o centro das tensões energéticas do Golfo. O convite à Indonésia de integrar os BRICS é avaliado como um passo que amplificaria do peso energético e asiático do grupo [9]. Os Emirados ocupam uma posição estratégica como produtor de petróleo, centro financeiro regional e plataforma logística entre Ásia, Oriente Médio e Europa. A Arábia Saudita, outra atriz majoritária da OPEP, também foi convidada a ingressar no BRICS, mas manteve uma posição ambígua [10], o que revela justamente a delicadeza da transição: enquanto continua ligada à arquitetura do petrodólar e à aliança estratégica com os Estados Unidos, a Arábia Saudita aprofunda relações comerciais e energéticas com a China.
Essa transformação não significa que os BRICS estejam criando uma moeda comum ou substituindo o dólar no curto prazo. O ângulo estratégico tem um cunho mais institucional: ao incorporar países diretamente vinculados ao petróleo, às rotas marítimas e aos conflitos do Golfo, os BRICS se tornam um espaço onde a discussão sobre pagamentos em moedas locais, alternativas ao SWIFT, financiamento em renminbi e redução da dependência do dólar deixa de ser abstrata. A entrada do Irã é especialmente relevante porque o país já opera sob sanções estadunidenses e tem forte incentivo para contornar o sistema dolarizado. Os Emirados, por sua vez, não se posicionam em confronto com os Estado Unidos, mas procuram ampliar sua autonomia estratégica entre Washington, Pequim e os mercados asiáticos. A recente hesitação dos Emirados de deixar a OPEP e a OPEP+, anunciada para 1º de maio de 2026, reforça essa leitura de fragmentação da governança petrolífera tradicional. [11]
Portanto, os BRICS ganham espaço não tanto como um “bloco anti-dólar” e mais como arena de reorganização institucional. Eles aproximam China de produtores estratégicos do Golfo em um momento em que o entrelaço de petróleo, sanções, rotas marítimas e moedas de faturamento voltam à evidência. É nesse sentido que a expansão dos BRICS dialoga com a tese do “yuan-energia” [4]: não como ruptura súbita com o petrodólar, mas como multiplicação de canais que tornam possível faturar, financiar ou liquidar parte do comércio energético fora da órbita exclusiva do dólar.
Enquanto o conflito no Irã não criou a internacionalização do RMB, ela vem acelerando sua função prática em zonas de estresse estratégico. E a China, mesmo com suas contradições e complexidades internas, continua construindo externamente as instituições necessárias para uma moeda internacional: canais de liquidação, mercados offshore, redes de financiamento, vínculos energéticos, alianças comerciais, e uma imagem de estabilidade e sobriedade face aos caprichos de Trump. O dólar segue dominante; mas o yuan e o “energia-yuan” já não é hipótese acadêmica, mas sim uma infraestrutura em construção, testada em tempo real pela geopolítica do petróleo.
Referencias
1 Berthonet, I. e Bracarense, N. 2022. “Currency Internationalization and Old Institutional Economics: Opening the Blackbox of Network Effects,” Journal of Economic Issues 56, 4: 1019-1039. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00213624.2022.2111147
2 Banco Central da China. 2025. RMB Internationalization Report 2025. People’s Bank of China. https://www.pbc.gov.cn/huobizhengceersi/214481/3871621/5885243/2025122616492523798.pdf
3 Spiro, D.E. (1999), The Hidden Hand of American Hegemony: Petrodollar Recycling and International Markets.
4 Bracarense, N. e Berthonnet, I. (2024) “From Petro-dollar to Energy-yuan: Currency Internationalization in the Light of Network Effects,” Journal of Economic Issues 58, 1: 112-135. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00213624.2024.2307796?src=exp-la
5 Reuters (2026ª). Tankers exit Strait of Hormuz with 6 million barrels of cruid oil. Artigo publicado 20 de maio 2026. https://www.reuters.com/business/energy/chinese-tankers-exit-strait-hormuz-with-4-million-barrels-crude-oil-data-shows-2026-05-20/
6 Reuters (2026b). China’s 2025 oil imports, December inflows both hit record highs. Artigo publicado 14 de janeiro 2026. https://www.reuters.com/business/energy/chinas-2025-oil-imports-december-inflows-both-hit-record-highs-2026-01-14/
7 Reuters (2026c). Chinese container ship among few vessels crossing Hormuz amid deadlock to open waterway. Artigo publicado 21 de maio 2026. https://www.reuters.com/world/china/chinese-container-ship-among-few-vessels-crossing-hormuz-amid-deadlock-open-2026-05-21/?utm
8 McDowell, D. (2021). Financial sanctions and political risk in the international currency system. Review of International Political Economy 28 (3): 645–661. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/09692290.2020.1736126
9 Reuters (2026d). Indonesia join BRICS bloc as full member, Brazil says. Artigo publicado 1o. de junho 2026. https://www.reuters.com/world/indonesia-join-brics-bloc-full-member-brazil-says-2025-01-06/
10 Reuters (2026e) Saudi Arabia sits on fence over BRICS with eye on vital ties with US. Artigo publicado 8 de maio 2025. https://www.reuters.com/world/middle-east/saudi-arabia-sits-fence-over-brics-with-eye-vital-ties-with-us-2025-05-08/
11 BBC (2026) United Arab Emirates to quit oil cartel OPEC. Artigo publicado 29 abril 2026. https://www.bbc.com/news/articles/cj4pxwlr52yo
*Natália Bracarense é professora associada da Universidade Toulouse Capitole na França e pesquisadora do LEREPS na Sciences Po Toulouse. Especialista em governança pública e transformações institucional, Dr. Bracarense publicou três artigos científicos sobre a internacionalização da moeda chinesa, renminbi.

