Apenas uma das várias mineradoras de Lítio no Vale do Jequitinhonha - créditos: divulgação
Por Soelson Araújo*
O Vale do Jequitinhonha vive um dos momentos mais decisivos de sua história. Sob seus pés, jaz uma das riquezas mais cobiçadas do século XXI: o lítio, mineral estratégico para a transição energética global. Bilhões de dólares já começaram a ser investidos na região, atraindo mineradoras, tecnologia e atenção internacional. Estima-se que os aportes já realizados e em curso ultrapassem a casa de US$ 1 bilhão, com protagonismo de empresas como Sigma Lithium, Atlas Lithium e AMG Brasil. E o horizonte é ainda mais robusto: até 2028, a expectativa é de que os investimentos de outras mineradoras em minerais estratégicos no Brasil — com forte impacto no Vale — alcancem aproximadamente US$ 17 bilhões, ou seja aproximadamente, R$ 85.000.000.000,00
No entanto, a pergunta que ecoa, incômoda e urgente, é a mesma que atravessa décadas: quem, de fato, está ficando com essa riqueza?
Não é mais aceitável que o Vale continue sendo apenas fornecedor de matéria-prima, repetindo o velho roteiro colonial que marcou a exploração do ouro e dos diamantes em Minas Gerais. O lítio sai em bruto, segue para outros países, é transformado em baterias, em tecnologia, em valor agregado — e retorna ao mundo multiplicado em riqueza. Enquanto isso, as cidades do Vale seguem enfrentando desafios históricos, como baixa renda, infraestrutura limitada e poucas oportunidades para sua gente.
É preciso romper com esse modelo. E romper agora.
A criação de uma Zona Franca no Vale do Jequitinhonha não é apenas uma proposta econômica; é uma necessidade histórica, uma reparação moral e uma estratégia inteligente de desenvolvimento regional. Ao estabelecer incentivos fiscais e estruturais para atrair indústrias de transformação — especialmente as ligadas à cadeia do lítio, como fabricação de baterias e tecnologias limpas — o Estado brasileiro pode, finalmente, inverter a lógica perversa que sempre relegou o Vale à condição de exportador de riqueza e importador de pobreza.
Não se trata de privilégio. Trata-se de equilíbrio.
Se outras regiões do país já foram contempladas com políticas diferenciadas para impulsionar seu crescimento, por que o Vale do Jequitinhonha, que hoje concentra uma das maiores oportunidades econômicas do Brasil contemporâneo, deve continuar à margem? A resposta é simples: não deve. E não pode mais.
Uma Zona Franca no Vale significaria mais do que fábricas. Representaria empregos qualificados, formação técnica, retenção de talentos, dinamização do comércio local e fortalecimento de toda uma cadeia produtiva. Significaria dar aos filhos do Vale a chance de permanecer em sua terra com dignidade, sem precisar migrar em busca de oportunidades que deveriam existir ali mesmo, onde a riqueza é gerada.
É hora de o poder público, em todas as suas esferas, assumir essa pauta como prioridade nacional. É hora de o Congresso Nacional, o Governo Federal e o Governo de Minas compreenderem que o desenvolvimento do Vale não é uma questão regional, mas uma questão de justiça econômica e social.
O Vale do Jequitinhonha não quer esmola. Nunca quis.
O Vale não quer favor. Quer justiça.
E justiça, neste caso, significa garantir que a riqueza que brota de seu solo se transforme em prosperidade para o seu povo. Significa criar condições reais para que a região deixe de ser lembrada por suas carências e passe a ser reconhecida por sua força, sua capacidade e seu protagonismo no novo mapa econômico do Brasil.
O lítio pode ser o divisor de águas. Mas apenas se houver coragem política para mudar o rumo da história.
*Soelson Araújo é empresário, jornalista, escritor, presidente do Diário de Minas e membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

