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03-05-2026 às 16h36
Giovana Devisate*
Já quiseram não voltar a um lugar, para manter íntegra a emoção da primeira vez? Ou já imaginaram como deve ser viver novamente alguma experiência incrível que você teve? Sempre imagino como deve ser, por exemplo, chegar em algumas cidades lindas, como o Rio de Janeiro.
Adoraria a sensação de sobrevoar o Rio pela primeira vez e, de preferência, pousar no Aeroporto Santos Dumont, ao lado do Pão de Açúcar, vendo o Cristo Redentor, a Baía da Guanabara, as praias, a cidade, a Ponte… Como nasci em Niterói, não conheço o mundo sem ter visto tudo aqui antes, mas sei que as primeiras vezes rendem boas histórias! É algo equivalente ao que senti quando, há muitos anos, cheguei a Paris e vi a Torre: me emocionei como quem realmente sonhou por mais de 20 anos para estar naquele lugar.
Andei pensando sobre essas sensações que só sentimos uma única vez, ao experimentar algo novo, como quando vemos um filme nunca visto, assistimos uma nova série, lemos um livro nunca lido antes, viajamos para um lugar diferente, assistimos uma peça, ouvimos uma música, contemplamos uma obra de arte… A reação não é só contemplativa, emocional, mas transborda e pode tornar-se uma manifestação física. O corpo sente, reage, arrepia. Os olhos se enchem d’água.
A arte dialoga com tudo, está em todas as coisas e o leigo, em um museu qualquer ou exposição, tem algo como o privilégio do turista que chega ao Rio ou a Paris pela primeira vez. Percebi, com o passar dos anos, conforme estudei mais a fundo a moda e a arte, que algumas coisas passaram a ser apenas objeto de estudo e não mais de contemplação, para mim.
Vou muito a museus, por exemplo, mas dificilmente me encontro no deleite de uma obra. Já entro em alerta, observando a expografia, pensando nos critérios da curadoria, como funcionou a pesquisa… É duro, porque normalmente a iluminação das obras me causa um grande incômodo nas exposições e passo, com frequência, alguns minutos elaborando formas de melhorá-la.
O mesmo acontece quando vou ao Teatro Municipal para as temporadas de Ballet. Sempre me emociono, mas fico muito atenta aos movimentos, à técnica, às piruetas, saltos e finalizações. A minha relação com todas essas coisas, no fim, é de alguém que entende do que vê e, portanto, tem bagagem para analisar, questionar e criticar. É duro, também, porque antes de ser historiadora da arte, crítica, designer de moda, sou artista, sou do universo do sensível, sou da dança, sou das artes em geral.
Comecei a dançar muito antes de ler e escrever. Estourei um filme inteiro dos meus pais porque tinha curiosidade em mexer na câmera que, na época, era analógica, antes mesmo de ser alfabetizada. Desenhei desde sempre e passei a projetar roupas bem antes de ter celular, que na época era tipo o celular da Xuxa, que era rosa e vinha em uma caixa roxa. Fui estudar sobre moda, fazer cursos livres, ler livros técnicos, antes de poder escrever com caneta na escola. Aí, naturalmente, transformei as coisas nas quais sou boa em trabalho e, de certa forma, perdi um pouco do prazer que existe em contemplar e admirar.
Ando pensando nisso porque, recentemente, fui à exposição do Rubem Valentim, que acontece no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Curti, gostei, caminhei por toda a sua extensão ainda muito impressionada com a capacidade do artista de trabalhar com tantos símbolos, mas eu já conheço o seu trabalho, a sua técnica e já vi algumas obras suas ao longo da vida. A minha atenção, portanto, acabava voltando-se para o extraordinário dentro do que era mostrado ou fugia para as especificidades da própria mostra. Triste, eu sei. Acho que perdi um pouco isso do choque inicial, do arrepio, porque já não me deparo mais com o desconhecido.
Acredito, no entanto, no poder que a arte tem de salvar os nossos minutos. Porém, os leigos ou entusiastas não têm o olhar técnico. Ou seja: a racionalidade deles não toma conta da sensibilidade ao deparar-se com uma obra de arte ou exposição.
Comumente, o nosso olhar, ao ver uma obra, encontra um novo universo de possibilidades. Existe um choque inicial, uma pergunta que nos guia, o olhar acelerado e curioso que tenta dar conta de todos os cantos de uma tela, escultura ou qualquer outra forma de manifestação artística.
Sem um repertório técnico ou histórico estruturado, o primeiro contato com uma obra tende a ser mais curioso, natural e instintivo. A reação vem antes da explicação ou da tentativa de entender o que se vê: surge a curiosidade, o estranhamento, a identificação, a rejeição, a indiferença, a empolgação, a tristeza, a alegria, a melancolia, a raiva… Quem não sabe muito sobre arte tem uma experiência mais legítima nestes contextos, porque o olhar descomprometido deixa tudo mais leve e, evidentemente, livre para o sentir.
Para quem se aproxima por mero interesse ou curiosidade, o mais potente é sustentar o primeiro impacto que chega, as primeiras sensações. Em vez de recorrer às informações e tentar uma explicação, vale ficar um pouco mais de tempo no que chegou inicialmente, se prender ao início de tudo: o que chama atenção? O que incomoda? O que gera repulsa ou provoca uma aproximação?
Nem sempre (quase nunca) é sobre gostar ou não do que se vê, mas sobre algo que prende, incomoda, desloca, provoca, questiona e, por isso, nos direciona para uma experiência muito interessante. É sobre poder sentir genuinamente, é sobre o que acontece entre você e a obra, para além da mensagem do artista ou coisas do tipo.
Para mim, há algum tempo, diferentemente das outras pessoas, a experiência é uma missão para entender. Os profissionais da área devem se identificar: o nosso olhar já carrega referências, períodos, movimentos, artistas, técnicas, contextos, códigos… A gente olha uma obra e dificilmente o sentimento toma conta. A gente racionaliza, pula a parte que não nos permite definir nada. A partir disso, da inquietação, olhamos as datas, as informações técnicas, localizamos, na história, qual era o período e o contexto e etc.
Junto da análise, um impacto, mas diferente do emocional que o leigo se permite viver, já que pode apoiar-se livremente nas sensações. A gente, a galera das artes, negocia com o próprio repertório, para que possamos ser surpreendidos e capturados pela emoção genuína que pode surgir, se a gente não partir tão rapidamente para o lado racional.
Me recordo de quando, na Itália, fui à Galeria Uffizi e me deparei, inacreditavelmente, com a obra “O nascimento de Vênus”, do Botticelli. Eu comecei a chorar e rapidamente liguei para o meu pai, porque pensei que ele gostaria de estar ali. Ele, ao me ver emocionada, de frente para o quadro, chorou também. Existe uma delicadeza gigantesca na vulnerabilidade que surge quando nos permitimos ser pequenos diante de uma obra de arte.
Hoje, o encontro inicial não perde a importância ou a singularidade, mas amo quando uma obra me atravessa ao ponto de me desestabilizar e de me mostrar que nem tudo precisa ser entendido. Na realidade, sou pequena e a arte é gigante, em sua infinita possibilidade de expandir-se e de nos emocionar. Isso mostra que eu sei muito pouco sobre tudo, especialmente sobre a arte da vida.

