Créditos: Divulgação
03-05-2026 às 10h16
Cecy Barbosa Campos*
Carlos Drummond de Andrade, o nono de catorze filhos de uma tradicional família mineira de Itabira, tornou-se um dos mais importantes poetas brasileiros do século XX, consagrado por numerosas premiações e pela recepção elogiosa da crítica literária. Atuou também como contista, cronista, jornalista e autor de literatura infantil, embora sua consagração maior se deva à poesia.
Menino franzino, tímido e quieto, revelou-se, ao contrário do que aparentava, atento ao mundo que o cercava e capaz de defender seus pontos de vista com firmeza, ainda que isso lhe trouxesse consequências negativas. Foi o que ocorreu quando se desentendeu com um professor de português no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, onde estudava como aluno interno. Apesar do bom desempenho escolar e das distinções obtidas em certames literários, foi acusado de “insubordinação mental” e expulso da instituição.
Em 1920, mudou-se com a família para Belo Horizonte, onde procurou José Osvaldo de Araújo, diretor do Diário de Minas, conseguindo a publicação de seus primeiros textos. Ampliou seu círculo de amizades ao integrar o grupo formado por Abgar Renault, Alberto Campos, Emílio Moura, Pedro Nava, entre outros intelectuais frequentadores da Livraria Alves e do Café Estrela.
Em 1923, ingressou no curso de Farmácia, que concluiu para atender ao desejo do pai, embora nunca tenha demonstrado interesse pela profissão. Já casado, lecionou Geografia e Português em Itabira, retornando posteriormente a Belo Horizonte por influência do amigo Alberto Campos. Na capital, trabalhou como redator e, mais tarde, redator-chefe do Diário de Minas.
Paralelamente à atividade jornalística, manteve intensa produção literária. O poema “Cantiga de viúvo” foi musicado por Villa-Lobos, embora os dois não se conhecessem. Em 1928, publicou “No meio do caminho”, texto que provocou grande repercussão e o aproximou dos modernistas paulistas, especialmente de Mário de Andrade, com quem manteve longa correspondência.
Seu primeiro livro, Alguma poesia (1930), aborda temas cotidianos, lembranças familiares e sentimentos como o amor e a saudade. Embora a temática não fosse inteiramente inovadora, a forma dialogava com os princípios da segunda fase do Modernismo: versos livres, sem obediência à métrica tradicional ou a esquemas fixos de rima, alternadamente longos e breves em um mesmo poema. Os versos apresentam um tom coloquial, que se alterna com um tom quase solene. Alguma poesia reúne alguns dos poemas mais conhecidos do autor, como “Poema de sete faces”, “Infância”, “Quadrilha” e “No meio do caminho”.
A vertente lírico-social de sua poesia consolida-se com Sentimento do mundo (1940) e José (1942), atingindo um ponto alto em A rosa do povo (1945). Nessa obra, composta por cinquenta e cinco poemas, observa-se o amadurecimento de uma poética que passa a incorporar de modo mais explícito as mazelas do mundo histórico como experiências pessoais. A indignação diante da injustiça e da opressão, os horrores da Segunda Guerra Mundial e os impactos do Estado Novo intensificam o sentimento de impotência diante da realidade. Ainda assim, persiste uma réstia de esperança: a crença de que a resistência, a arte e a força vital da natureza podem superar a destruição e a náusea.
Pode-se identificar, na poesia drummondiana, aproximações com a obra do poeta estadunidense Walt Whitman, especialmente na concepção do eu lírico como parte integrante da coletividade. O indivíduo não existe isoladamente, mas em relação com o outro; assim, os males que atingem um reverberam em todos. Para ambos, o conflito fundamental pode ser sintetizado na tensão entre eu e mundo. Whitman, marcado pela Guerra de Secessão, e Drummond, impactado pela Segunda Guerra Mundial e pelo Estado Novo, transformaram experiências históricas traumáticas em matéria poética de alcance universal.
Ambos privilegiaram o verso livre, sem submissão a métricas rígidas, produzindo uma poesia simultaneamente sofisticada e acessível, formal e coloquial. A organização rítmica manifesta-se por meio de repetições, enumerações e cadências que aproximam o poema da prosa, sem, contudo, perder sua densidade lírica.
O caráter social e político de A rosa do povo, profundamente vinculado ao contexto histórico de sua produção, conferiu-lhe lugar central na literatura brasileira do século XX.
No poema “Procura da poesia”, Drummond explicita sua concepção de criação poética, valorizando a reflexão e o rigor formal: “Penetra surdamente no reino das palavras/ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero, / Há calma e frescura na superfície intacta. / Ei-lo sós e mudos, em estado de dicionário./ Convive dom teus poemas, antes de escrevê-los.” (p. 95).
Para o autor, a exteriorização do “eu” exige cuidado: a emoção é essencial, mas deve ser mediada pela organização formal, pela escolha precisa das palavras e pela imaginação criadora.
Os poemas que integram A rosa do povo são marcados por um entrelaçamento do discurso social com a reflexão sobre a linguagem, com a reflexão sobre a linguagem poética. E Drummond mostra-se como um crítico da realidade e do seu próprio tempo.
O tema da metalinguagem — a reflexão sobre o próprio fazer poético — manifesta-se também em “Consideração do poema”, em que o autor reconhece sua filiação literária para com outros poetas e diz:

Já em “Procura de poesia”, ele aponta caminhos equivocados do fazer poético e adverte:

Em “A flor e a náusea”, o poeta expressa desencanto diante de um mundo marcado pela guerra e pela opressão política do Brasil dominado pela ditadura. Em diálogo intertextual com La Nausée (1938), de Jean-Paul Sartre — contrapõe-se à imagem da flor, símbolo da arte e da resistência. A flor que nasce na fenda do muro ou na rachadura do asfalto representa a possibilidade de esperança em meio à devastação. A arte, aqui é a poesia – representada pela rosa do título do livro, ou ainda pela flor que dá nome ao poema.
Observam-se, nesse poema, alusões intertextuais que ampliam sua densidade semântica. A náusea remete o leitor ao romance La Nausée (1938), de Jean-Paul Sartre, obra fundamental do existencialismo francês, na qual o mal-estar diante da contingência da existência assume dimensão filosófica. A imagem da flor, por sua vez, pode ser relacionada à tradição lírica romântica, evocando o poema “Flower in the crannied wall”, publicado em 1863 por Alfred Tennyson, em que a flor, extraída da fenda do muro, torna-se metáfora da busca de sentido e totalidade.
No poema “A flor e a náusea”, descreve-se o desconforto do homem comum, invisibilizado na paisagem urbana e cinzenta, onde pessoas e sentimentos se tornam indistintos. Nada de novo acontece — ou pode acontecer —, pois a ausência de liberdade paralisa a experiência e esvazia a possibilidade de transformação:

O poema “Anoitecer” reforça essa tensão entre medo e expectativa. A repetição do verso “desta hora tenho medo” sugere um clima de ameaça constante. Na primeira estrofe, são os sons de buzinas e sirenes “uivando escuro segredo”; depois, são as visões de pássaros que não existem mais, substituídas pelo “espesso óleo / que impregna o lajedo”; na terceira estrofe, a hora que traz medo é a hora de descanso, um descanso inútil que levará à rotina da repetição de um dia seguinte, sempre igual:

Finalmente, na última estrofe, o poeta define o anoitecer como “hora de delicadeza”; contudo, ao indagar “Haverá disso no mundo?”, evidencia a dúvida que atravessa o poema e revela a ausência de perspectivas quanto ao futuro.
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Carlos Drummond de Andrade figura entre os mais relevantes poetas da literatura brasileira, distinguindo-se pelo rigor técnico, pela densidade reflexiva e pela amplitude temática, que dialoga com diferentes momentos da história nacional.
Desempenhou papel proeminente não apenas como poeta, mas também como prosador, contribuindo de modo significativo para a consolidação da crônica e da prosa ensaística no Brasil.
Em A rosa do povo, evidencia-se de forma contundente seu compromisso com a crítica social por meio da literatura. Nessa obra, o poeta ultrapassa o âmbito das experiências individuais para inscrever sua poesia no horizonte das inquietações coletivas, articulando vivências pessoais a tempos e espaços de dimensão universal.
Para saber mais!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. 6. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988. (Biblioteca Luso-Brasileira).
WHITMAN, Walt. Folhas da relva. Tradução e posfácio de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2016.
ROBERTS, Gwyneth; THORNLEY, G.C. An Outline of English Literature. Hong Kong: Longman, 1984.


