Respeitar a diversidade de ideias sem perder a opinião - créditos: divulgação
26-04-2026 às 09h00
Rogério Reis Devisate*
Dividir para dominar é um princípio importante nas estratégias de controle e nas guerras. É dividindo as pessoas e alimentando ou criando as rivalidades, inveja e cobiça, que as traições ocorrem, que os grupos perdem identidade e que as lideranças se enfraquecem. Nesse quadro, a influência de um grupo aumenta até a dominação, ficando mais fácil de se convencer os divididos de que estão errados nas suas crenças e opiniões e que devem seguir as doutrinas ideológicas que lhes sejam apresentadas.
O nosso país está dual, dividido em dois grupos dominantes. Não há lugar para terceira via. Não há lugar para ponderação, não há lugar para algo que não seja radicalismo em posicionamentos político-partidários nas eleições que se avizinham. Na língua inglesa se diz que as ações valem mais do que as palavras (Actions speak louder than words) e invocamos este pensamento para considerar que pouco significa apenas se falar em amor e valores éticos e morais, sem que haja tolerância, compaixão, perdão ou boa vontade. Os que se acham certos não interagem com os que acusam de estar errados. Estamos alimentando o radicalismo no discurso de sim e não, certo e errado. Quem ganha com isso? Quem perde?
Com isso, estamos abandonando a natural pluralidade de ideias e pensamentos, que tanto colaborou para o desenvolvimento do pensamento humano, na boa prática política, na filosofia e nos fatos que fizeram a história da humanidade. Estamos nos fechando em grupos e alguns até estão sacrificando a sua valorosa e rica individualidade e personalidade, para se conformar com a adesão a um grupo, uma massa com a qual se identifiquem, como se abrissem mão do seu “eu” por uma colegialidade. Tudo ocorre como uma adesão mística, com viva excitação, já que a vibração é contagiante e constrói a sensação de pertencimento ao grupo que vibra na mesma frequência.
Mas isso significa um afastamento da individualidade para a psicologia das massas. É algo que nem sempre termina bem… Vimos isso em vários momentos da história, inclusive em radicais movimentos, como os que se conhece por nazismo, socialismo e fascismo, com as suas opressivas formas de governo. O professor Friedrich Hayek, em obra publicada em 1944, no auge da 2ª Guerra Mundial, traduzida para a nossa língua com o título O caminho da Servidão – um dos livros fundamentais em qualquer boa biblioteca – explica o embrião de muitos movimentos de massa e analisa, em capítulo próprio, “as raízes socialistas do nazismo”, considerando que se alvitrava dar aos alemães da época “um socialismo adaptado” e que a luta contra o liberalismo foi um conceito comum que serviu para unir, numa única direção, socialistas e conservadores.
Precisamos, agora, nos valer menos de conceitos decorados e analisar fatos. Em grande resumo, o Liberalismo foi uma reação ao Absolutismo, que era o regime pelo qual os reis europeus centralizavam todo o poder, bem representado na fala de Luís XIV de que ele personificaria a própria França. Fazia o que quisesse e todos batiam palmas. Não prestava contas à população. Gastava o que queria. Até que, em síntese, os abusos e desmandos, o aumento dos impostos e as dificuldades do povo levaram à Revolução Francesa, movimento que cortou cabeças reinantes e pôs fim ao Absolutismo.
Aí entra o Liberalismo – como dissemos – com a valorização da individualidade, da liberdade e da igualdade de todos perante a lei, limitando o Poder do Estado e valorizando o trabalho livre e a aquisição da propriedade privada (aqui chamaríamos de casa própria).
Curiosamente, ao Liberalismo se opõe o Socialismo e os outros movimentos que defendem o forte intervencionismo estatal. É neste ponto que coincidem o Socialismo, o Comunismo, o Fascismo e o Nazismo, porquanto buscam regular a economia, combater a liberdade individual e o livre comércio, limitar ou extinguir a propriedade privada e controlar os meios de produção e a liberdade de opinião, além de isolar grupos de pessoas que possam ser reunidos em torno de uma qualidade identitária (os “isso”, os “aquilo”). Esse intervencionismo, para o filósofo alemão Ludwig Von Mises, tratado na obra Caos Planejado, por si só revela a inviabilidade dos modelos de planejamento central opressor, como vimos ocorrer, na prática, em Cuba e na antiga União Soviética.
Portanto, há uma dicotomia evidente, quando alguém fala em socialismo para defender liberdade e qualidades afins. Qual o motivo? Simples: as partes dicotômicas não se misturam, não dialogam, não combinam. Ou se tem uma coisa ou se tem outra e a visita às origens históricas dos movimentos sociais é a única forma de se compreender os contextos que justificaram as ações e a formação daquelas ideias.
Precisamos, portanto, reunirmo-nos em torno de um fator comum, que é a nossa condição de brasileiros, filhos da mesma pátria e regidos sobre a mesma Constituição Federal, com uma única língua, o mesmo Hino e a mesma Bandeira, com a nossa alegria natural, tão festejadora da liberdade. Mesmo em tempos de feriado de Tiradentes, talvez muitos aproveitem a folga cívica apenas para se distrair, sem se lembrar, homenagear ou compreender a simbologia da data, de quem representou a luta contra os altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa – na época de 20% ou 1/5, por isso mesmo chamado de quinto dos infernos (só para lembrar, hoje há o percentual de 27,5% de tributação do imposto de renda, enquanto o nosso povo sofre com a mais alta carga tributária dos últimos 15 anos).
Necessitamos de unidade cívica, única forma de não se praticar algo contra outro grupo social ou se participar de atos que busquem submeter outra faceta da nossa sociedade. Precisamos ser capazes de debater ideias e ideais, de discutir princípios, de respeitar pensamentos e opiniões, com clareza de fatos e fundamentos, argumentos maduros e propósito elevado… deixando de lado a insistência de muitos em logo acusar o outro de ser isso ou aquilo ou seja lá o que for – talvez para não ter que ouvir a outra opinião, por suposto talvez mais fundamentada. Somos filhos em berço esplêndido. Temos a boa convivência. Uma cultura rica, viva, bela. Presencio isso nas andanças pelo Brasil, quando vejo as pessoas nas ruas, nas festas populares, nos bares, nas praias, trilhas e cachoeiras, desde Manaus até cidades de outras regiões do país. A propósito, na semana passada, foi extremamente gratificante ver tantos estudantes na Bienal da Bahia, em Salvador, caminhando juntas, de mãos dadas, com as suas professoras e os seus acompanhantes. Vi milhares de pessoas, em cada dia do evento, em paz, comprando livros, lendo, palestrando, conversando, festejando aquele acontecimento, altamente simbólico e importante. Não vejo pelas ruas nenhuma manifestação voluntária do povo contra si mesmo, com intolerância ou radicalismo. Não temos terrorismo. Apenas temos muito de política sectária, pretendendo impor a outros uma certa visão de mundo. Precisamos menos dessa cobrança e mais do diálogo. Por que nem todos podem agir como pessoas livres, espontâneas, cordatas, amigas, tolerantes, empáticas, como a grande maioria do povo? Por que alguns não se afastam dos seus papéis para abraçar os demais? Por que rancor? Com tristeza, lembro-me de que houve quem falasse que os que participaram do 08 de janeiro deveriam morrer (!?). Tem amor, nessas falas?
Em tempos de geopolítica em ebulição, com a questão da Ucrânia x Rússia e, mais recentemente, dos EUA e Israel com Irã e Líbano, precisamos nos unir, para melhor resistir à hipotéticos movimentos que cobicem as nossas riquezas e queiram lucrar, mais nos dividindo. Precisamos valorizar as ideias diferentes e a multiplicidade de formas de pensamento. Só assim prosperaremos como Nação e sairemos vitoriosos e intactos dos acontecimentos imperialistas que ocorrem em várias frentes pelo mundo, com China, Rússia e EUA espalhando os seus tentáculos econômicos e políticos.
*Rogério Reis Devisate (Currículo na galeria de colunistas no topo do portal)

