Imagem de ilustração criada por IA em 22-04-2026
23-04-2026 às 08h00
Dídimo Teodoro de Piônio
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Itamar Franco e Newton Cardoso foram mestres da persuasão e da liderança pela legitimidade, não pela força.
Itamar Franco foi um arquiteto da ordem, um estabilizador de coalizões, figura central em momentos de exceção. Atuando como defensor das instituições, sua autoridade emanava de seu papel como guardião da unidade política, impedindo a fragmentação de Minas em facções irreconciliáveis.
De maneira notável, “Newtão” fez política com base em personalismo, carisma, e não em burocracia administrativa. A autoridade do “Trator” vinha de sua união religiosa com os eleitores e de sua habilidade em preencher vácuo de poder com vontade política, por meio de força decisória.
Minas soube submeter-se ao poder de comando desses dois líderes.
As mortes de Itamar Franco e Newton Cardoso, em 2 de julho de 2011 e 2 de fevereiro de 2025, respectivamente, esvaziaram o núcleo do Poder estadual e nada, nem em Zema, nem em Simões, dilui o sentimento de encerramento de era.
Pior: Minas, ostentando o maior déficit fiscal do país, sofre com a ausência de soberano[1], pois carece de uma decisão para romper o ciclo da dívida. Além disso, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica de 2023 mostra descumprimento de metas e, devido ao sistema de aprovação automática, aprendizagem ineficiente. Também não há alguém para decidir o rumo da educação mineira.
Com o fim do ciclo, as instituições mineiras perderam força e, num cenário de Executivo sem margem de manobra, fragmentaram-se. O outrora berço de estadistas – Afonso Pena, Venceslau Brás, Delfim Moreira, Juscelino Kubitscheck, Tancredo Neves e Itamar Franco – assiste ao esvaziamento da imagem de Minas perante a nação. É a ruína política, que torna o Estado alvo de chacota: Zema comento banana com casca e Vorcaro, peleleca de momolada.
Contudo, em meio à falta de propostas, surge um vislumbre de esperança: Durval Ângelo, presidente do TCE-MG. Ocupando o vazio deixado pelo Executivo e colocando-se no centro do debate sobre política pública de cultura, Durval conduziu o Seminário Implementação dos Sistemas Municipais de Cultura, realizado em 19 de março de 2026, no Auditório Vivaldi Moreira, TCE-MG. No dia seguinte, repetiu a performance e dirigiu o Seminário Impactos da Reforma Tributária sobre o Orçamento da Cultura.
Abrindo e encerrando esses eventos[2], Durval demonstrou liderança e foi alvo de aclamação, sendo aplaudido pelas nove Mesas dos dois Seminários. O maior elogio veio de Ana Paula Matos, vice-prefeita e Secretária Municipal de Cultura de Salvador-BA: – “Que capacidade de articular e de se posicionar com coragem, mas com assertividade e, ao mesmo tempo, com entendimento de causa.”[3]
Em suma, Durval brilhou.
2
Mas “política, em Minas, é o império do nariz de judeu”[4] e brilho excessivo provoca aplicação de “nariz de judeu” no sujeito a fim de ofuscar sua luminosidade. Daí que, em tempos de orçamento cultural impactado por Reforma Tributária, gestor de cultura algum hesitará em aplicar “nariz de judeu” a quem ouse ameaçar a engrenagem cotidiana da Cultura Fomentada.
Com as Leis de Incentivo da vida – e isso já faz mais de trinta anos –, esse gestor de cultura embriagou-se de marketing cultural. Como se representante de um reino sagrado, veio a ser recebido em escritórios onde renúncia fiscal é oferecida como financiamento. Então, aprendeu a repetir palavras sem saber o que significam, imaginar-se envolto por auréola e, masterfully (razão pela qual, para ele, crítica soa profanação), fechar negócio. Por fim, numa perturbadora distorção de conceitos, elevou a linguagem que surgiu dessa técnica a status de arte.
O panorama é melancólico, pois, enlutado, Minas convive, agora, com uma classe de burocratas que faz parecer que negócio tributário importa mais que obra de arte. E que não hesitará em aplicar “nariz de judeu” aos casos que lhe aprouver.
O perigo apresenta-se a Durval.
Sobretudo por militar numa Minas devotada aos rituais de vingança de um sistema eleitoral antropofágico e cultuante do canibalismo do político inimigo do Político[5]. Recomenda-se cautela, pois, em Minas, a tirania do “impiedoso e cruel ‘nariz de judeu’ ideológico” impõe à ação política enquadrar-se ao “canhestro confinamento” dos ambientes “onde tudo se transforma em ação entre amigos (…), caso contrário, sobre você será estendido um cobertor de sombras, uma impenetrável cortina de silêncio, quando não a condenação aberta e injusta”.[6]
3
Durval soube mitigar o risco.
3.1
Na Abertura do Seminário sobre implantação de sistema municipais de cultura, Durval deu aula de sociologia das montanhas, contando a história do professor (ele mesmo) convidado a falar sobre culturas oprimidas para uma turma de adolescentes.
– “Era um encontro intereclesial, em Canindé, há muitos anos, já há três décadas, das Comunidades Eclesiais de Base”, registrou Durval, acrescentando que o professor “chegou com um aquário com um peixinho vermelho e perguntou aos alunos: o que é cultura?”.
E foi instigando os alunos a não se deixarem influenciar por abstrações vagas, mas a abraçarem ideias que correspondessem a realidades autênticas. Lá pelas tantas, pescou o peixe com um puçá e o pôs em cima da mesa. Era preciso demonstrar a violência da opressão, o roubo da identidade e o desespero do povo no cotidiano da exploração.
– “O peixe se debatia, agitava-se”, continuou Durval, “e, aí, um aluno grita ‘o peixe está sofrendo, vai morrer’. ‘Mas ele vai morrer por quê?’ ‘Porque está faltando ar para ele.’ ‘Como está faltando ar?’ ‘Ele não é do ar, ele é da água.’ E, aí foi uma discussão enorme.”
Durval conta que, após devolver o peixe ao aquário, o professor concluiu, dizendo: – “Cultura é isso: cultura é o ar que respiramos.”
A lição do peixe serviu para Durval explicar porque um Tribunal de Contas se preocupa com cultura: – “Porque é a vida do nosso povo, é o ar e tudo que diga respeito aos processos vitais de uma gente.”
Nas entrelinhas: porque economia sem cultura é corpo sem espírito e cultura sem política é arma sem munição.
No Encerramento, Durval convocou o povo para o Seminário do dia seguinte:
– “Amanhã, a luta vai ser grande; amanhã é o dia de organizar os exércitos, organizar as milícias da cultura e do bem para enfrentar as milícias da cultura da extrema que estão, a cada dia, mais vivas do que a gente imagina; se nós estamos aqui, eles também estão aqui, não vamos nunca nos esquecer disto.”
O pessoal entendeu que, amanhã, onde quer que reacionário tente poluir “nossa água”, os filhos da cultura estarão presentes, prontos para defender “o ar que respiramos”, porque cultura é frente de batalha tão vital quanto qualquer outra.
3.2
No dia seguinte e ao estilo de intelectual orgânico da classe dos trabalhadores da cultura, Durval deu o recado:
– “Diante da reforma tributária, não se assustem. Todas as leis de cultura municipais, estaduais e, mesmo, a Rouanet, foram, todas, frutos de pressão, de organização, de luta. Nenhuma foi presente de governo seja de esquerda, de direita ou de centro.”
Os presentes aplaudiram, concordando que, longe de ser benevolente, Estado é terreno de disputa. Em seguida, Durval hipnotizou a plateia com a imagem de uma chama destruindo resistências burocráticas:
– “Frei Betto diz assim: governos são, em geral, iguais a feijão: duro; precisa de muito fogo e de muita pressão para amolecer.”
Era a hora de ser conciso e de traduzir necessidade econômica em vontade política:
– “Organização! É isso que vocês têm que fazer aqui.”
E, pugnando por superação do momento corporativo em favor de uma postura ética, Durval soltou o verbo:
– “Aqui, em Minas, tem um velho ditado, que diz assim: ‘se o boi soubesse a força que tem, ninguém mais comeria bife’. Então, vocês juntos, organizados, secretários municipais de cultura, gestores de cultura, artistas, fazedores de cultura, construtores de cultura, vocês têm uma força muito grande; só tem que ter consciência dessa força.”
No Encerramento, Durval lançou a “palavra final”:
– “Tem uma música de Sérgio Ricardo, escrita no período dos Anos de Chumbo, que, depois, com Gian Francesco Guarnieri, virou peça de teatro, Ponto de partida, cujo refrão é: ‘tenho por minha vida / a busca como medida’. O que caracteriza esse Seminário e toda essa movimentação da cultura, nesse momento de mudança tributária, é a busca. Sempre, a busca. E o outro verso do refrão diz: ‘o encontro como chegada / e como ponto de partida’.”
Certo de que, nas entrelinhas, ficou dito que, se o Seminário foi ponto de encontro, deve, imediatamente, deflagar-se em práxis, Durval decidiu jungir Minas Gerais à obrigação moral de despertar e, assim, encerrou os dois dias de trabalho:
– “A cultura é uma força nessa nação; é uma força muitas vezes adormecida.”
4
Neste deserto em que, para prejuízo da República, Minas se transformou, reduzida à estética do ridículo, Durval lançou os alicerces de sua campanha.
As referências a encontro intereclesial e Frei Betto são coerentes com sua atuação “nos movimentos de base da Igreja Católica (…) [coordenando as] Comunidades Eclesiais de Base da Regional Leste II (MG e ES) e da Região Episcopal Nossa Senhora Aparecida, da Arquidiocese de Belo Horizonte, bem como de Pastorais Populares [e participando] da Comissão Pastoral da Terra de Minas Gerais e do Movimento da Boa Nova (MOBON) [e do] Movimento Nacional de Fé e Política”[7].
Durval está, portanto, pronto para enfrentar interseções ideológicas afinadas com a agenda política dos USA: – “Então, quem vai decidir o que é organização terrorista, no Brasil, não pode ser o nosso irmão bélico do Norte, com sangue nos olhos e com a boca escorrendo sangue.” Foi aplaudido.
Está preparado para atacar o alinhamento político da Teologia da Prosperidade com governos de direita: – “Tem que fazer o que Lula fez: cassar o visto de entrada no Brasil de um Secretário de Estado.” Foi aplaudido.
Para vencer o uso, na América Latina, de religião como ferramenta de influência política das agendas neoconservadora e neoliberal “do governo que matou mais de setecentas mil pessoas, na pandemia”.
Por essas e outras razões, Durval não quer que incentivos à cultura sejam confundidos com dízimos ou ofertas convertidos em abundância material para os trabalhadores da cultura. Prefere que esses operários abandonem o senso comum e entendam a necessidade da luta:
– “Vão voltar as leis de cultura? Vão. Quem sabe elas possam voltar melhor do que estão hoje. Quem sabe a gente possa ter um grande avanço.”
[1] SCHMITT, Carl. Teologia política. Trad. Elisete Antoniuk. Belo Horizonte: Del Rey, 2006, p. 13: “soberano é quem decide sobre o estado de exceção”.
[2] Além de compor, ao lado de Aryanne Ribeiro, representante do Fórum dos Conselhos Estaduais de Cultura (CONECTA), e Gustavo Dutra, diretor de Políticas Culturais de Poços de Caldas, a Mesa Instâncias Participativas e Conselhos Municipais, mediada por Lindivaldo Oliveira Leite Júnior, diretor do Sistema Nacional de Cultua do MinC.
[3] Ana Paula Matos compôs a Mesa Reforma tributária e o fomento à cultura, mediada por Gilvan Rodrigues, secretário adjunto de cultura de Contagem, ao lado de Danielle Barros, secretária de estado de cultura do Rio de Janeiro, Gilberto Perre, secretário-executivo da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP), João Pedro Machado Nobre, assessor no ministério da fazenda, Paulo Zuben, diretor da Fundação Cultural Santa Marcelina, e Thiago Rocha, secretário de fomento e incentivo à cultura (MinC).
[4] Milton Campos apud BADARÓ, Murilo. O “nariz de judeu” ideológico. O TEMPO, 9-1-2009, https://www.otempo.com.br/opiniao/murilo-badaro/o-nariz-de-judeu-ideologico-1.210540. “Nariz de judeu” é o artefato com forma de nariz aquilino que, colocado na ponta de uma vara, era (e talvez ainda seja) utilizado por sacristão para apagar velas, nas velhas igrejas de Minas
[5] SCHMITT, Carl. O conceito do político. Trad. Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2015, p. 19: “o conceito de Estado pressupõe o conceito do político”.
[6] BADARÓ, Murilo. O “nariz de judeu” ideológico. O TEMPO, 9-1-2009, https://www.otempo.com.br/opiniao/murilo-badaro/o-nariz-de-judeu-ideologico-1.210540.
[7] https://pt.org.br/durval-angelo/

