Eucaliptos acabaram com as matas atlânticas e centenas de mananciais hídricos no Vale - créditos: divulgação
18-04-2026 às 08h08
Por Soelson Araújo*
Sem investimentos estruturais e regulação efetiva, governo federal é criticado por negligenciar uma região já historicamente vulnerável
O Alto Jequitinhonha, em Minas Gerais, atravessa uma transformação silenciosa — e cada vez mais difícil de ignorar. Onde antes brotavam nascentes e corriam pequenos cursos d’água que garantiam a sobrevivência de comunidades inteiras, hoje predominam extensas áreas de monocultura de eucalipto. O resultado não é apenas visível na paisagem: ele se traduz na escassez de água, na perda de produtividade da terra e no agravamento das desigualdades sociais.
Levantamentos acadêmicos e observações de campo indicam que centenas de mananciais desapareceram ou tiveram sua vazão drasticamente reduzida nas últimas décadas. Em algumas localidades, o impacto sobre as nascentes atinge níveis alarmantes, revelando um colapso progressivo do sistema hídrico regional. Não se trata de um evento isolado, mas de um processo contínuo que vem sendo alimentado por escolhas políticas e econômicas equivocadas.
A expansão do eucalipto na região remonta a políticas públicas implementadas desde a década de 1970, que incentivaram a ocupação do território por monoculturas voltadas à produção de carvão vegetal e celulose. O problema é que esse modelo foi implantado sem considerar a fragilidade ambiental do Alto Jequitinhonha, especialmente sua dependência de um equilíbrio hídrico delicado. O eucalipto, por sua alta demanda por água e rápido crescimento, altera profundamente esse equilíbrio, reduzindo a infiltração no solo, comprometendo a recarga dos lençóis freáticos e acelerando o desaparecimento de nascentes.
Os dados são contundentes. Áreas de vegetação nativa conseguem reter significativamente mais água das chuvas do que regiões ocupadas pela monocultura. Essa diferença compromete todo o ciclo hídrico e ajuda a explicar o desaparecimento de mais de duas centenas de mananciais. Na prática, isso significa comunidades recorrendo a caminhões-pipa, rios secando precocemente e terras antes produtivas se tornando improdutivas.
Mas o aspecto mais grave dessa crise é que ela não é apenas ambiental — é social e política. A escassez de água compromete a agricultura familiar, enfraquece economias locais e força o deslocamento de famílias inteiras. O êxodo rural se intensifica, práticas tradicionais desaparecem e a dependência de políticas emergenciais se torna regra.
Diante desse cenário, a atuação do governo federal é, no mínimo, insuficiente — e, no limite, negligente. A ausência de investimentos estruturais no Alto Jequitinhonha e a falta de políticas rigorosas de controle sobre a expansão das monoculturas revelam uma escolha clara de prioridades. Ao não intervir de forma efetiva, o governo permite que um modelo ambientalmente predatório continue avançando, aprofundando desigualdades e comprometendo o futuro da região.
O discurso de desenvolvimento baseado na geração de empregos e no crescimento econômico não resiste a uma análise mais crítica. Os benefícios desse modelo se concentram, enquanto os impactos recaem sobre as populações locais. Terra, água e renda tornam-se cada vez mais controladas por poucos, enquanto comunidades inteiras perdem as condições básicas de sobrevivência.
A pergunta que se impõe é inevitável: desenvolvimento para quem? Quando a produção econômica avança às custas da segurança hídrica e da dignidade de uma população, o que está em jogo não é apenas um modelo produtivo, mas uma decisão política sobre quem pode permanecer no território e em quais condições.
Ainda há alternativas — recuperação de áreas degradadas, recomposição da vegetação nativa para recuperação de nascentes no período próximo das chuvas, proteção de veredas e fortalecimento da agricultura familiar. No entanto, essas soluções exigem vontade política e ação imediata. O tempo da natureza não acompanha o ritmo da degradação.
O governo brasileiro vai destinar R$ 1 bilhão do Novo PAC à revitalização de bacias hidrográficas. O pacote inclui 60 projetos voltados à segurança hídrica, ao saneamento e à melhoria da navegação no rio São Francisco. Em Minas Gerais, porém, 53 iniciativas se concentram na Zona da Mata e no Sul de Minas — nenhuma voltada aos rios do Vale do Jequitinhonha.
Se nada mudar, o Alto Jequitinhonha caminha para um futuro em que a água deixará de ser um direito básico e passará a ser um privilégio. E, quando isso acontece, não se trata apenas de uma crise ambiental — é o retrato de um fracasso político.
*Soelson Araújo é jornalista, escritor e membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

