MDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro - créditos: divulgação
05-04-2026 às 13h40
José Luiz Borges Horta*
Meditar ou escrever sobre o MDB, nacional ou mineiro, leva inevitavelmente ao luto e à tristeza, à saudade e à melancolia. Como todos nos lembramos, a Constituição de 1988 é obra do então PMDB, que detinha nada menos que 303 (trezentos e três) das 559 (quinhentos e cinquenta e nove) cadeiras do Congresso Constituinte, considerada a soma dos deputados e senadores, uma vez que a Constituinte não os separava. Como a Constituição, devemos ao PMDB também as prévias Anistia e transição democrática e, nos governos de José Sarney e Itamar Franco, a colocação em marcha dos direitos sociais previstos no Texto Constitucional.
No futuro, ao examinarmos a história do MDB, três momentos aparecerão como chaves da decadência partidária nacional: suas convenções nacionais de 1998 (na qual Itamar Franco, pleiteando a candidatura própria do PMDB às eleições presidenciais, foi ofendido e agredido pelos apoiadores da reeleição de Fernando Henrique), de 2001 (em que o candidato à Presidência Nacional do Partido apoiado pelo Governador de Minas, Itamar Franco, e pelo ex-Governador de SP, Orestes Quércia, o Senador Maguito Villela, de GO, perdeu a Presidência para o Deputado federal Michel Temer), e de 2007 (a batalha final pelo controle do PMDB, nos bastidores da Convenção Nacional, em que os próceres do Partido tentaram, sem sucesso, lançar a candidatura à presidência do partido do ex-parlamentar, ex-Ministro de Estado e já Ministro aposentado do STF, Nelson de Azevedo Jobim).
Em Minas, entretanto, o MDB sempre seguiu sob fortes lideranças, com patriarcas de fina estirpe intelectual. Lastimavelmente, o Partido envelheceria, com o passar das décadas, e o tempo levaria suas grandes referências. O fenômeno ampliou-se, nos recentes anos, como uma breve memória nos permite reconhecer.
É óbvio que os falecimentos de Tancredo Neves (1910-1985), Senador da República, Governador de Minas, Primeiro Ministro e Presidente eleito, Itamar Franco (1930-2011), Senador da República, Governador de Minas e Vice-Presidente e Presidente da República, e José de Alencar (1931-2011), Senador da República e Vice-Presidente, são perdas evidentes para a tradição do MDB, embora Tancredo possa ser reivindicado pelo velho PSD e Itamar e José Alencar tenham encerrado as carreiras políticas em outras legendas. Os três, entretanto, tiveram trajetórias muitíssimo conectadas a grandes vitórias do MDB de Minas: Tancredo, ao Governo de Minas, em 1982, e à Presidência, em 1985; Itamar, ao Senado em 1974 e ao Governo na batalha cívica de 1998; José Alencar, ao vencer o Senado em 1998, quando “o 15 do Itamar é o 15 do Zé Alencar”, no jingle vitoriosíssimo.
Há, entretanto, ao menos cinco perdas, mais recentes, que marcam o ocaso e a orfandade do MDB, pela força simbólica dos quadros e sua belíssima carreira.
O primeiro dos recentes líderes a que nos referimos é Zaire Rezende (1931-2022). Sereno e combativo, foi por décadas o líder inconteste da esquerda do MDB. Sua Uberlândia teve em suas gestões como prefeito o impulso para seu desenvolvimento social, ainda hoje reconhecido. Deputado federal por três mandatos, Zaire integrou a centro-esquerda mais lúcida do Parlamento, chegou a candidatar-se a Vice-Governador de Minas (em 2006, de Nilmário Miranda) e presidiu o MDB de Minas.
A segunda liderança perdida pelo MDB em tempos recentes foi Newton Cardoso (1938-2025). Personagem controversa, apostava em uma imagem de líder popular incompatível com sua formação (era sociólogo, formado pela UFMG, e advogado, formado pela PUC). Na juventude, conviveu em república de estudantes com Carlos Mário Velloso, bem depois Ministro do STF, e José Alfredo de Oliveira Baracho, talvez o maior constitucionalista da história de Minas. Astuto e sagaz, foi prefeito por três vezes de sua cidade adotiva, Contagem, Vice-Governador e Governador de Minas, e deputado federal por dois mandatos. Como Governador, é sabido que Newton buscou um governo mais amplo que o imaginado — por exemplo, trouxe de volta a Minas o grande Darcy Ribeiro, encarregando-o de implantar o ensino integral nas escolas estaduais.
Logo após a morte de Newton, Minas perde Ronan Tito (1931-2025), Senador Constituinte e deputado federal por dois mandatos, outra figura legendária da política de Uberlândia. Afável e dotado de inigualável potência vocal, um orador de primeira linha, Ronan disputou o Governo de Minas e liderou o PMDB no Senado. Vivia em BH no mesmo andar que a poderosa Andréa Neves, em apartamento onde reunia a nata do MDB — e mantinha a porta permanentemente aberta. Um sábio, uma raposa memorável.
2025 trouxe ainda a perda de um dos mais significativos homens públicos de Minas, Tarcísio Delgado (1935-2025). Redator das memórias do MDB, líder histórico dos Autênticos do velho MDB, relator da Lei da Anistia, foi prefeito de Juiz de Fora por três mandatos e deputado federal também por três mandatos. Sua voz rouca e firme o credenciava a liderar os mineiros (e os brasileiros), mas, líder do PMDB na Câmara dos Deputados em seu último mandato, fez-se substituir na Casa por um de seus filhos e disputou o Senado em 1994, a partir de então se dedicando a campanhas majoritárias, à Prefeitura de sua Juiz de Fora e ao Governo de Minas, já nesse último caso, pelo PSB por onde encerrou sua magnífica e honrada carreira.
Finalmente, já agora, perde-se uma das mais relevantes figuras da Política mineira, Geraldo Paulino Santanna (1925-2026), Prefeito de Salinas e deputado estadual em vários mandatos. Geraldo Santanna foi fortíssimo quadro no Governo de Newton Cardoso, embora tenha sido gestor público ou colaborador direto em todos os governos estaduais, desde Bias Fortes (1956-1960) a Itamar Franco (1999-2002). Já anotamos que tanto Magalhães Pinto, nos anos 1960, quanto Tancredo Neves, nos anos 1980, estruturaram seus governos estaduais a partir dos célebres Critérios de Convivência, estruturados e publicados por Geraldo Santanna, talvez das maiores raposas políticas da história de Minas.
Quem conviveu com Zaire, Newton, Ronan, Tarcísio e Geraldo Santanna em um mesmo partido político teve um aprendizado histórico sobre a coragem e a habilidade na vida pública. O MDB de Minas, com esta plêiade de estrelas, afirmava-se como uma constelação de sóis de grande magnitude, capazes de iluminar o Brasil. Lamentavelmente, essa geração de grandes líderes não teve eco em um Brasil acostumado a apequenar a Mineiridade.
É claro, nas pegadas desses gigantes da Política outros líderes vieram e cresceram, como é o caso de dois memoráveis presidentes da Assembleia Legislativa de Minas. Um e outro, entretanto, deixaram o mundo da Política, esvaziando as perspectivas de futuro do MDB mineiro: Anderson Adauto (1957), Presidente da ALMG (1999-2001), deputado estadual por quatro mandatos e deputado federal, Prefeito reeleito de sua Uberaba e Ministro de Estado dos Transportes, que deixou o PMDB em 2001 e afastou-se da Política; e Tadeu Martins Leite (1986), deputado estadual por quatro mandatos e hoje o Presidente da Casa, já eleito para a Corte de Contas do Estado, que afinal, em que pese seu prestígio muito mais que evidente, figura como um dos últimos parlamentares do MDB de Minas.
Dir-se-á que o MDB segue tendo quadros muito expressivos, e quem sabe se lembre de Hélio Costa, Maria Elvira, Saraiva Felipe. Só que não. Todos deixaram o MDB, salvo engano rumo ao PSB. Tudo lembra um velório no MDB em Minas. Mas a memória permanece, como a história há de reconhecer. Foram ilustres os homens públicos do MDB de Minas Gerais: apenas, ao que vemos, já se foram. Talvez essa melancolia nem seja patrimônio emedebista, mas da Política mineira como um todo. A caça a líderes políticos dos quais possamos nos orgulhar segue em aberto, como um desafio permanente ao eleitor mineiro e aos apaixonados pelas artes da Política.
* José Luiz Borges Horta, 55, é Professor Titular de Teoria do Estado na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais e foi filiado ao PMDB pelas mãos de Zaire Rezende. Militou com muito orgulho em campanhas de Itamar Franco, Tarcísio Delgado e José Alencar. Coordena na UFMG o Grupo internacional de Pesquisa em Cultura, História e Estado e o Grupo de Pesquisa dos Seminários Hegelianos. Professor Visitante na Universitat de Barcelona, é membro da Sociedade Hegel Brasileira e do Centro de Excelência Jean Monnet em Estudos Europeus. Contato: zeluiz@ufmg.br

Nota: Participe nesta terça-feira dia 07 de março às 19h na OAB Barro Preto BH

