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02-04-2026 às 12h22
Karol Romagnoli*
A cena tem se repetido com frequência crescente no Brasil. Bastam algumas horas de chuva intensa para que o que parecia sólido comece a ceder. Muros trincam, pisos se deslocam, encostas deslizam. Em muitos casos, o problema não nasce na tempestade, mas muito antes dela.
Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais mostram que, em 2025, eventos climáticos extremos atingiram diretamente cerca de 336 mil pessoas no país e geraram prejuízos estimados em R$ 3,9 bilhões. Já nos primeiros meses de 2026, temporais intensos afetaram mais de 1,1 milhão de brasileiros, deixando cerca de 25 mil desabrigados e desalojados, segundo levantamentos de prefeituras e entidades municipais.
O avanço simultâneo de eventos climáticos mais intensos e da ocupação urbana desordenada ampliou a vulnerabilidade nas cidades brasileiras. Um levantamento do MapBiomas indica que, nas últimas quatro décadas, a ocupação de áreas suscetíveis a deslizamentos passou de cerca de 14 mil hectares para mais de 43 mil hectares. Hoje, milhões de pessoas vivem em encostas, margens de rios e terrenos baixos, expostas a enchentes e movimentos de massa a cada novo temporal.
Mas é possível proteger um imóvel em área de risco? Para o engenheiro civil Francisco Machado, especialista em gestão de grandes obras, a resposta exige realismo técnico. Nem sempre o risco pode ser eliminado, mas, na maioria dos casos, é possível reduzi-lo de forma significativa. O problema é que, no Brasil, as intervenções ainda acontecem tarde demais. “O maior erro é tentar resolver depois que o problema aparece. Quando surgem rachaduras, afundamento ou deslocamento de piso, a estrutura já está reagindo a uma falha anterior. O risco começa no solo”, afirma.
Antes de qualquer construção, o terreno precisa ser estudado. Sem sondagem e análise adequada de fundação, o imóvel pode nascer sobre uma base instável. Nesse contexto, a chuva deixa de ser a causa principal e passa a atuar como gatilho de um problema já instalado.
Esse tipo de negligência é mais comum do que parece. O Atlas Digital de Desastres do Cemaden registra mais de 10 mil ocorrências recentes associadas a chuvas intensas, incluindo deslizamentos e inundações que atingiram diretamente áreas urbanas e infraestrutura básica.
Quando o imóvel já está construído, a solução passa por engenharia corretiva. E ela raramente é simples. Exige intervenções técnicas, muitas vezes de alto custo, que envolvem desde contenções estruturais até reconfiguração do terreno. Ainda assim, ignorar o problema tende a ser mais caro e, em casos extremos, pode custar vidas.
Entre as medidas mais utilizadas estão a construção de muros de contenção, a implementação de sistemas de drenagem profunda para controlar a infiltração, o reforço das fundações e a estabilização do solo. Soluções pontuais, feitas apenas para conter sintomas imediatos, costumam falhar diante de novos eventos extremos, especialmente quando o entorno também permanece vulnerável.
Sinais que a estrutura já está reagindo
Nem sempre o risco se manifesta de forma evidente. Em muitos casos, ele aparece em sinais sutis dentro de casa. Portas e janelas que deixam de fechar corretamente, rachaduras diagonais em paredes, pisos que estufam ou desníveis progressivos no chão indicam movimentação estrutural e exigem atenção. “Quando o piso levanta ou trinca sem motivo aparente, já mostra que existe deslocamento em curso. É um alerta importante”, diz Machado.
Um problema que ultrapassa o imóvel
A questão vai além das residências individuais e expõe fragilidades na forma como o país construiu suas cidades. Em 2025, o Cemaden emitiu mais de 2.500 alertas de desastres geo-hidrológicos, a maioria relacionada a enchentes e deslizamentos. A região Sudeste concentrou cerca da metade desses avisos, refletindo a combinação entre densidade populacional e ocupação de áreas vulneráveis.
O que fazer agora para reduzir o risco
Mesmo em áreas críticas, algumas ações ajudam a reduzir a exposição imediata. Buscar avaliação técnica especializada é o primeiro passo. Também é fundamental evitar cortes no terreno sem projeto estrutural, controlar o escoamento da água da chuva, não sobrecarregar encostas e acompanhar qualquer sinal de movimentação do solo.
Com eventos climáticos mais intensos e frequentes, construir bem deixou de ser um diferencial. Em muitos casos, o risco não está no endereço, mas nas decisões que sustentam o que foi construído ali.
Sobre
Francisco Machado é engenheiro civil com atuação consolidada em projetos de grande porte. Com mais de uma década à frente de uma construtora no interior de São Paulo, liderou a execução de obras que somam dezenas de milhões de reais, incluindo postos de combustíveis reconhecidos nacionalmente. Especialista em gestão de projetos e análise de viabilidade para investidores, construiu sua trajetória conectando engenharia, eficiência operacional e retorno financeiro em empreendimentos de médio e grande porte.

