Créditos: Divulgação
26-03-2026 às 10h37
Alcindo Batista*
A inadimplência permanece como um dos principais entraves econômicos no Brasil. Dados recentes do Mapa da Inadimplência, divulgado pela Serasa, apontam que cerca de 81,7 milhões de brasileiros adultos têm ao menos uma dívida em atraso. Uma vez que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país tem 213 milhões de habitantes, pode-se dizer que 38,3% da população está endividada.
O número destaca a pressão contínua sobre o orçamento das famílias, em um contexto marcado por custos elevados e menor previsibilidade financeira.O levantamento aponta que o problema não se concentra em um único grupo. Pessoas de diferentes faixas etárias, regiões e níveis de renda convivem com a dificuldade de manter as contas em dia.
O perfil da inadimplência é heterogêneo e envolve desde consumidores com acesso frequente ao crédito até famílias impactadas por despesas básicas recorrentes. A pesquisa Acrobacia Financeira, uma parceria do Inter com a Consumoteca, evidencia esse panorama. Os resultados mostram que grande parte dos brasileiros precisa reorganizar constantemente o orçamento para equilibrar renda e despesas.
Nesse cenário, o uso do crédito como ferramenta de sustentação do orçamento doméstico contribui para o avanço da inadimplência. O parcelamento de despesas cotidianas, prática cada vez mais comum, tende a se acumular ao longo do tempo.
Esse movimento eleva o comprometimento mensal e reduz a capacidade de absorver variações de renda ou gastos inesperados, como despesas médicas ou períodos de desemprego. Desse modo, parte dos consumidores passa a operar no limite do orçamento, o que aumenta o risco de atraso.
Renegociação ganha espaço como alternativa
Para quem enfrenta dificuldades para sair do vermelho, a renegociação tem sido uma das alternativas mais buscadas. Dados do Feirão Serasa Limpa Nome indicam crescimento na adesão a campanhas de renegociação, especialmente em períodos de maior instabilidade econômica, quando o orçamento das famílias sofre mais pressão.
Iniciativas de acordos com descontos, parcelamentos e prazos estendidos ajudam a reduzir o peso da dívida atrasada e a reorganizar o planejamento financeiro. Plataformas digitais e canais on-line ampliaram o acesso a esse tipo de solução, o que torna o processo mais ágil e transparente para o consumidor.
Esses mecanismos oferecem ao consumidor uma visão consolidada de suas pendências, com informações sobre valores, credores e condições disponíveis. A possibilidade de comparar propostas e simular diferentes cenários de pagamento favorece decisões mais alinhadas à capacidade financeira atual.
Comprometimento da renda limita a capacidade de ajuste
Estudo inédito da Serasa Experian aprofunda esse diagnóstico ao mostrar que, em média, 70,5% da renda dos brasileiros está comprometida com despesas financeiras e obrigações recorrentes. O levantamento traz recortes por faixa salarial e histórico desde 2022, o que oferece uma visão detalhada do perfil financeiro da população.
Os dados indicam que o comprometimento é mais elevado entre as faixas de menor renda. Consumidores que recebem até um salário-mínimo apresentam, em média, 90,1% da renda comprometida.
Entre aqueles que ganham dois salários-mínimos, o percentual é de 79,4%, e entre três salários-mínimos, 71,1%. Mesmo em faixas intermediárias, o nível de comprometimento permanece elevado, com variação entre 57,9% e 68,9%. Apenas entre consumidores com renda superior a dez salários-mínimos o índice cai para 58,2%, ainda assim em patamar relevante.
Em termos históricos, houve uma leve redução no comprometimento médio da renda, que passou de 72,3% em 2022 para 70,5% em 2025. Apesar dessa melhora marginal, o nível permanece alto e ajuda a explicar por que o aumento da renda observado nos últimos anos não foi suficiente para conter o avanço da inadimplência.
Capacidade de pagamento segue restrita
Outro dado relevante do estudo é a capacidade média mensal de pagamento, que atualmente é de R$ 968. Esse indicador representa o valor que o consumidor ainda teria disponível para assumir novos compromissos financeiros após considerar renda, gastos fixos, dívidas existentes e comportamento financeiro.
A capacidade de pagamento varia conforme a faixa salarial. Entre consumidores que ganham até um salário-mínimo, a capacidade média é de R$120. Para dois salários-mínimos, o valor sobe para R$410, e para três salários-mínimos, alcança R$1.056. Embora tenha crescido mais de 30% entre 2022 e 2025, a disponibilidade financeira ainda é limitada para grande parte da população.
Renda extra se torna estratégia para equilibrar o orçamento
O desafio da regularização financeira é ampliado pelo alto comprometimento do orçamento. Esse nível de comprometimento limita a margem para imprevistos e dificulta a manutenção de acordos de renegociação ao longo do tempo.
Com parcela significativa da renda já comprometida, o equilíbrio financeiro depende de um planejamento mais rigoroso e de alternativas que aumentem a previsibilidade do fluxo mensal. Portanto, a geração de renda extra surge como estratégia para recompor o orçamento, sobretudo entre trabalhadores autônomos, informais ou com vínculos mais flexíveis.
Tecnologia amplia oportunidades para autônomos
Nesse movimento, a tecnologia tem papel importante. Ferramentas que facilitam o recebimento de pagamentos, como soluções que transformam o celular em uma maquininha de cartão, ampliam as possibilidades para autônomos e pequenos prestadores de serviço.
A redução de barreiras para aceitar pagamentos eletrônicos contribui para aumentar o fluxo de caixa e dar mais previsibilidade à renda, fator decisivo para quem tenta regularizar pendências financeiras.
O avanço dessas soluções também favorece a formalização gradual de atividades informais, ao viabilizar maior controle sobre entradas e saídas de recursos. Para pequenos negócios, aceitar diferentes meios de pagamento se torna praticamente uma condição básica para manter a competitividade.
Inadimplência assume caráter estrutural
Os dados da Serasa reforçam que a inadimplência no Brasil tem características estruturais. O problema está associado a fatores macroeconômicos, como juros elevados, instabilidade da renda e aumento do custo de vida, além de mudanças no comportamento de consumo.
Enfrentar esse quadro exige a combinação de renegociação responsável, geração de renda e uso inteligente da tecnologia financeira. Para milhões de brasileiros, organizar as contas é indispensável para recuperar estabilidade e retomar o controle da vida econômica, em um cenário que demanda planejamento contínuo e adaptação às novas dinâmicas do mercado.

