Comportamento de consumo e transformação social - créditos: Meio e Mensagem
15-03-2026 às 11h06
Cíntia Calais*
Caminhar pelo SXSW (South by Southwest) é uma experiência mais do que curiosa. Quando você se dá conta, já entrou em uma sessão pensando em um tema específico e saiu com a sensação de que todas as conversas estão conectadas por uma mesma pergunta sobre o futuro.
E essa última semana foi exatamente assim.
Logo na abertura do evento, rodeada de futuristas e pesquisadores de tecnologia, o clima era quase de uma sensação de antecipação coletiva. Os painéis como o da futurista norte-americana Faith Popcorn, conhecida por décadas de previsões sobre comportamento de consumo e transformação social, discutia como mudanças culturais profundas costumam anteceder grandes viradas tecnológicas.
Ao lado dela, o investidor e empreendedor do Vale do Silício Chamath Palihapitiya, ex-executivo do Facebook e hoje uma das vozes mais influentes do ecossistema de venture capital, oferecia uma leitura mais pragmática sobre o impacto da inteligência artificial nos modelos de negócios e nas estruturas econômicas globais.
A mensagem era mais do que clara: não estamos apenas diante de uma nova onda tecnológica. Estamos diante de uma mudança estrutural na forma como a sociedade organiza o trabalho, as decisões e o poder.
Mas o que mais me chama a atenção quando se está aqui, é perceber que a narrativa sobre IA não gira apenas em torno da tecnologia em si. Existe uma camada silenciosa que sustenta tudo isso e que muito pouco é discutida: a infraestrutura.
Energia – Capacidade computacional – Dados em escala global. Sem isso, nada acontece.
Essa percepção apareceu de forma transversal e, inclusive, interdisciplinar em várias conversas que tive com os participantes. Mesmo quando o tema era criatividade ou até mesmo a economia digital, a infraestrutura aparecia como pano de fundo inevitável.
Em uma sessão muito interessante com o novo co-CEO do Spotify, Daniel Ek, a discussão partia da indústria criativa, mas rapidamente chegava a um ponto maior sobre como a tecnologia, a distribuição e a criatividade estão se reorganizando no mundo digital(!).
A sensação é que as empresas já pensam nos próximos anos (não dá para pensar o mundo em décadas como estávamos acostumados até então) em termos muito diferentes. As plataformas que utilizamos em nosso dia a dia não são apenas intermediárias, mas sim um sistemas de organização econômica.
E então veio talvez a sessão mais provocadora do dia: “What AI Agents Are Doing While You’re Not Watching”, conduzida pelo jornalista de tecnologia Sam Sabin, especialista em política e governança de inteligência artificial, ao lado de David Danks, professor de Filosofia e Ciência de Dados da University of California, San Diego, e Aparna Chennapragada, vice-presidente de produto para IA generativa da Google.
A pergunta central era quase desconcertante: o que acontece quando sistemas de inteligência artificial começam a agir por conta própria?
Não estamos mais falando de ferramentas que respondem perguntas. Estamos falando de agentes digitais capazes de executar tarefas, interagir com sistemas e tomar decisões.
Trata-se de uma verdadeira digital workforce.
Foi curioso perceber que, nesse debate conduzido por engenheiros e desenvolvedores do ecossistema do Silicon Valley, o tema central não era performance tecnológica. Era confiança.
- Como validar esses agentes? 2) Como saber o que eles fizeram? 3) Como reconstruir as decisões tomadas?
Uma das ideias mais repetidas foi a necessidade de reconstruir a cadeia completa de ações da IA, seja a partir dos logs, registros de acesso, histórico de inputs ou decisões. Em outras palavras, se agentes autônomos passam a atuar na economia, precisamos ser capazes de auditar suas decisões.
É aqui que a tecnologia encontra governança.
Curiosamente, essa preocupação apareceu em diferentes sessões ao longo do evento. Quando Mark Cuban discutia o futuro da mídia e da confiança na era da IA, o problema era semelhante e se direcionava em entender como reconstruir credibilidade em um ambiente cada vez mais automatizado.
Já na keynote de Rana el Kaliouby, o debate ganhava um tom mais humano. Ela magistralmente nos lembrou que a inteligência artificial não é apenas uma tecnologia de eficiência, e sim uma tecnologia que impacta diretamente emoções, comportamento e decisões humanas.
Entre todas essas conversas, começa a emergir um fio condutor claro. A nova economia não está sendo construída apenas com algoritmos. Ela está sendo construída com perguntas sobre responsabilidade.
Já em sessões como as de Neil Redding, futurista e arquiteto de inovação especializado na convergência entre IA, realidade aumentada e novos modelos de negócio, ou de Ian Beacraft, estrategista de tecnologia e fundador da consultoria de foresight Signal & Cipher, aparecia uma ideia recorrente: liderar na era da inteligência artificial significa orquestrar sistemas inteligentes, não apenas implementá-los.
Isso exige uma mudança de mentalidade. Empresas precisam pensar menos em ferramentas e mais em arquiteturas de decisão.
E talvez, o insight mais interessante do dia tenha vindo de um painel inesperado sobre capitalismo de impacto. A discussão conduzida por Greg Curtis, investidor de impacto ligado a iniciativas filantrópicas e inovação social, e Alex Amouyel, diretora-executiva da fundação filantrópica criada por Paul Newman, girava em torno de um conceito simples: radical generosity.
A provocação era quase filosófica.
Se estamos redesenhando sistemas econômicos inteiros com tecnologia, automação e inteligência artificial, qual é o propósito desse novo modelo?
Saindo das sessões hoje, a sensação é paradoxal. Por um lado, a tecnologia parece avançar em velocidade impressionante. Por outro, as perguntas fundamentais são cada vez mais institucionais.
Quem governa os algoritmos? Quem responde pelas decisões das máquinas? Como construir confiança em uma economia operada por agentes digitais?
O curioso é perceber que essas perguntas não aparecem apenas nos painéis escolhidos no contexto de uma curadoria jurídica e/ou regulatória. Elas estão surgindo no coração das discussões tecnológicas.
E talvez esse seja o verdadeiro espírito do South by Southwest: criar um espaço em que inovação não se resume ao que somos capazes de construir, mas à reflexão coletiva sobre as instituições, os valores e as responsabilidades que precisarão nos acompanhar e como vamos viver com aquilo que estamos criando.
*Cíntia Calais é advogada em Belo Horizonte/MG, pesquisadora e entusiasta em Legal Innovation & Governance Communication in Business pela Harvard University, mestranda em direito – Estado, Mercado e Desenvolvimento pelo IDP/SP

