A telefonia em destaque - créditos: divulgação
13-03-2026 às 12h06
Alexandre de Carvalho*
Há 150 anos, em março de 1876, Alexander Graham Bell completava a primeira ligação telefônica da história. Em 1916, há 110 anos, do quintal de bambas da Tia Ciata, na Praça Onze do Rio, nascia o histórico “Pelo telefone”, samba de Donga, cuja partitura foi registrada na Biblioteca Nacional por Pixinguinha – nomeado, por Vinicius de Moraes, “o melhor ser humano do mundo”. Mas, de lá para cá, o que aconteceu com o telefone?
Antigamente, digo, há pouco mais de duas décadas, o toque do telefone ecoava, era como um chamado, tinha o poder de ativar-ligar afetos de alegria ou tristeza. O telefone fazia ‘ligações’ (no sentido de conexões simbólicas) e ‘sintonizava’. Havia uma espera, quiçá uma angústia. Dependendo do contexto ou simplesmente como expectativa de ser arrancado do marasmo, ficava-se à espera do toque do telefone. Além do mais, o telefone jamais tocava no teatro ou no cinema – no cinema, raramente, o telefone podia tocar na sala do projetista. Quando isso ocorria, uma rotunda vaia soava de forma retumbante, a ocupar todo o espaço em protesto.
No século XX, o telefone não caminhava na bolsa ou junto ao corpo. O telefone era um objeto fixo. Por um fio, ligava-se à parede; um fio que passava por dentro dela, conectava-se a outros e, depois, ganhava o espaço por meio de fios suspensos em postes. Havia fios, como cordões, que ligavam as coisas e permitiam a sintonia. Isso, obviamente, limitava o movimento e o porte do aparelho, mas dava ao telefone um lugar e um estatuto simbólico inimaginável para os usuários nascidos no século XXI. Havia até espaço para o gozo perverso, por meio do trote; gozo de menores consequências sociais, suplantado e tornado extremamente perigoso com o advento das fake news que se propagam na velocidade da luz no vácuo intelectual e mnemônico das redes sociais.
Outrora, havia um objeto chamado ‘páginas amarelas’. Era um catálogo onde o marketing se fazia: o telefone apenas fazia a mediação entre um ‘consumidor’ em potencial e um comerciante ou produtor que, para concretizarem o ato elementar do mercado, necessitavam de deslocamentos e outras mediações. Hodiernamente, o telefone, digo, o smartphone (ou coisa que o valha) se tornou, em si, objeto de manipulação e marketing, deixou de ser um mediador, pois o ato de mercado pode se dar por inteiro na própria tela, sem deslocamento do sujeito ou mediações outras. O consumo como formação capitalista do desejo pode se dar na própria tela (pornografia, namoro virtual, sites de apostas, transmissões de esportes etc.).
Mas, não é à toa que ‘ninguém atende mais o telefone’, protestam os mais velhos. Não há tempo. O capital operado e hipervalorizado por intermédio das redes sociais (que ganham corpo nos smartphones, fones ‘espertos’…) triturou o tempo do telefone. Não há mais tempo de ligação, vinculação, sintonia ou de elaboração simbólica. O imaginário frenético e alucinado do capital subsumiu o registro do simbólico, arrasou a referência espaço-temporal (usava-se o telefone numa coordenada espaço-temporal: em determinado lugar, em certo horário) e a estilhaçou em coordenadas móveis e volúveis de GPS. Um espaço pobre simbolicamente se sobrepôs ao espaço-tempo da co-municação, esvaziando-o. Agora, não há tempo para a escuta do outro. Até mesmo o que se ouve é menos escuta, é menos signo (significante & significado) e mais imagem acústica – imagens que dispensam mediação simbólica e entorpecem, ao mesmo tempo em que saturam os sentidos. Cada vez mais, menos se trata de angústia, alegria ou tristeza; menos se trata de ligação, vínculo, sintonia, simbolização. Trata-se de controle, de valorização constante do capital, de intromissão, invasão e, contraditoriamente, chega-se a ‘desejar’ esse controle, essa invasão, essa intromissão.
Enfim, não é de se admirar que, atualmente, o toque do telefone provoque mais incômodo e medo do que aquele tal ‘friozinho na barriga’ (para o triste, a alegria, a morte, o erótico etc.) que provocava no tempo em que era um objeto fixo, tinha um lugar, e favorecia a elaboração simbólica. Tornou-se um objeto móvel, portátil, invasivo, onipresente, opressor e onisciente. Digo ‘onisciente’ como figura de linguagem, pois, ainda que de forma medíocre e simbolicamente esvaziada, o smartphone ‘sabe’ tudo: capta o que o usuário diz (ou digita) e submete tudo o que capta à engenharia de dados, dirigida por IA, a serviço de grandes conglomerados empresariais. O toque do telefone (digo, smartphone) nos lembra que escutar é preciso, que carecemos de trabalho simbólico e, ao mesmo tempo, nos diz: não há tempo. O toque do telefone incomoda porque escancara essa contradição e, por incapacidade simbólica e ausência de tempo, nos remete à paralisia (dolorosa e real) do paradoxo que mascara o movimento real que não há. Oxalá se esteja aqui a tratar de uma contradição dialética, passível de superação, e que ainda seja possível algum tempo e movimento que restitua ao registro do simbólico o lugar de ligação e que, ‘pelo telefone’, as boas vibrações sonoras que ainda ecoam do terreiro da Tia Ciata possam, enfim, a nós retornar.
P.S. Um dia depois de digitar este texto e de enviá-lo ao editor, recebi no feed de notícias do Google uma matéria intitulada “A geração Z sucumbiu à telefobia: 56% dos jovens acreditam que ela está associada ao recebimento constante de más notícias”. Bingo! Esse ‘singelo’ e aparente evento nada tem de fortuito: tem-se aí mais uma corroboração do que, no texto, foi chamado de smartphone ‘onisciente’ que, captando o que eu estava a digitar e transmitir via whatsapp e e-mail, me apresentou, de imediato, uma nova categoria psicopatológica, pronta para se encaixar a uma terapêutica medicamentosa psiquiátrica que – não posso perder a oportunidade da ironia: alvíssaras! – irá ‘liberar’ os jovens da geração Z de mais uma fobia. A IA do Google sabe, decerto, do meu trabalho e o que escrevo. Não sabe – ou sabe e distorce – que não compartilhamos do mesmo conceito de fobia, nem de sua etiologia.
Alexandre de Carvalho é psicanalista, membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos (EBEP – Rio), professor associado da Unirio, atualmente no Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). É doutor em Saúde Coletiva, com pós-doutorado em Teoria Psicanalítica (UFRJ).

