IDADE DA RAZÃO - créditos: Imagem gerada pela IA do DM
08-03-2026 às 10h17
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho *
O ventilador continuava a girar sobre nossas cabeças como uma hélice cansada, empurrando o ar espesso de abril de um lado para o outro. A discussão sobre “corpos” e “risco” ainda vibrava nas paredes quando Bolívar pediu a palavra de volta.
Ele ouviu a intervenção de Cláudia com uma expressão que oscilava entre condescendência e fadiga. Não era surpresa — era cálculo. Retirou os óculos e limpou as lentes com um lenço de seda branca, gesto meticuloso que repetia sempre que precisava ganhar tempo para organizar o incêndio interno sem deixar que a chama transparecesse.
Eu o conhecia o suficiente para perceber: aquele era o seu silêncio de vidro. Transparente, aparentemente frágil, mas cortante.
Ele conhecia aquele tom de voz de Cláudia. Não era apenas o timbre da professora em debate; era o mesmo que surgia em casa quando o desejo deixava de ser ternura e se tornava confronto. Bolívar sabia — com a precisão de quem prefere não confirmar — que o pé de Carlos não estava ali por acaso. Sabia que os fins de semana “acadêmicos” de Cláudia seguiam mapas que não constavam em nenhuma agenda institucional.
Mas, Bolívar era, antes de tudo, um arquiteto de instituições. E arquitetos sabem que prédios não se sustentam apenas com verdades; sustentam-se com fachadas.
Se admitisse a existência da Cláudia subterrânea, a que se movia por impulsos e não por atas, o edifício da Unidade começaria a rachar. Ele precisava da Cláudia-ícone: a intelectual brilhante, a sobrevivente respeitável, a mulher que dava prestígio ao sobrenome e legitimidade à gestão. O resto — a carne, o risco, o descontrole — ele empurrava para uma zona que fingia não existir.
— Cláudia sempre foi dada a metáforas viscerais — disse ele, enfim, com um sorriso gélido que não alcançava os olhos.
Não era apenas uma frase; era um enquadramento.
Dirigiu-se ao colegiado, não a ela. Ignorou deliberadamente o olhar inflamado de Carlos, que agora mantinha as mãos imóveis sobre o relatório.
— Mas os corpos a que ela se refere, no plano pedagógico, precisam de estrutura. Sem orçamento, o “tremor do risco” não passa de desordem. E a desordem, como sabem bem nossos amigos Josafá e Marcos, foi o que nos custou o país décadas atrás.
A palavra desordem caiu na mesa como um peso metálico.
Não era uma argumentação inocente. Bolívar convocava a memória da repressão — nossa memória — para conter o presente. Ele erguia o passado como cerca elétrica. Lembrava-nos de que o caos tinha preço, e que fora alto. Era um golpe elegante: usava nossa dor como argumento administrativo.
Vi Josafá enrijecer na cadeira. Marcos desviou o olhar para a janela. Cláudia permaneceu imóvel, mas seus dedos cessaram o giro da caneta.

Bolívar retomou o item 4 da pauta. A mão, porém, tremeu imperceptivelmente ao segurar o papel. Ele também estava exposto, embora ninguém ousasse nomear. Sentia o perfume de Cláudia misturado ao suor da sala — um cheiro que já não lhe pertencia. Havia nele algo de homem ferido, mas esse homem estava subordinado ao reitor, ao gestor, ao guardião da ordem.
Bolívar aceitava, talvez, o papel de marido traído — mas jamais o de dirigente enfraquecido. Sua vingança era sutil e cruel: o apagamento. Ao não reconhecer o desejo que vibrava sob a mesa, ao tratá-lo como irrelevante, ele transformava Cláudia e Carlos em sombras. Fantasmas tolerados, nunca legitimados.
Para Bolívar, a universidade era sua verdadeira esposa. E nela, ele não admitiria traição.
Foi então que compreendi que o que se desenrolava diante de nós não era apenas disputa política nem drama conjugal. Era um teatro de sombras. Cada um ali dirigia a própria cena e, ao mesmo tempo, estava preso ao roteiro que ajudara a escrever.
Cláudia defendia o risco como princípio. Bolívar defendia a ordem como sobrevivência. Carlos encarnava o impulso, a urgência da carne que se recusa a esperar. Josafá carregava o peso da história, temendo que o sonho se repetisse em ruína. E eu observava, com a melancolia de quem já viu utopias maiores implodirem por detalhes.
Naquela sala, compreendi algo que me inquieta até hoje: talvez não seja a repressão aberta que destrói os projetos, mas o silêncio polido. Não o escândalo, mas a negação calculada.
A Universidade continuava ali, firme sobre o morro. Mas sob suas fundações corria uma fissura invisível — feita de desejo não reconhecido, de ressentimentos contidos, de memórias instrumentalizadas.
E quando o vidro começa a rachar, o som nem sempre é imediato. Às vezes, ele só se ouve quando já é tarde demais.
*Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas

