Obra de exposição de meme - créditos: divulgação
01-03-2026 às 09h26
Fábio Gomides*
Belo Horizonte, fevereiro de 2026 – O Brasil é um dos maiores produtores e consumidores de memes do mundo, e agora também será o primeiro país a receber uma grande exposição dedicada a esse fenômeno. Com estreia marcada para 28 de março de 2026 no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH), a mostra “MEME: no Br@sil da memeficação”, quepoderá ser conferida até 22 de junho, reúne cultura digital, arte contemporânea e crítica social, ao apresentar cerca de 800 itens produzidos por 200 criadores do universo digital e artistas. Depois de BH, a exposição segue para o Rio de Janeiro até novembro de 2026.
Com curadoria de Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, e colaboração do perfil de Instagram @newmemeseum, a mostra convida o público a explorar a memeficação como um dos modos mais potentes – e irônicos – de narrar o Brasil contemporâneo.
“Memes não são só piadas. Eles são ferramentas políticas, culturais e afetivas. São como o Brasil elabora, disputa e contorna suas diferenças – sociais, raciais, de gênero, estéticas – em tempo real”, afirma Clarissa Diniz. “A exposição parte do humor para provocar: como estamos refazendo o país através de suas imagens mais debochadas?”.
“É impossível compreender o Brasil de hoje sem entender seus memes”, diz Ismael Monticelli. “Eles não apenas refletem a realidade, mas atuam sobre ela: produzem memória, disputam narrativa, geram pertencimento. Enquanto fazemos memes, os memes refazem o Brasil”.
A proposta curatorial rompe fronteiras entre o que é visto como “alta” e “baixa” cultura, reunindo nomes consagrados da arte contemporânea brasileira, como Anna Maria Maiolino, Gretta Sarfaty, Nelson Leirner e Claudio Tozzi, ao lado de criadores de conteúdo como Blogueirinha, Porta dos Fundos, Alessandra Araújo, Melted Vídeos, John Drops e Greengo Dictionary.
O meme antes do meme
Organizada em cinco núcleos temáticos – Ao pé da letra, A hora dos amadores, Da versão à inversão, O eu proliferado e Combater ficção com ficção – tendo como prólogo um espaço tátil intitulado Alisa meu pelo e epílogo Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam?, a mostra ocupa o pátio e o 3º andar do CCBB BH e possui cenografia imersiva e uma ampla diversidade de linguagens: vídeos, neons, esculturas, roupas, quadrinhos, pinturas, objetos, backlights, instalações sonoras e experiências interativas.
“A exposição não tem a ambição de ser um inventário do humor nacional, mas investigar os memes como uma linguagem viva, que transborda a internet e afeta diretamente nossas formas de pensar, sentir e agir”, afirma Ismael Monticelli. “Eles são dispositivos de memória, de disputa e de pertencimento, que operam em altíssima velocidade e atravessam todas as camadas da vida social”.
“Queremos provocar o público a pensar: será que essa vocação memética do Brasil começou mesmo com os memes digitais?”, questiona Clarissa Diniz. “Ou será que ela já se anunciava no carnaval, nos bordões da TV, nas pichações e nos outdoors? O que acontece quando política, publicidade e arte se dobram aos formatos da zoeira?”.
Ao receber este projeto, o Centro Cultural Banco do Brasil reafirma seu papel como um espaço vivo de diálogo com as linguagens contemporâneas, valorizando a potência crítica, afetiva e estética que surge tanto das redes quanto das ruas. A mostra também reforça o compromisso do CCBB com a valorização da cultura brasileira em toda a sua diversidade, incluindo as expressões que nascem, se desenvolvem e se reinventam no ambiente digital.
Percurso da mostra
Prólogo – Alisa Meu Pelo | Pátio do CCBB BH
O meme “Alisa meu pelo”, surgido em 2017 a partir da onça-pintada da nota de R$50, acompanhada da legenda “alisa meu pelo (onça carente)”, viralizou ao ressignificar a onça não como ícone de virilidade, mas como símbolo afetivo, carente e próximo. Ao se difundir, o meme passou a comentar o próprio Brasil de forma leve e zombeteira, ativando uma produção simbólica popular e participativa. Na exposição, onças em diferentes materiais convidam o público ao toque e à interação, ampliando esse gesto coletivo de humor e reflexão. Participaram da criação das onças os artistas José Francisco Afrânio, Jorge Gomes e Vinicius Vaitsmann.
Núcleo 1 – Ao pé da letra | 3º andar do CCBB BH
No primeiro núcleo da exposição, o foco recai sobre os jogos semânticos e os descompassos entre texto e imagem que tornam os memes tão eficazes em gerar riso, crítica e estranhamento. Em vez de explicarem um ao outro, palavras e figuras se combinam para formar sentidos inesperados – ou se colam literalmente, desnaturalizando expressões e convenções sociais. Abordando práticas como o uso de emojis, narrações e dublagens cômicas, além de línguas digitais como o tiopês, o pajubá e estruturas como o snowclone, o núcleo revela como essas invenções linguísticas produzem deslocamentos de sentido e potência crítica.
Alguns criadores presentes no núcleo são: Amanda Magalhães (@amandzmagalhaes), Daniel Santiago, Frimes (@frimes), Greengo Dictionary (@greengodictionary), Guto TV (@gutotvreal), Leandra Espírito Santo, Melted Vídeos (@meltedvideos), Nelson Leirner, Pamella Anderson, Panos Subversivos (@panossubversivos), Rafael Portugal (@rafaelportugal), Raquel Real (@raquelrealoficial), Roxinha e Ruth Lemos.
Núcleo 2 – A hora dos amadores | 3º andar do CCBB BH
Inspirado pela célebre capa da revista Time de 2006, que elegeu “você” como a personalidade do ano, este núcleo aborda a virada provocada pela internet e pelas redes sociais, que deram visibilidade inédita às “pessoas comuns”. Os memes, nesse contexto, aparecem como uma tecnologia social de protagonismo, permitindo que vozes antes apagadas ou silenciadas ocupem o centro da cena cultural. Em países como o Brasil, marcados por fortes desigualdades, os memes se tornaram um território fértil para narrativas insurgentes: do humor que revela a precariedade cotidiana à crítica social feita com poucos recursos e muita sagacidade. Este núcleo celebra essa potência do amadorismo como desvio criativo e força política.
Alguns criadores presentes no núcleo são: Alessandra Araújo (@alessandraraujooficial), Valdisnei (Lourival Cuquinha e Daniela Brilhante), Malfeitona (@malfeitona), O Brasil Que Deu Certo (@obrasilquedeucerto) e Raphael Vicente (@raphaelvicente).
Núcleo 3 – Da versão à inversão | 3º andar do CCBB BH
Se a imitação é uma das bases da linguagem memética, aqui ela é entendida como gesto crítico e criativo. Este núcleo mostra como memes transformam cópias em versões que subvertem e desmontam o original, produzindo humor, paródia e comentário social. A exposição apresenta desde pequenas alterações – como trocar uma palavra ou fazer um recorte específico de imagem – até inversões radicais: mulheres imitando homens, humanos dublando animais, estéticas que embaralham as fronteiras entre identidade e representação. Como no carnaval, o riso vem da inversão – e nela, uma crítica se insinua.
Alguns criadores presentes no núcleo são: A Vida de Tina (@avidadetina), Alexandre Mury, Festa da Firma (@festadafirma), John Drops (@johndrops), Juvi Chagas (@ajuvichagas), Lara Santana (@larasantana), Malhassaum (@malhassaum), Porta dos Fundos (@portadosfundos), Renata Felinto e Victor Arruda.
Núcleo 4 – O eu proliferado | 3º andar do CCBB BH
Neste núcleo, a curadoria volta-se à explosão do “eu” nas redes sociais e à forma como a vida privada se tornou espetáculo. A internet deixou de ser apenas um espaço de compartilhamento para se tornar um palco de autoperformance. A construção de si – por meio de selfies, dancinhas, relatos, confissões e personagens – tornou-se prática cotidiana, revelando tanto o desejo de existir publicamente quanto os efeitos dessa hiperexposição. O núcleo aborda a dramaturgia do “eu” como potência e armadilha. Se, por um lado, possibilita a afirmação de identidades historicamente apagadas, por outro, evidencia o impacto subjetivo da lógica neoliberal, que transforma autoestima em mercadoria e precariza o bem-estar mental.
Alguns criadores presentes no núcleo são: Blogueirinha (@blogueirinha), Coach de Fracassos (@coachdefracassos), Frases Pra Você (@frasespravoce), Galinhas Inseguras (@galinhasinseguras), Gretta Sarfaty, Jacira Doce (@jaciradoce), Lenora de Barros, Nathalia Cruz (@nathaliapontocruz), Panmela Castro, Pedro Vinicio (@pedrovinicio80), Regina Vater, Telma Saraiva, Valentina Bandeira (@valentinabandeira) e Valeska Soares.
Núcleo 5 – Combater ficção com ficção | 3º andar do CCBB BH
A polarização política e a radicalização do discurso público são temas centrais deste núcleo, que examina o papel dos memes na disputa simbólica do presente. Ao mesmo tempo em que são ferramentas de enfrentamento, síntese e resistência, os memes podem também ser veículos de desinformação, exclusão e violência simbólica. A curadoria propõe aqui uma reflexão sobre os usos éticos do riso, compreendendo o humor como forma sofisticada de diplomacia, mas também como instrumento perigoso nas mãos do autoritarismo. Entre memecracia e memecrítica, este núcleo convida a pensar: como rir sem reforçar os estigmas que queremos combater?
Alguns criadores presentes no núcleo são: Augusto de Campos, Claudio Tozzi, Dolangue News (@dolangue.news), História no Paint (@historianopaint), Juju dos Teclados (@jujudosteclados), Marcelo Tas (@marcelotas), O Pasquim, Paulo Gustavo, Porta dos Fundos (@portadosfundos), Regina Silveira, Saquinho de Lixo (@saquinhodelixo) e Sensacionalista (@sensacionalista).
Epílogo – Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam? | 3º andar do CCBB BH
Encerrando o percurso, o epílogo da exposição abraça a impossibilidade de definir os memes de maneira definitiva. Ao invés de uma resposta fixa, a curadoria propõe uma provocação coletiva: como cada pessoa compreende o que é um meme? O que eles significam hoje? O epílogo contou com a colaboração da equipe do #MUSEUdeMEMES da Universidade Federal Fluminense, coordenada por Viktor Chagas, maior estudioso de memes no Brasil, e apresenta 10 entrevistas com criadores brasileiros, como Gregório Duvivier e Malfeitona, que responderam, em vídeo, essa indagação existencial com liberdade e afeto. Aqui, o meme é entendido como forma fluida, mutante e bastarda – que habita os interstícios da linguagem, circula entre mídias e revela, no improviso, a imaginação crítica do nosso tempo.
“MEME: no Br@sil da memeficação” é uma produção da Patuá Produções, com patrocínio do Banco do Brasi e da BB Asset. Depois de Belo Horizonte, a exposição será apresentada no Rio de Janeiro (agosto a novembro de 2026).
Sobre os curadores
Clarissa Diniz é curadora, escritora e professora em arte com 20 anos de carreira. Professora da Escola de Belas Artes da UFRJ. Foi uma das primeiras curadoras brasileiras a incluir memes em exposições. Realizou curadorias em importantes instituições como no Museu de Arte do Rio, na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Artes de São Paulo – MASP. Ao longo de sua carreira, já realizou curadorias de exposições como: Contrapensamento selvagem (cocuradoria com Cayo Honorato, Orlando Maneschy e Paulo Herkenhoff. Instituto Itaú Cultural, SP); O abrigo e o terreno (cocuradoria com Paulo Herkenhoff. Museu de Arte do Rio – MAR, 2013); Ambiguações (Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2013); Todo mundo é, exceto quem não é – 13ª Bienal Naifs do Brasil (SESC Piracicaba, 2016 e Sesc Belezinho,2017); Dja Guata Porã – Rio de Janeiro Indígena (cocuradoria com Sandra Benites, Pablo Lafuente e José Ribamar Bessa. MAR, 2017); Rio do samba: resistência e reinvenção (cocuradoria com Evandro Salles, Marcelo Campos e Nei Lopes. MAR, 2018); À Nordeste (cocuradoria com Bitu Cassundé e Marcelo Campos. Sesc 24 de Maio, São Paulo, 2019); Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil (cocuradoria com Raphael Fonseca, Fernanda Pitta, Aldrin Figueiredo, Marcelo Campos, Divino Sobral e Paula Ramos. Sesc 24 de Maio, 2022) e Histórias Brasileiras (cocuradoria com Adriano Pedrosa, Lilia Schwarcz, Sandra Benites, Isabella Rjeille, Amanda Carneiro, André Mesquita, Guilherme Guifrida, Glacea Britto, dentre outros, MASP, 2022). Entre 2006 e 2015, foi editora da revista Tatuí, principal revista de crítica de arte brasileira, de viés experimental. Publicou inúmeros catálogos e livros.
Ismael Monticelli é artista multimídia. Sua pesquisa de doutorado, concluída em 2022, enfocou a relação entre arte, internet e redes sociais. Foi contemplado pelo programa Retomada Artes Visuais (2023) da Fundação Nacional de Artes – Funarte. Recebeu o 7º Prêmio Indústria Nacional Marcantonio Vilaça (2019), o mais importante prêmio para artistas em atuação no Brasil. Também foi um dos três artistas selecionados para a Bolsa ProHelvetia de Residência para Artistas Sul-Americanos, realizada na La Becque Résidence d’Artistes, La Tour-de-Peilz, Suíça (2019). Realizou residência no Institute of Contemporary Arts de Singapura, desenvolvendo um trabalho com parte da coleção da instituição. Participou da 14ª e da 10ª Bienal do Mercosul (2025 e 2015). Entre 2022 e 2023, seu trabalho foi destacado pelo The Guardian, pela Apollo Magazine e pela Ocula Magazine, durante sua participação na exposição Horror in the Modernist Block (curadoria de Melanie Pocock, Ikon Gallery, Birmingham, Reino Unido). Realizou diversas exposições individuais, como O Teatro do Terror (Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, 2025; Museu Nacional da República, Brasília, 2024); e O que sobrenada, sobrenada no caos (curadoria de Clarissa Diniz, Portas Vilaseca Galeria, Rio de Janeiro, 2022). Participou de diversas exposições coletivas no Brasil e em países como Reino Unido, Estados Unidos, Suíça e Singapura. Possui Doutorado em Arte e Cultura Contemporânea – Arte, Imagem e Escrita (UERJ, 2022), Mestrado em Artes Visuais – Processos de Criação e Poéticas do Cotidiano (UFPel, 2014) e Bacharelado em Artes Visuais (UFRGS, 2010).
Colaboração | Perfil de instagram New Memeseum
O @newmemeseum foi criado no final de julho de 2020 e conta com quase meio milhão de seguidores. Uma das principais motivações de sua criação foi o desejo de refletir, com humor e ironia, sobre os mecanismos adotados para sobreviver no/ao mundo da arte e, também, sobre os mecanismos que o mundo da arte nos impinge. O perfil realizou a ocupação virtual Combater ficção com ficção no projeto ofício:web do Sesc Pompéia, São Paulo, que ficou em cartaz de julho a agosto de 2021. Participou da terceira edição do programa Pivô Satélite, São Paulo, intitulada Sexo, Mentiras e Videotape, com curadoria de Raphael Fonseca, com a proposta Panorama Botijão da Arte Brasileira. Além disso, o trabalho do perfil já foi destacado pelos Jornais Folha de São Paulo e O Globo.
Circuito Liberdade
O CCBB BH é integrante do Circuito Liberdade, complexo cultural sob gestão da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), que reúne diversos espaços com as mais variadas formas de manifestação de arte e cultura em transversalidade com o turismo. Trabalhando em rede, as atividades dos equipamentos parceiros ao Circuito buscam desenvolvimento humano, cultural, turístico, social e econômico, com foco na economia criativa como mecanismo de geração de emprego e renda, além da democratização e ampliação do acesso da população às atividades propostas.
Serviço:
Exposição “MEME: no Br@sil da memeficação”
Período: 28 de março a 22 de junho de 2026
Horário: De quarta a segunda, das 10h às 22h
Local: Pátio e Galerias do 3º Andar – Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH)
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, Belo Horizonte – MG
Ingressos: Gratuitos, disponíveis pelo site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH
*Fábio Gomides é da Assessoria de Imprensa e Produção de Conteúdo

