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22-02-2026 às 10h00
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho*
O reencontro não terminou no abraço contido da conferência nem nas conversas atravessadas por fumaça e memórias. Ele encontrou continuidade concreta naquilo que os três haviam começado a erguer: a Universidade.
Cláudia surgira no imaginário daqueles homens como corpo soberano e pensamento indomável, mas ela trazia também a realidade das paredes, corredores e salas de aula.
A mistura de que a Universidade não é feita apenas de concreto e currículos, mas como a extensão do sonho revolucionário que não pôde ser realizado pelas armas. Se nos anos 60/70 tentaram mudar o Estado, enfrentando a brutalidade da repressão, nos anos 80/90 a aposta desloca-se: constroem um microcosmo de inteligência e liberdade. Não mais a tomada do poder, mas a invenção de um espaço onde o poder pudesse ser criticado, desmontado, reimaginado.
A Universidade surge, assim, como território físico e simbólico.
Parecia uma dessas instituições de interior ou de vanguarda onde a vida acadêmica e a vida privada se confundem inevitavelmente. Corredores de pedra, salas de portas sempre entreabertas, reuniões que avançam noite adentro. Era a “Aldeia” de onde Cláudia nunca quis sair. Ali todos se observam, todos sabem — ou pensam que sabem — da vida alheia. Os rumores circulam com a mesma velocidade que os artigos científicos.
Neste cenário, os escândalos afetivos de Cláudia ecoam com facilidade. Não porque sejam espetaculares, mas porque desafiam o pacto silencioso da respeitabilidade. E é aí que a figura do doutor Bolívar se impõe como contraponto: ele encarna a ordem institucional, o discurso ponderado, a estabilidade necessária para que o projeto não se dissolva. Tenta conter, com elegância, o que chama de excessos — ainda que saiba que boa parte da energia fundadora da Universidade venha justamente desse excesso.
Não por acaso, muitos passaram a chamá-la, meio em tom de ironia, meio em reconhecimento, de “A Unidade Cláudia”. A escola nascera da iniciativa e do entusiasmo dela, de sua capacidade de mobilizar, de incendiar debates, de convencer os indecisos. A própria Cláudia personificava a instituição. Ela era a experiência viva de uma escola que se queria nova — menos hierárquica, menos hipócrita, menos temerosa.
A construção dessa Universidade é indissociável das relações afetivas que a atravessam. O desejo não acontece à margem; ele pulsa junto com a instituição. Uma entrega apressada no intervalo do almoço, um encontro que começa em discussão teórica e termina em respiração ofegante — tudo isso ocorre enquanto a Universidade respira, cresce, se afirma. Não como vulgaridade, mas como metáfora: a instituição é um organismo vivo, movido por hormônios, ideias ousadas e pela necessidade urgente de reconstruir o humano depois da barbárie da ditadura.

É aí que os conflitos de geração e de ideais se tornam visíveis — e quase corporais. Josafá e seus antigos companheiros carregam a Universidade no pensamento, no mesmo sonho e com os mesmos heróis. Para eles, o projeto ainda guarda algo de épico, de romântico. Falam em legado, em memória, em coerência histórica.
Cláudia, ao contrário, traz a Universidade para o gesto prático. Sua pesquisa, sua didática, sua presença em sala revelam a firmeza e a segurança de quem sobreviveu ao pior e agora domina o discurso. Ela não mitifica o passado; transforma-o em método. Ensina com a autoridade de quem sabe que teoria sem corpo é abstração confortável.
E, no entanto, o contraste persiste: de um lado, a Universidade sonhada — quase sagrada, heroica, redentora; de outro, a Universidade real, onde a vida irrompe sem pedir licença. Enquanto colegas discutem políticas acadêmicas, há mãos que se aproximam demais, corpos que se roçam no espaço estreito de uma sala, o desejo que insiste em lembrar que ninguém é apenas função ou título.
O choque entre a sacralidade do projeto educativo e a profanidade inevitável da vida cotidiana não é acidente; é constitutivo. A Universidade que nasceu para libertar não pode fingir pureza. Ela carrega, nas suas fundações, a marca de homens e mulheres que atravessaram extremos — e que agora experimentam, com intensidade semelhante, a reconstrução.
O que começa a se delinear, porém, é uma tensão mais profunda. Se a Universidade é território de luta e desejo, até que ponto suportará que ambos caminhem lado a lado? E quando o desejo deixar de ser metáfora e se tornar problema institucional?
As fissuras ainda são discretas. Mas, já percorrem os corredores. E, como toda aldeia, a Universidade saberá — antes mesmo de admitir — que algo está prestes a exigir escolhas.
*Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas

