O carnaval e seus diversos sabores - créditos: divulgação
18-02-2026 às 16h00
Por Ana Amélia Rossiter*
Este ano fui, pela primeira vez, a uma festa privada de carnaval. A fantasia era obrigatória. Na prática, eu era uma das únicas pessoas fantasiadas.
Havia glitter. Algumas meias arrastão e hot pants. Mas não havia fantasia. Não havia o ridículo. Não havia Carnaval.
Era um evento qualquer com filtro temático aplicado por cima. Carnaval como estética. Não como experiência.
Ali entendi algo que me inquieta há tempos: Carnaval não é cenário. É pacto.
Carnaval acontece quando firmamos um acordo silencioso entre corpos. Um acordo de suspensão. Suspensão da seriedade, da performance profissional, da imagem bem construída, da beleza disciplinada. Um despir coletivo.
Eu me permito porque você se permite. É uma coragem compartilhada.
O Carnaval começa quando o gari vira rei, quando a pança vira caroço de abacate, quando o pai de família vira a Xuxa. Começa quando nos permitimos o deboche, a posse dos símbolos, mas também quando nos permitirmos estar feios, exagerados, desproporcionais. Quando aceitamos o risco (e o gozo) do ridículo.
E vamos todos juntos nessa – só não vai Jair.
Sem isso, o que resta é evento temático. Festa “sabor” carnaval.
O problema é que essa lógica não está restrita a festas privadas. Ela avança cada vez mais sobre a rua. Rua que vira palco… Palco que sobe…
O artista fica acima.
O povo vira público.
Eu adoro Marina Sena. Amo Anitta. Quero ver shows. A questão não é essa.
A questão é o eixo da festa.
Nós já assistimos esse fenômeno com os estádios de futebol. Eles deixaram de ser estádios e viraram arenas. Deixaram de ser território da torcida e passaram a ser produto corporativo. Naming rights. Setor premium. O jogo continua existindo. Mas algo mudou.
Quando o Carnaval passa a se organizar prioritariamente como espetáculo, ele desloca seu centro. O folião deixa de ser protagonista e vira plateia.
Salvador institucionalizou a corda. Quem compra o abadá participa. Quem não paga assiste da margem. Devemos mesmo transformar isso em modelo de Carnaval? Ou encará-lo como o alerta que é?
Quando uma corda separa corpos dentro da mesma rua, o Carnaval já mudou de natureza.
Há quase quinze anos passo os carnavais em Olinda. E Olinda me ensinou algo simples: o Carnaval é feito com e do corpo do folião.
É o sopro nos metais atravessando as ladeiras.
É o suor sob a fantasia de La Ursa e das máscaras de Papangus.
É o maracatu vibrando na pele de quem o carrega.
É o peso do tambor no ombro.
É o pulso ardendo de horas batendo couro sob o sol.
É o frevo repetido até os joelhos arderem.
Carnaval é som produzido por gente real. Cor em movimento. Desordem organizada por milhares de corpos que decidem brincar.
Um brinquedo que pesa uma tonelada.
As troças de Olinda carregam essa tonelada há mais de um século. Hoje disputam espaço com gradis, paredões privados e estruturas que transformam a rua em corredor controlado.
Quando a rua vira infraestrutura de evento, algo se rompe.
Em Belo Horizonte, uma renascença carnavalesca nascida da mobilização popular já vê a rua novamente se estreitar. O que surgiu como retomada espontânea do espaço público cresce e passa a ser enquadrado, cercado, patrocinado. E entram o poder público e os patrocinadores. Mas entram para concentrar recursos nos grandes nomes e nas estruturas de visibilidade. Os blocos que sustentaram a retomada começam a ser empurrados para a margem orçamentária e simbólica.
Para fora da corda.
Jacques Rancière escreveu sobre o espectador emancipado, defendendo que o espectador não é passivo. Ele interpreta, constrói sentido, participa intelectualmente da obra.
Concordo em parte. Mas Rancière nunca brincou um Carnaval.
Há um abismo entre interpretar um espetáculo e carregá-lo nas costas. Entre assistir a um bloco e ser o bloco. Entre ver o frevo e ter o frevo no pé.
Carnaval é obra encarnada. Coletivamente.
O que está em jogo não é apenas a forma da festa. É a posição do corpo (e do povo) dentro dela.
O Brasil tornou-se vitrine global. Megaeventos se multiplicam. Cidades se organizam para transmitir uma imagem exportável. A latinidade e, em especial, a brasilidade são uma commodity em alta. O risco é que o Carnaval, nessa engrenagem, deixe de ser expressão popular e se torne produto cultural globalmente disputado e indistinguível.
“Rock in Rio” Portugal.
O corpo do folião vira métrica. Número de público. Alcance de marca. Relatório de visibilidade.
Para o patrocinador, sua carne é lucro. Não é de Carnaval.
Recentemente vi um vídeo de um caboclo de lança caminhando sozinho por uma rua quase vazia. De longe, o som dos sinos e latões ecoava no silêncio.
A imagem era bela. Mas inquietante.
O que acontece quando a rua vira cenário e não território?
A festa continuará existindo. Terá brilho, estética,e transmissão ao vivo. Terá por certo glitter. Mas talvez não tenha matéria.
Não se trata de expulsar shows. Artistas têm espaço, calendário, arenas, turnês. Têm réveillons. Terão sempre Copacabana.
O Carnaval tem poucos dias. Um intervalo estreito entre domingo e quarta-feira de cinzas. Um rasgo breve no ano em que o povo toma a rua e a transforma no maior brinquedo do mundo.
Podemos proteger esse intervalo?
Podemos retirar as cordas do centro da festa?
Podemos repactuar esse pacto cindido?
O Carnaval é uma das raras experiências em que o povo não consome a festa.
Ele é a festa.
Se perdermos isso, perderemos mais do que uma tradição. Perderemos um modo de existir juntos.
O capital transforma tudo em produto. O Carnaval sempre foi experiência. Que ele continue sendo.
Que deixemos de produzir festas “sabor” carnaval e voltemos a brincar Carnaval.
*Ana Amélia Rossiter é historiadora

