Cleitinho, Kalil e Simões - créditos: divulgação
15-02-2026 às 16h08
Samuel Arruda*
O Carnaval de 2026 começou com samba, mas também com tensão política nos bastidores de Brasília e de Minas Gerais. Longe dos holofotes oficiais, lideranças nacionais e estaduais aproveitaram a visibilidade da festa para intensificar articulações eleitorais, medir forças com adversários e acionar a Justiça em disputas que misturam cultura e estratégia partidária.
No plano nacional, a principal controvérsia envolve o enredo da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que decidiu homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A iniciativa provocou reação imediata da oposição, especialmente do Partido Novo, que levou o caso ao Tribunal Superior Eleitoral sob a alegação de propaganda eleitoral antecipada. A Corte, no entanto, afastou a tese de censura prévia e manteve o desfile, decisão que nos bastidores foi interpretada por aliados do Planalto como uma vitória política em plena temporada pré-eleitoral. Paralelamente, representações também chegaram ao Tribunal de Contas da União questionando eventual uso de estrutura pública, o que ampliou o embate institucional.
No entorno do governo, interlocutores relatam que o episódio foi tratado como teste de narrativa para 2026. O Partido dos Trabalhadores avalia que a reação da oposição reforça a polarização e mobiliza sua base, enquanto adversários sustentam que o Carnaval não pode ser instrumentalizado politicamente. Ainda que oficialmente o foco seja a agenda administrativa, as conversas reservadas em Brasília giram em torno da consolidação de palanques estaduais e da formação de alianças que deem sustentação a uma eventual candidatura à reeleição.
Em Minas Gerais, o clima também é de pré-campanha permanente. O governador Romeu Zema mantém discurso público de cautela, mas aliados admitem que os movimentos para 2026 já estão em curso. A possibilidade de uma candidatura presidencial do chefe do Executivo mineiro reorganiza o tabuleiro estadual e intensifica negociações entre partidos de centro e de direita. O vice-governador Matheus Simões ampliou agendas políticas no interior e passou a dialogar com diferentes legendas, em articulações que buscam garantir governabilidade caso haja desincompatibilização do titular.
Nos bastidores da Assembleia Legislativa e entre lideranças municipais, a leitura é de que Minas volta a ocupar posição estratégica no cenário nacional. O estado, segundo maior colégio eleitoral do país, tende a ser decisivo tanto para o projeto do Palácio do Planalto quanto para candidaturas alternativas no campo da direita. A fragmentação desse campo político, aliada à busca por um nome competitivo na centro-esquerda mineira, tem estimulado encontros reservados e sondagens discretas durante o próprio Carnaval, quando prefeitos e deputados circulam por eventos regionais aproveitando a informalidade da folia para conversar sobre alianças.
Ao mesmo tempo, o governo estadual investe na promoção do Carnaval como política pública de turismo e geração de renda, reforçando a narrativa de eficiência administrativa. A estratégia combina valorização cultural com cálculo político, já que o fortalecimento da imagem de Minas como destino nacional ajuda a sustentar o discurso de gestão. Integrantes do Executivo reconhecem que a visibilidade da festa funciona como vitrine não apenas cultural, mas também eleitoral.
Entre sambas-enredo, desfiles e blocos de rua, a política brasileira mostra que não há recesso real. O Carnaval de 2026 expôs tensões institucionais, antecipou embates jurídicos e acelerou negociações partidárias que devem marcar o ano eleitoral. Se na avenida prevalece o brilho e a música, nos bastidores o ritmo é outro: estratégico, silencioso e cada vez mais intenso.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

