Constituição brasileira - créditos:
15-02-2026 às 12h16
Rogério Reis Devisate*
Acertadamente, Fernando Pessoa disse que tudo vale a pena se a alma não for pequena. Fê-lo em Mar Português, um pequeno poema – no tamanho, não na dimensão.
Vivemos tempo tão peculiar, que até parece que temos que reaprender a ser gente. As almas parecem ter se apequenado, para caber num mundo de valores que se encolhe.
Estamos perdendo um pouco da nossa humanidade e dos alicerces sobre os quais se ergueram a nossa civilização, a partir do momento em que temos permitido ajustes de ocasião e comemorações de vitórias tão pequenas que logo caem no esquecimento, porque não valeram o esforço da luta.
Temos nos importado pouco com as pessoas que têm sido levadas à guilhotina moderna, que é do tipo que não precisa da afiada lâmina que, no passado, na Revolução Francesa, cortou tantos pescoços e separou cabeças dos corpos, atingindo anônimos, o rei e a rainha de França e até um dos seus entusiastas mais conhecidos, Robespierre. A empatia vai ficando fora de moda. Quem se importa?
Por um lado, muitos nem precisariam ir à guilhotina, porque já têm as cabeças separadas dos corpos. Outros, ainda que as tenham no lugar, talvez não compreendam que o que mais importa das suas cabeças é o bom uso que poderiam fazer da massa cinzenta que carregam no seu interior, que não se guarda para uso posterior e nem melhora se não for utilizada.
Como disse Casimir Delavigne, há cerca de dois séculos, “os tolos, desde Adão, formam a maioria”. Somos, assim, guiados, pelo mundo, formando espécies de maiorias não silenciosas e opressoras das minorias, como se tivéssemos que concordar com qualquer coisa que decidam fazer, ainda que contrariem tantas espécies sedimentadas de bom senso, buriladas e lapidadas ao longo do tempo, da experiência, dos costumes e da amálgama social, harmônica e justa.
O equilíbrio vem sendo balançado por constantes puxadas de tapete, sob essa ou aquela máscara de superioridade, todas capazes de enganar até aos seus mais ferrenhos defensores, pois, no fim, o Frankestein que se construiu para realizar essa ou aquela tarefa irá fatalmente se achar mais forte do que é e atingir aos que o fizeram.
Cícero já dizia ser desejável que as armas cedessem lugar à toga e a sua representatividade de altivez, dignidade, imparcialidade e autoridade. Algo a distinguir os prestigiosos luminares dos comuns e tolos. Contudo… A insegurança jurídica e os terremotos que movimentam os alicerces da vida político-jurídica estão aí para todos – enxerguemos ou não.
Em vez de confiarmos que um dia será como o anterior, que o certo de ontem também nos acolherá amanhã, ficamos (como escreveu Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas) “igual a um gado que vem num pasto novo, e anda e fareja, reconhecendo tudo, mas depois tudo aceita e então recomeça a refeição”.
O nosso conformismo é tamanho, tão grande que não tem medida.
Aceitamos tudo, principalmente se concordamos com a ideologia que legitima até mesmo os maiores absurdos contra nós mesmos!
Temos sido capazes de ficar na primeira fila e aplaudir efusivamente até o que nos castiga.
Temos dourado a pílula, podre e fétida, que os salões da nobreza têm nos ofertado.
Temos aplaudido o que tememos e temido o que deveria nos confortar.
Estamos caminhando na prancha, desfilando felizes e confiantes, rumo a um mar cheio de famintos tubarões, aos quais parecemos já estar acostumados, pois temos sido vítimas deles também nos barcos e navios e cidades e palácios, afinal, somos apenas o povo, que sempre, com o seus impostos e sangue, sustentou os impérios, os reis, os exércitos e acreditou nas promessas para que lutássemos batalhas que não eram nossas e nos sujeitássemos aos piores sacrifícios – como cordeiros sendo imolados, felizes, em prol das divindades.
Contudo, a dourada mediocridade não dura para sempre, pois as estátuas são ocas e o ouro cativante está na casca fina. Qualquer rachadura nessa estrutura expõe mais do que se imagina e consertar peças tão frágeis costuma não dar certo, pois normalmente vazam valores inestimáveis. A imagem da Justiça tem sido atingida e isso é difícil de se consertar com lantejoulas e acessórios, pois o que interessa é a sua essência.
Tolstói sabia do que dizia quando analisava a alma humana e os jogos de poder, ao explicar que, quando conveniente, o poder é o resultado dos acontecimentos e que, quando a conveniência é outra, se diz que o poder produziu os acontecimentos.
Por aí se vê exemplo de jogos de palavras e como estas são armas perigosas. Valem menos as palavras nos momentos extremos, pois quando se trata de salvar cabeças, o que mais importa é o resultado.
O resto é inconformismo, que não tem consequências, a não ser o mau humor dos que não têm mordomias com que se consolar.
Por outro lado, a história não fica parada e, ainda que estejamos em tenebroso inverno de valores, caberá às flores da primavera romper o gelo e se firmar. Enquanto isso não ocorre, vemos coisas a nos envolver, nos sacudir, nos cobrir e nos calar. Muitas são palavras e ações de entristecer mentes sãs. São como nuvens de tempestade a encobrir o céu claro e transformar o meio-dia em cegante noite escura. Em tempos assim, a beleza e a alegria ficam encobertas. Estamos assim… Observamos coisas e ouvimos palavras que falam de mundos e realidades distintas. Soam como se fossemos os tolos a aplaudir qualquer coisa. Falam de campos elíseos e de belezas sem fim, de valores bonitos e de palavras que são verdadeiros sermões angelicais – que não coincidem com o que se vê ao nosso redor. Se houvesse luz, seria lindo poder ouvir tais palavras e, com a iluminação cristalina do sol a tudo revelar, teríamos a comunhão perfeita entre o dito e o mostrado.
Até as ruínas de Tróia demonstravam a sua grandeza, pois grande era. Entretanto, o oposto tem imperado por aí, quando a palavra perde o seu valor, a confiança erode e a beleza não se confirma.
Que tenhamos a maturidade de nos valorizar e de não desanimar ou nos deixar vencer.
Podem haver vencedores ou vencidos em quaisquer batalhas, desde que o derrotado não seja o povo no seu valor e importância. Por ora, o tempo presente parece estar de mãos dadas com o tempo passado e a repetir o que disse Hamlet, de Shakespeare: “Ai, mísera de mim, ter visto o que já vi, ver o que vejo agora”…
*Rogério Reis Devisate – currículo – ver hall de colunistas

