Créditos: Juliana Coutinho
15-02-2026 às 14h30
Ilder Miranda Costa*
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Fábio Porchat é “ator, diretor, dublador, produtor, roteirista, humorista e apresentador de televisão”, um dos criadores do Porta dos Fundos, “produtora de vídeos de comédia” e, recentemente, esteve no Flow Podcast.
Na entrevista, Porchat revelou o que pensa sobre “uma política que, agora, tem roubo”: – “Ufa, só estão roubando.” Situação que, segundo Porchat, “a gente aceita; a gente deixa ir acontecendo”, sendo que “noventa por cento é podre, podre: Senado, Congresso, STF – podre”.
Tudo isso pode ser encontrado no seguinte trecho da entrevista:
– “Ah, Fábio, você não vai falar do PT? Cara, eu já falei um monte do PT. Já falei um monte, só que acontece o seguinte: a gente saiu de um cara que tentou um golpe de Estado (provado, né, ele tá preso porque tentou um golpe de Estado) para uma política onde, agora, tem roubo. A gente já está assim: ‘Ufa, só estão roubando, não estão tentando voltar com a ditadura.’ O que é uma loucura. E o que eles fazem, esses políticos? Eles gostam que tudo seja farinha do mesmo saco. Porque, aí, você falar ‘ah, político é tudo ladrão’, quando tudo é tudo, tudo vira nada. Então, a gente aceita e a gente deixa ir acontecendo. E acho que esse é o grande problema. A gente tem alguns bons nomes, lá, no Congresso. Por isso que eu não digo que ‘é cem por cento’, mas noventa por cento é podre, podre: Senado, Congresso, STF – podre.”
Porchat, então, parou por um momento. E o estúdio ficou em silêncio.
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“Uma política que, agora, tem roubo.”
“Agora”, isto é, em 2026. Todavia, a cultura de escândalo remonta ao Mensalão (2004), o esquema que se transformou em políticas públicas: Petrolão (2014).
Sobre Mensalão, Lula disse o seguinte: “Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país. O PT foi criado justamente para fortalecer a ética na política e lutar ao lado do povo pobre e das camadas médias do nosso país. Eu não mudei e, tenho certeza, a mesma indignação que sinto é compartilhada pela grande maioria de todos aqueles que nos acompanharam nessa trajetória (…) eu não tenho nenhuma vergonha de dizer que nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas.”
Sobre Petrolão, o STF acordou que “a prisão do reclamante, Luiz Inácio Lula da Silva, até poder-se-ia chamar de um dos maiores erros judiciários da história do país. Mas, na verdade, foi muito pior. Tratou-se de uma armação fruto de um projeto de poder de determinados agentes públicos em seu objetivo de conquista do Estado por meios aparentemente legais, mas com métodos e ações contra legem. Digo sem medo de errar, foi o verdadeiro ovo da serpente dos ataques à democracia e às instituições que já se prenunciavam em ações e vozes desses agentes contra as instituições e ao próprio STF. Ovo esse chocado por autoridades que fizeram desvio de função, agindo em conluio para atingir instituições, autoridades, empresas e alvos específicos.”
Quanto ao presente (Aposentão), Porchat nada mais fez do que reacender a apuração promovida por Lula: “foi um assalto a aposentados, aposentadas e pensionistas deste país”; “eles [os fraudadores] não foram no cofre do INSS, foram no bolso do povo”, “dos aposentados e pensionistas brasileiros”.
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“Ufa, só estão roubando.”
Que alívio, estão apenas roubando. Que consolo, nada fazem além de roubar. “Estão”, “estão roubando”, ou seja, podem ser pegos em flagrante delito, hoje, agora, já.
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“Noventa por cento é podre, podre: senado, congresso, stf – podre.”
Há quinhentos e noventa e quatro congressistas; noventa por cento deles: quinhentos e trinta quatro.
No STF, dos onze, nove ministros.
Porchat, portanto, imagina um mar de podridão. Podridão moral, Podridão política, Podridão jurídica.
DA SUPOSTA CONVERSA ENTRE PROCHAT E NÃO SE SABE QUEM DO CONGRESSO OU DO STF
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Diante desses fatos e circunstâncias, alguém do Congresso ou do STF “ligou” para Porchat:
Meu caro, sua noção de roubo…
Eu sei, mas lembre-se de que eu disse que a gente aceita. A gente deixa ir acontecendo, em nome da ausência de um sistema descentralizado e inclusivo de produção de conhecimento.
Isso significaria uma sociedade livre e…
… e ninguém quer isso. Nada de espaço público onde a razão possa transformar qualquer perspectiva que aparecer.
Impossível, então, que estejamos…
É que me desafiam a falar do partido do Lula.
Sim, mas…
Eu sei; há, sempre, o risco de que eles questionem nossas crenças e de que não sejamos capazes de validar os dogmas.
Daí…
… que não vai ter mais como chamar o homem de dominador genocida, homofóbico asqueroso, opressor racista.
Só que…
Claro, sem provas; tudo narrativa.
Nós…
Estou cansado de saber: a verdade não se baseia em fatos.
Uma…
A verdade não se baseia em fatos.
Duas…
A verdade não se baseia em fatos.
Três.
Não ao culto à evidência! Viva o arbítrio!
Ótimo. Falta a gente ver que…
Claro, nenhuma tolerância à divergência. Aliás, morte ao dissidente.
Porque…
…porque, se metade do que ele disser for verdade, vem debate, o que não se pode admitir, sob pena de progresso moral coletivo.
Claro, vigilância! Nada de informação circulando por aí. É ir restringindo ou impedir de vez.
Exato, censura! Livre expressão de pensamento para quê? É proibir e pronto.
Isso se resolve com monopólio ideológico, pensamento único e pressão.
Consenso é consenso, nada de contraditório. E dogma é dogma: é aceitar o que se propaga como verdade absoluta e pronto.
Parece que sim. Chega a hora em que a coisa precisa ser imposta.
É simples: coerção. O cara pode até não acreditar, mas falar que concorda ele vai ter que falar.
Então, estamos conversados.

