Créditos: Divulgação
11-02-2026 às 08h05
Sérgio Augusto Vicente*
Em 1914, casavam-se Aurora de Jesus e Antenor Ferreira. Duas décadas depois, em 1937, Glória Ferreira, uma das filhas do casal, formalizava as núpcias com Joaquim Gonçalves.
Nas casas de minha mãe, em Simão Pereira, e de minha tia Helena, em Juiz de Fora, foram preservados partes dos enxovais de ambos os casamentos, verdadeiras relíquias que servem de vestígios materiais da minha ancestralidade materna e paterna. Sim, de ambos os lados, uma vez que meu pai e minha mãe eram primos de primeiro grau.



Alguns exemplares do enxoval de Aurora e Glória.
Créditos da imagem: Sérgio Augusto Vicente.
Nesses vestígios, a sofisticação e a rusticidade se entrelaçam como os fios minuciosamente trançados pelas mãos de minhas bisavó e avó. Contornos que denotam movimentos finos, cuidadosos, singelos e pacientes, feitos por mãos também acostumadas ao movimento da enxada e ao contato direto com a terra. Mãos que manipularam flores e torrões, sob a luz do sol escaldante e também sob sombras de frondosas árvores.
Debaixo de tetos de sapé, entre paredes de pau-a-pique e sobre chão de terra batida, à luz de lamparina, os olhos fixavam-se sobre as alvas linhas do tecido, contrastando-se com a escura cortina de fumaça expelida pela chama do querosene. Letras e flores ganhavam formas paulatinamente, entre um descanso e outro da labuta pesada. O traçado disforme das letras e das pétalas das flores denuncia a caligrafia forjada a martelo e palmatória. Dos monogramas desenhados com o desalinho da linha e com a pouca intimidade com as letras, emanava certo ar de nobreza/realeza do imaginário sertanejo. Casamento, sonho de princesa. Castelo de pensamentos em casebres cheirando a flores silvestres. Ideal de pureza simbolizado pela brancura reluzente dos tecidos. Tudo cuidadosamente fiado para o grande dia. Matéria bruta transformada por formosas prendas. Almas em estado de aurora, sonhos com tempos de glória. Futuro imaginado como os leves flocos de algodão dos quais originaram essas fronhas e lençóis. Mas as pedras não tardariam a surgir em tortuosos caminhos, recônditas taperas, formosos vales e alegres vargens.
A noite chegou quando a tarde ainda florescia. Tempos de lutos e lutas se abriram. Mãe e filha, viúvas, juntaram-se. Formaram, juntas, um mesmo lar: lar de viúvas, de provedoras, de Pães. No sítio da mãe e da avó abrigo encontraram. De terras alheias saíram. Para suas próprias terras voltaram. Lá, educaram filhos e netos. Dessa prole brotou Nair, herdeira dessa terra que, há 116 anos, pertence à mesma família. Uma longa história tecida nesse enxoval. Muitas memórias encadeadas como os retalhos dessa colcha confeccionada pela minha avó.

D. Nair com o enxoval da avó materna (Aurora) e da mãe (Glória). Créditos da imagem: Sérgio Augusto Vicente
* Sérgio Augusto Vicente é doutor, mestre, bacharel e licenciado em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Historiador, professor, escritor e curador. Trabalha na Fundação Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG). Publica textos acadêmicos na área de História e textos de divulgação histórica em periódicos de amplo alcance de público, assim como ensaios, crônicas, contos e prosas poéticas. Já publicou em diversos jornais e revistas. Atualmente, atua como colunista e editor de cultura do jornal Diário de Minas (Belo Horizonte – MG).

