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08-02-2026 às 10h13
Tito Guimarães Filho*
Bolívar Agustini não pertencia ao mundo das “células” ou dos bancos expropriados. Ele era o homem dos corredores de mármore e dos gabinetes com cheiro de encadernação em couro. Quando conheceu Cláudia, ela era uma exilada recém-retornada, uma mulher que ainda olhava por cima do ombro ao atravessar a rua, apesar da anistia.
Ele a viu pela primeira vez em um simpósio de saúde pública. Enquanto os outros debatiam estatísticas, Bolívar observava a maneira como ela segurava o microfone: os dedos brancos de tanta pressão, como se o objeto fosse a única coisa que a impedia de flutuar para longe.
— Você fala como quem ainda espera ser interrompida por um grito — disse ele a ela, no café após o evento.
Não foi um galanteio. Foi diagnóstico. Bolívar ofereceu a Cláudia algo que nem Josafá, com seu cuidado, nem Marcos, com sua paixão, poderiam oferecer: legitimidade.
Ele a cortejou com projetos de faculdades, com planos de carreira e com a proteção de seu sobrenome ilustre. Para Cláudia, Bolívar era o anestesista. Ele prometia transformar a dor da tortura em “experiência acadêmica”. Ele deu a ela uma mesa, um cargo e um anel de brilhantes que servia como uma algema de veludo, mantendo-a segura dentro das fronteiras da universidade que ele planejava dirigir.

Casar-se com Bolívar foi, para ela, o último ato de sua fuga. Ao lado dele, ela não precisava mais ser a Maria Berenice que tremia no banco de trás de um carro. Agora seria a Doutora Cláudia Agustini.
Bolívar sabia que não possuía a alma dela, mas possuía a sua agenda. Ele se contentava em ser o dono da moldura, mesmo sabendo que a pintura era caótica e pertencia a outros tempos. Ele entrava na vida dela como quem entra em um museu: para organizar o acervo, catalogar as perdas e garantir que nada saísse do lugar sob sua vigilância.
— Você é o meu porto — ela disse a ele na noite do casamento. — Não, Cláudia — ele respondeu, com a precisão fria que o caracterizava. — Eu sou a sua alfândega. É através de mim que você volta para o mundo.
Se Bolívar era o silêncio do mármore, Carlos é o ruído da carne. Ele não pede permissão para entrar na vida de Cláudia. Ele a invade através de uma fresta que o rigor acadêmico de Bolívar deixou aberta: o tédio da perfeição.
Aqui está o detalhamento desse primeiro encontro, onde a “Doutora Cláudia” volta a ser, perigosamente, apenas pele e urgência.
*Tito Guimarães Filho é jornalista, escritor e diretor de Redação do DM

