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04-02-2026 às 11h02
Fernando Neto*
O colapso do Grupo Master não é apenas um evento traumático para o sistema financeiro brasileiro. É, sobretudo, um campo de disputa silenciosa: entre perdas inevitáveis, escolhas arriscadas de gestão, construção de imagem e oportunidades que surgem justamente onde o discurso oficial prefere falar apenas em ruína. Crises financeiras sempre deixam destroços. O que diferencia uma crise banal de um episódio histórico é a forma como os acontecimentos e seus destroços são tratados. No caso do Master, o volume e a natureza dos ativos envolvidos — imóveis urbanos e rurais, andares corporativos, hotéis, fazendas, salas comerciais, propriedades de alto padrão — projetam uma sombra longa sobre o mercado imobiliário e de capitais. Não se trata apenas de balanços contaminados, mas de patrimônio real, físico, que permanecerá como um fantasma circulando o sistema por anos.
A liquidação extrajudicial desloca o centro do poder decisório para uma figura-chave: o liquidante nomeado pelo Banco Central. É ele quem passa a conduzir o destino desse acervo. E aqui reside um ponto raramente debatido com a franqueza necessária. A condução da liquidação pode beneficiar poucos — por meio de vendas concentradas, negociações opacas ou liquidações apressadas — ou pode ser orientada de modo mais difuso, permitindo acesso gradual, competitivo e transparente a esses ativos. Essa não é uma decisão técnica neutra; é uma escolha de governança.
O histórico do Grupo Master agrava o problema. O modelo de gestão que sustenta estruturas criadas para crescer rápido, captar agressivamente e “explodir” ao menor sinal de estresse, não produz ativos pensados para liquidez saudável. Produz ativos inflados, muitas vezes mal alocados, superavaliados ou juridicamente complexos. É razoável supor que parte significativa desse patrimônio já esteja, na prática, ilíquida, insolúvel e indissolúvel — não porque não tenha valor, mas porque perdeu o mercado disposto a pagar o preço originalmente atribuído, somado ao acumulo das dívidas compostas, sejam IPTU, condomínio, financiamento acumulado e por aí segue.
Esse cenário impõe um desafio concreto ao liquidante. Manter ativos parados significa corroer valor ao longo do tempo; vendê-los de forma precipitada pode cristalizar perdas desnecessárias. Entre um extremo e outro surge uma janela pouco explorada no debate público: a oportunidade para pequenos e médios investidores. Crises desse porte frequentemente “reprecificam” ativos de forma abrupta. O que antes era inacessível passa a ser negociável. Imóveis que jamais chegariam ao radar de investidores individuais podem surgir em leilões, cessões ou vendas diretas com descontos relevantes. Não se trata de romantizar a crise, mas de reconhecer uma dinâmica clássica de mercado: onde há destruição de valor concentrado, há redistribuição potencial para quem tem capital, informação e apetite por risco.
Isso não elimina o rastro de destruição. Ele existe e será profundo. A liquidação do Grupo Master deixará marcas institucionais, jurídicas e reputacionais no sistema financeiro e no mercado de capitais. Independentemente do desfecho judicial ou da atribuição final de responsabilidades, haverá perdas para investidores, impactos sobre o Fundo Garantidor de Créditos, tensões regulatórias e questionamentos sobre supervisão. Mas ignorar o outro lado da equação — o rearranjo de ativos, a reconfiguração de preços e a abertura de espaços antes fechados — é optar por uma leitura incompleta da crise.
O caos, no mercado, raramente é estéreo. Ele reorganiza forças, redefine vencedores e expõe escolhas que, em tempos normais, ficam ocultas sob a aparência de estabilidade.
No fim, o caso Master não será lembrado apenas pelo escândalo. Será lembrado pelas decisões tomadas durante a liquidação. E essas decisões dirão muito sobre que tipo de mercado financeiro o Brasil escolhe fortalecer: um sistema que concentra oportunidades nos mesmos de sempre ou um ambiente que, mesmo em meio aos escombros, permite alguma redistribuição de acesso, risco e retorno.
*Fernando Neto é Controlador do Grupo Atual B S/A

