Mineradora retoma suas atividades no Vale do Jequitinhonha - créditos: divulgação
02-02-2026 às 16h36
Samuel Arruda*
A mineradora Sigma Lithium anunciou a retomada de suas atividades de mineração no Vale do Jequitinhonha, nos municípios de Araçuaí e Itinga, após um período de interrupções marcado por questionamentos legais, ambientais e sociais. Em comunicado institucional, a empresa atribuiu o retorno ao trabalho intenso de suas equipes locais e ao alinhamento com setores financeiros e comerciais que atuam no mercado internacional, além do apoio de clientes e financiadores que mantiveram seus compromissos apesar das denúncias de irregularidades apontadas pelo MPF e MP-MG.
A nota também destacou o respaldo de órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Mineração, o Ministério de Minas e Energia e o Governo Federal, ressaltando o papel da mineração de lítio na geração de empregos e na movimentação econômica de uma região historicamente empobrecida. Segundo a própria empresa, cerca de 19 mil pessoas no Vale do Jequitinhonha seriam impactadas positivamente pela continuidade das operações, em um momento em que o lítio ocupa posição estratégica na transição energética global.
Apesar do discurso otimista, a retomada ocorre sob forte desconfiança de comunidades locais, movimentos sociais e órgãos de controle. Moradores que vivem no entorno das minas relatam que, desde o início das operações, convivem com poeira constante, ruídos intensos, vibrações provocadas por explosões, danos em residências e impactos diretos na saúde e no modo de vida tradicional. Há denúncias de que os benefícios econômicos prometidos não se refletem de forma proporcional no cotidiano das populações atingidas, enquanto os prejuízos ambientais e sociais permanecem concentrados nos territórios mais vulneráveis.
O Ministério Público Federal e o Ministério Público de Minas Gerais já se manifestaram em diferentes ocasiões sobre irregularidades no processo de implantação e operação da mineradora, incluindo questionamentos sobre o licenciamento ambiental, a segurança de estruturas de rejeitos e a ausência de consultas livres, prévias e informadas às comunidades potencialmente afetadas. As exigências feitas pelos órgãos envolvem desde a adoção de medidas mais rigorosas de controle ambiental até a reparação de danos e o fortalecimento do diálogo com a população local.
Embora a Sigma Lithium afirme ter alcançado, em 2025, um dos menores custos de produção do setor em nível global, o que lhe garantiria posição privilegiada no atual superciclo do lítio, críticos apontam que eficiência econômica não pode se sobrepor ao cumprimento das responsabilidades socioambientais. A narrativa do chamado “lítio verde” também é vista com ressalvas por especialistas, que alertam para o risco de se utilizar o discurso da sustentabilidade como estratégia de marketing, sem mudanças estruturais efetivas na relação da empresa com o território.
A volta das atividades minerárias reacende, assim, um debate antigo no Vale do Jequitinhonha: até que ponto a mineração representa desenvolvimento e para quem esse desenvolvimento de fato se concretiza. Para a população local, a expectativa é de que a retomada não signifique a repetição de práticas que aprofundam desigualdades e degradam o meio ambiente, mas que esteja condicionada ao cumprimento rigoroso das exigências impostas pelo MPF e pelo MP-MG, bem como à adoção real dos princípios de governança ambiental, transparência e respeito aos direitos das comunidades.
No Vale do Jequitinhonha, a mineração de lítio segue avançando, mas agora sob vigilância social redobrada e com a cobrança de que prosperidade econômica não seja construída à custa do meio ambiente e da dignidade de quem vive na região.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

