Igrejas de Ouro Preto MG - créditos:| Guignard
28-01-2026 às 14h00
J.D. Vital*
E aconteceu que na terceira sexta-feira de 2026, catorze dias após um esquadrão de helicópteros do presidente Donald Trump capturar, em pleno coração da Venezuela, o ditador Nicolás Maduro e levá-lo para Nova Iorque, os sinos de Ouro Preto começaram a dobrar. Um dobre de finados.
Já passava das 13 horas. Vila Rica refulge ao sol de janeiro. Em fila, os turistas aguardam sua vez à porta do restaurante Bené da Flauta, posicionado ladeira abaixo da rua São Francisco de Assis, à sombra da igreja do mesmo santo, uma das sete maravilhas arquitetônicas de origem portuguesa no mundo. Uma obra prima de Aleijadinho com pinturas de Ataíde.
Não há mais lugar no restaurante de apreciada cozinha mineira. Nem vagas para estacionamento por perto em todo o centro histórico. Com sorte, alguns visitantes conseguiram enfiar o carro em becos estreitos, as rodas invadindo as calçadas de pedra pela metade, não menos que a trinta ou quarenta minutos de caminhada. Morro acima.
Os turistas ocuparam todas as mesas, exceto uma, no salão principal, à janela que dá para as Lajes, com vistas para o paredão que evoca a arte de superar as perdas na vida. Ali estão, na saída para Mariana, a casa onde morou a poeta norte-americana Elizabeth Bishop, autora do poema A Arte de Perder; e, ao lado, a balaustrada de pedra em que o restaurador e pintor Jair Afonso Inácio se debruçou para morrer.
Do Mirante das Lajes, a paisagem de igrejas, montanhas e sobrados, pincelados por Alberto da Veiga Guignard, mitigou o sofrimento de Elizabeth em dias de depressão ao término do caso de amor com a arquiteta, paisagista e urbanista carioca Lota Macedo Soares. E deu a Jair, como viático, o consolo de morrer contemplando o paraíso que ajudou a preservar, em via de perder.
A mesa do Bené da Flauta, cercada por vozerio e bermudas de grife paulistas, fora reservada para Dom Barroso. Aos 97 anos de idade, o bispo emérito de Oliveira, Dom Francisco Barroso Filho, recebe o carinho dos conterrâneos em trânsito pelo restaurante. Um garçom perguntou-lhe de quem os sinos anunciavam a morte. O bispo, nascido e criado na cidade, conserva a memória em grande forma. Reconhece seu rebanho por nome, sobrenome, avós e bisavós.
Ele desconhecia a razão do toque fúnebre. Certamente, não era um protesto contra a intervenção de Donald Trump em Caracas. Não se tratava de bisar, com bravura e hostilidade, os sinais de descontentamento com que os antigos moradores de Vila Rica recepcionaram a visita do imperador Dom Pedro I nas primeiras quinzenas de 1831.
Em declínio de popularidade, o monarca não desfrutava mais da idolatria eufórica dos brasileiros em festa pela independência. O governo descambara para um regime autoritário e despótico. A província mineira, a mais rica do império, não aprovava o comportamento do soberano. Os historiadores atribuem à perda do apoio político de Minas como uma das causas de sua abdicação em 7 de abril do mesmo ano.
Dom Barroso não sabia quem morreu. Mas tinha uma certeza: os badalos procediam da igreja das Mercês de Baixo e Perdões, construída a partir de 1743 pela Irmandade de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos e Crioulos. Por 26 anos, de 1958 a 1984, padre Francisco Barroso Filho foi pároco da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, uma das mais antigas paróquias de Minas Gerais, criada em 1705. As igrejas de Mercês de Baixo e São Francisco de Assis pertencem à sua jurisdição.
Com tantas sineiras espalhadas pelos morros, nem sempre a população advinha por quem os toques choram. Uma das últimas vezes em que a notícia viajou solta na boca do povo ocorrera em 30 de outubro de 2025, quando morreu dona Zenith Alves Inácio, a Zinha.
O prefeito Angelo Oswaldo lamentou, em nota oficial, “o falecimento da viúva do famoso restaurador ouro-pretano Jair Afonso Inácio, um dos grandes nomes da restauração no Brasil”. Zinha trocara Ouro Preto pelo povoado de Santo Antônio do Leite, no distrito de Cachoeira do Campo, vizinha do ex-ministro e grande amigo do presidente Lula, Walfrido dos Mares Guia.
Estive na casa dela. Na época, eu pensava em escrever sobre seu marido que eu entrevistara em 1974, como repórter da sucursal do jornal O GLOBO em Belo Horizonte.
A pedido do pintor Estêvão Souza, o dono do mais importante grupo de comunicação do país, Roberto Marinho, determinou a ida de um repórter ao encontro de Jair Inácio. Lembro-me das suas feições. Um homem negro, baixinho. Usava boina como se quisesse disfarçar a tristeza na cara de menino levado. Falava pouco.
“Posso dizer que não há ninguém melhor do que eu para conhecer o Jair Inácio” – disse Dom Barroso. Ele o conheceu ainda criança. Jair nasceu em 2 de agosto de 1932; Dom Barroso, quatro anos antes, em 8 de outubro de 1928. “Fui colega de quarto ano no grupo escolar de dois irmãos dele, o Célio e o Zé Flaviano”. Jair era o caçula. De família muito pobre, “pobrezinha”. Zé Flaviano trabalhava como bombeiro na prefeitura.
Jair empregou-se como auxiliar de sapateiro, supervisionado pelo irmão mais velho. Por conta própria, estudava inglês e alemão, à noite. Ingressou no IPHAN, ainda adolescente. Destacou-se pelo talento. Autodidata, não teve acesso à universidade. Em 1961 ganhou da Fundação Rockfeller uma bolsa de estudo na Bélgica para estudar restauração de obras de arte. No ano seguinte, voltou ao Brasil consagrado como restaurador de prestígio, elogiado por Paulo B. Coremans, fundador e diretor do Institut Royal de Patrimoine Artistique, em Bruxelas, como “aluno esplêndido”. O sol brilhava à frente do gênio mineiro.
Pioneiro em estudos de conservação e restauração de obras de arte, o instituto belga contava com laboratórios avançados e profissionais de renome mundial. Jair Inácio participou, como estagiário, da restauração da obra Descida da Cruz, imagem central do painel, de três partes, em óleo sobre tela, pintado entre 1612 e 1614 pelo artista flamenco Pierre Paul Rubens na catedral de Antuérpia.
Jair Inácio deixou suas digitais pelas principais cidades coloniais de Minas Gerais, como Mariana, Sabará, Caeté, São João del-Rei, Santa Bárbara, Prados e Baependi. Ouro Preto foi seu paraíso terrestre. Trabalhou nas principais igrejas, com engenho e arte. Ganhou o aplauso nacional quando remontou e restaurou o teto da sacristia da Matriz do Pilar, derrubado pelas chuvas de março de 1961 e por falta de conservação. O desabamento chocou o Brasil.
Ouro Preto foi também seu inferno. A falta de reconhecimento profissional e financeiro minou, aos poucos, sua confiança no futuro. Entregou-se ao alcoolismo. A embriaguez cotidiana arruinou sua personalidade e sua reputação. Na FAOP – Fundação de Arte de Ouro Preto, onde lecionava e nas igrejas em que praticava a arte da restauração, Jair perdeu a admiração dos alunos e dos amigos. No ateliê, montado nas Lajes, foram desaparecendo os clientes que lhe encomendavam perícias técnicas, autenticações de quadros e de peças da arte barroca nacional.
Zinha tentava socorrê-lo. Em 1972, com o auxílio da FAOP, internou-o no Hospital Santa Maria em Belo Horizonte. Em vão. A pesquisadora Isabel Cristina Nóbrega, na dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Artes da Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, registrou o depoimento dela sobre o marido:
“Ele, às vezes, passava quinze, vinte dias sem beber nada, saudável, falando baixinho, lendo; de repente, um dia ele levantava e não ia à cozinha ler a revista. Depois dessa fase bonita que ele passava, saía sem se despedir. Eu já sabia que na volta, no almoço, ele já vinha ‘tonto’. E assim foram esses anos todos.”
Para ajudar nas despesas, Zinha aceitou trabalhar como doméstica na residência de Elizabeth Bishop, localizada na rua Conselheiro Quintiliano Ramos. A americana pagava bem. Ao casarão do século XVII, que comprou e por dois anos reformara no final da década de 1960, Elizabeth deu o nome de Casa Mariana, em louvor a Marianne Moore, sua musa e amiga, pioneira na poesia modernista dos Estados Unidos.
Zinha cuidava da casa. Não falava inglês, mas se entendia bem com dona Elizabetchi, na grafia da pronúncia de seu nome pelos mineiros, conforme explicava em carta aos amigos dos Estados Unidos. Parecia que a senhora do casarão colonial atravessava um período de depressão aguda, acentuada após o suicídio de Lota Macedo Soares. Tentava ajudá-la.
Elizabeth bebia. Zinha entendia do riscado. Como Jair, a intelectual solitária apresentava sinais de dependência alcoólica. “Às vezes, a patroa trancava-se no quarto. Não saía para se alimentar, nem para ir ao banheiro: fazia as necessidades na cama” – disse. Uma tristeza só. Sem cura.
Segundo Dom Barroso, Jair Inácio deu muito trabalho à Zinha. A mulher precisou controlar o dinheiro que o artista recebia. No início, o negócio ia tão bem que foi necessária a contratação de auxiliares para dar conta dos serviços no ateliê nas Lajes. “Era um artista sensível e talentoso, que tinha tudo para crescer, ficar famoso. Mas, a cachaça acabou com ele”.
O bispo conserva em sua residência, da rua dos Paulistas, um quadro pintado pelo amigo. “Fui visitá-lo na casa onde a família morava, na rua do Barão. Ele era bom pintor também. Fiz a encomenda de um quadro. Eu falei: Jair, eu quero um quadro seu que pegue a matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Mostrei-lhe o ângulo: a matriz no fundo da rua e a igreja de Santa Efigênia lá em cima”.
Com pressa para receber o pagamento, Jair Inácio convenceu Dom Barroso a receber um quadro encomendado pelo engenheiro Jacinto Godoy, que mudara para a Bahia e nunca foi busca-lo. A pintura trazia o mesmo enquadramento. A única diferença era o foco na casa dos pais. “O senhor é amigo da família, entrega a ele para mim” – pediu, exigindo pagamento imediato. “Já de saída, percebi que faltava a assinatura do autor. Ele já chumbado, nem pediu licença. Meteu a mão no bolso do meu paletó, pegou uma caneta esferográfica azul e assinou”. Mais tarde, o bispo descobriu que o quadro estava inacabado, faltando traços e pinceladas.
Da janela do Bené da Flauta, escuto o lamento das Mercês, em despedida de um morador. Os sinos do campanário dão moldura ao cantochão do ator Antonio Abujamra, declamando, monódico, na Internet, o poema de Elizabeth Bishop:
A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio da mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder é um mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por mais que pareça muito sério.
Dom Barroso comove-se com o drama pessoal de Elizabeth Bishop, atormentada desde a infância por perdas dolorosas: do pai, antes dela completar um ano de idade, e da mãe, internada em um hospital psiquiátrico, quando a menina tinha cinco anos. A poeta não era católica. Vivia enclausurada em sua cartuxa de Ouro Preto, sem ofender os pudores mineiros.
Mas, provavelmente, os dois se esbarraram em eventos culturais, quando o padre Francisco Barroso Filho fundou em 1968 o Museu do Aleijadinho, em homenagem ao paroquiano mais ilustre. Sua paroquiana arredia, considerada uma das mais brilhantes poetas de língua inglesa, curtia o patrimônio cultural de Minas. A eremita gringa regressou à terra natal depois de viver 15 anos no Brasil. Morreu em 1979, aos 68 anos de idade, em Boston, Massachusetts.
Dom Barroso acompanhou o sofrimento de Zinha e Jair Inácio. Estimava o casal. Jair seguia pela rua Quintiliano Ramos, no início da tarde. Estava embriagado. Amparou o peito no paredão das Lajes, ao lado do sobrado da poeta. Os cotovelos apoiados no muro de pedras. Os olhos pastoreando o casario do bairro Antônio Dias, a Praça Tiradentes, o Museu da Inconfidência, a igreja de São Francisco de Assis, onde se refugiava durante meses, metido em restaurações.
Como ele não se movesse, estranharam o comportamento, a ausência da gesticulação agitada que exibia em praça pública. Foram ver. Jair Afonso Inácio, o restaurador de Ouro Preto, estava morto. Era 3 de agosto de 1982, um dia após completar 50 anos de idade.
O empresário Philippe Passos, proprietário do restaurante, aproxima-se da nossa mesa lateral. Quer mostrar-nos um quadro na parede do fundo do salão. Foi pintado por Jair Inácio. É um retrato do Bené da Flauta, uma personagem popular que desfilava nas ladeiras soprando uma flauta de bambu, nas décadas de 1960 e 70.
O escritor Paulo Rogério Ayres Lage, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, lembra-se dele correndo pela Praça Tiradentes, divertindo os turistas. Bené da Flauta bebia muito, segundo Ayres Lage, biógrafo de Antônio José Vieira de Carvalho, “Cirurgião-mor do Regimento de Cavalaria Regular da Capitania de Minas Gerais” e “primeiro professor de anatomia, cirurgia e arte obstetrícia do Brasil no Hospital Real Militar de Vila Rica”.
“Bené da Flauta era um frasista, com tiradas da sabedoria mineira”, conta o jornalista Mauro Werkema, ex-diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN em Ouro Preto, autor da obra “História, arte e sonho na formação de Minas”. Certa vez, perguntado se achava bonita a decoração natalina da prefeitura, respondeu: “ora, são essas pequenas inutilidades que deixam a gente deverasmente apreciado”.
Perguntei a Dom Barroso se ele conseguia explicar os mistérios da cidade de Aleijadinho, que maltrata e glorifica os gênios locais, caçoando de alguns e convertendo outros em alcoólatras desesperançados.
O velho bispo, com bom humor, arredou da frente os estudos da psiquiatria e os dogmas da teologia, e apenas falou:
“Aqui em Ouro Preto dizem que só os sinos das igrejas não bebem. Porque estão de boca para baixo”.
J.D. Vital é jornalista e escritor, membro da Academia Marianense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e da Academia Mineira de Letras.


