Créditos: Divulgação
28-01-2026 às 08h22
Alberto Sena*
De vez em quando vou ao Centro de Belo Horizonte (MG) e aproveito para fazer o percurso de casa até lá, a pé. E de novo ousei passar pela Rua Goiás, na altura do número 36, onde funcionava a Redação do jornal Estado de Minas.
Olhei para o prédio e quem nunca soube o que funcionou ali nem imagina a quantidade de histórias que aquelas paredes dos dois andares ainda guardam porque nelas estão impregnadas.
Fui andando e não me contive, aproximei de Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade que ali estavam a contemplar a Praça Alberto Deodato e sem a permissão deles saquei algumas fotos e aproveitei da oportunidade para conversar com os dois.

Pensei com as minhas duas mangas de camisa: ainda bem, oh! Nava e Drummond, que estão aí plantados em bronze diante de onde era o cine Metrópole, hoje uma agência bancária. Digo ainda bem porque se tivessem vida e pudessem andar pelas ruas do Centro de BH, ficariam decepcionados com o quadro social.
Pedro e Drummond, ambos veriam logo abaixo de onde estão, mas na Rua da Bahia, há uma fileira de seres humanos, como nós mesmos, estirados na calçada, situação que se vem alastrando por toda parte do nosso mundo capitalista, e por ser capitalista, só pensa no dinheiro.
Dirigi-me especialmente ao poeta Drummond, quando disse a ele que a sua poesia seria outra, completamente diferente, mesmo porque os tempos são os mesmos mas o mundo é outro; podia ser melhorado, mas, no entanto, estão piorados.
E o que é mais grave, ô Nava, se fizer uma leitura da realidade, tanto aqui como no Brasil e lá fora, garanto que a essa altura a sua reação seria de se refugiar em algum recanto de Juiz de Fora, terra do irmão de fé e amigo professor Paulo Roberto Cardoso, porque os ares estão pesados.
Não saberia imaginar qual seria a sua reação, Drummond, mas posso imaginar com base no poema “Triste Horizonte”, que escreveu depois de saber que a Minerações Brasileiras Reunidas (MBR) estava querendo destruir o frontispício de BH, a Serra do Curral.
O seu “Baú de Ossos” teria muito mais ossos, Nava, se fosse escrito hoje e é escrito por nós, cada um a seu modo, diante de uma realidade na qual os pedidos de socorro são em uníssono, mas não conseguem alcançar os ouvidos moucos das autoridades, embora roucos de tanto ouvir.
*Alberto Sena é Jornalista

