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27-01-2026 às 09h00
Rodrigo Marzano Antunes Miranda*
Uma análise histórica e conceitual das operações policiais no Rio de Janeiro revela como discursos oficiais e midiáticos transformam sistematicamente chacinas em iniciativas de segurança pública, utilizando linguagem eufemística para legitimar o que organizações de direitos humanos denunciam como execuções sumárias contra populações periféricas.
A banalização da violência estatal
O conceito da “banalidade do mal”, desenvolvido por Hannah Arendt, encontra expressão particular nas favelas cariocas, onde operações policiais letais são destituídas de sua carga moral e transformadas em procedimentos administrativos rotineiros. A militarização da segurança pública criou um sistema em que a execução se dissocia da reflexão ética, permitindo que a violência extrema seja aceita como política de Estado.
As favelas funcionam como “territórios de exceção”, onde direitos constitucionais são suspensos em nome da segurança pública. Essa geografia da morte divide a cidade entre áreas em que direitos são respeitados e zonas onde a violência estatal é normalizada, criando uma hierarquia de vidas que determina quem pode viver e quem deve morrer.
Linguagem eufemística e guerra ao crime
A análise de documentos oficiais e cobertura midiática das últimas duas décadas revela padrões consistentes na descrição de operações letais. Termos como “operação”, “confronto”, “suspeitos” e “pacificação” são sistematicamente utilizados para ocultar a natureza violenta das ações policiais. O programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implementado entre 2008 e 2018, exemplifica essa inversão semântica, visto que a palavra “pacificação” sugere consenso e tranquilidade, porém, na realidade resultou em uma ocupação militar permanente de territórios civis, com altos índices de violência policial e violação de direitos fundamentais.
Racismo estrutural e necropolítica
A implementação de projetos de limpeza social no Rio de Janeiro depende da construção de legitimação social que transcende círculos políticos restritos. O conceito de “necropolítica”, o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer, encontra expressão através da racialização da violência policial, em que marcadores raciais e sociais funcionam como sentenças de morte sumárias. Jovens negros e pobres são sistematicamente categorizados como “suspeitos” independentemente de seu envolvimento com atividades criminosas, criando uma categoria social cuja eliminação é considerada legítima pela sociedade.
O papel da mídia na legitimação
A cobertura midiática das operações policiais atua como aparelho ideológico fundamental para a normalização de chacinas. Através da reprodução acrítica de versões oficiais e do silenciamento de vozes dissonantes, veículos de comunicação transformam sistematicamente massacres em “operações bem-sucedidas”. A análise revela padrões consistentes: privilegiamento de fontes oficiais, utilização de linguagem eufemística, silenciamento de vítimas e testemunhas, e construção de narrativas que justificam a violência através da demonização das vítimas.
Instrumentalização religiosa e política
O crescimento das igrejas neopentecostais nas favelas apresenta dimensão complexa na legitimação da violência estatal. A Teologia da Prosperidade estabelece correlação entre bênção divina e sucesso material, criando um framework ideológico que justifica desigualdades sociais e apresenta a pobreza como consequência de afastamento do divino. A construção teológica do “bandido” como agente demoníaco facilita a aceitação da violência policial como instrumento divino de purificação, transformando chacinas em atos de fé em que questionar as operações equivale a questionar a autoridade divina.
Ambições presidenciais e marketing da morte
A trajetória do governador Cláudio Castro revela estratégia sistemática de instrumentalização da violência policial como plataforma para ambições presidenciais. Cada operação letal é contabilizada como evidência de capacidade de liderança, transformando vidas humanas em estatísticas eleitorais. A coordenação entre operações policiais e estratégias de comunicação revela planejamento que prioriza impacto midiático sobre resultados efetivos de segurança pública, utilizando morte como matéria-prima para campanha política permanente.
Casos emblemáticos
A Chacina de Vigário Geral, que resultou em 21 mortes, estabeleceu padrões discursivos que se repetem até hoje. A operação foi apresentada como resposta legítima à morte de policiais, utilizando narrativa de vingança que justificava violência extrema contra moradores. A operação no Complexo do Jacarezinho (2021), com 28 mortes, representa escalada significativa na violência policial, sendo apresentada como “maior operação da história” e “golpe decisivo contra o crime organizado”. A magnitude da violência foi justificada através de narrativas de necessidade estratégica e eficiência operacional.
Resistência e contranarrativas
O surgimento de mídias comunitárias criou novas possibilidades de resistência às narrativas oficiais. Organizações como Coletivo Papo Reto e Voz das Comunidades documentam violações em tempo real, criando arquivos de evidências que contradizem versões oficiais e humanizam as vítimas da violência policial. Organizações de direitos humanos nacionais e internacionais têm desempenhado papel fundamental na denúncia da violência policial, questionando narrativas oficiais e mantendo visibilidade internacional sobre a situação dos direitos humanos no Rio de Janeiro.
Conclusões e alertas
A análise revela que a prevenção efetiva da violência estatal exige não apenas vigilância contra manifestações explícitas de autoritarismo, mas também atenção aos processos graduais através dos quais linguagens aparentemente neutras de segurança pública podem preparar terreno para a violência extrema. O reconhecimento da limpeza social como forma contemporânea de genocídio urbano representa passo fundamental para o desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção e responsabilização.
A experiência carioca oferece lições importantes sobre como sociedades democráticas podem implementar políticas de extermínio mantendo aparências de legalidade e legitimidade. A persistência desses mecanismos no contexto carioca demonstra a necessidade de vigilância constante contra a banalização de discursos que desumanizam populações específicas, constituindo alerta para outras cidades que enfrentam desafios similares de desigualdade urbana e violência estatal.
*Rodrigo Marzano é Diretor da Escola de Contas e Capacitação Professor Pedro Aleixo, vinculada ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), desde fevereiro de 2025, o Professor Rodrigo Marzano Antunes Miranda é doutor em Cidadania, Direitos Humanos, Ética e Política da Faculdade de Filosofia da Universidade de Barcelona-UB (2025), mestre em Direito pela UFMG (2019), especializado em Formação Política (lato sensu) pela PUC-RJ (2007) e graduado em Filosofia (bacharel e licenciado) pela PUC-MG (2005). Ele é membro dos seguintes grupos de pesquisa: Grupo de Pesquisa dos Seminários Hegelianos (UFMG); Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos Raul Soares (UFMG); Grupo Internacional de Pesquisa em Cultura, História e Estado (UFMG-UB); Grupo Permanente de Pesquisa em Teoria, Filosofia e Ciências do Estado (Escola de Contas – TCEMG); Grupo Permanente de Pesquisa em Inteligência Artificial (Escola de Contas – TCEMG); e Grupo de Pesquisa em Regimes Próprios de Previdência Social em parceria com a OAB/MG (Escola de Contas – TCEMG). Além disso, é sócio efetivo colaborador da Sociedade Hegel Brasileira, membro da Sociedade dos Amigos da Marinha em Minas Gerais (SOAMAR-MG) e assessor do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara.
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