Brasil real - créditos: divulgação
25-01-2026 às 12h18
Alice Castelani de Oliveira*
No Brasil contemporâneo, carências estruturais em setores essenciais para o desenvolvimento nacional e uma desigualdade profunda definem uma realidade dura, que impõe um cotidiano de desafios aos brasileiros. No entanto, o debate político que deveria refletir e enfrentar essas mazelas se move na direção oposta, esvaziando-se em pautas desconectadas da urgência nacional, de modo que a cena pública, longe de ser a arena para as grandes questões nacionais, converte-se em palco de polêmicas efêmeras e cultos à personalidade.
Esse fenômeno foi exemplificado em dois episódios recentes. No dia 19 de janeiro, o Deputado Federal Nikolas Ferreira (PL-MG) iniciou uma caminhada em protesto contra o que classifica como arbitrariedades do Judiciário, citando a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e os presos em função dos protestos ocorridos no dia 8 de janeiro de 2023. O evento, contudo, rapidamente assumiu contornos de espetáculo, reunindo cantores, influencers, pastores e políticos em uma fusão de marketing pessoal e proselitismo religioso. Paralelamente, ainda ecoa a polêmica gerada no fim do ano de 2025 pela campanha publicitária da marca Havaianas, estrelada pela atriz Fernanda Torres. O trocadilho usado por ela – começar o ano de 2026 não com o pé direito, mas com os dois pés – tornou-se motivo de intensa disputa política nas redes sociais, consumindo dias de atenção da mídia e do público.
Em contraste com a superficialidade do debate, os indicadores de desenvolvimento revelam um quadro de estagnação e urgência, como revelam os índices: cerca de 40 milhões de brasileiros sobrevivem na informalidade e o país conta com 9,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais analfabetas (IBGE, 2025), enquanto 27% da população em idade ativa é considerada analfabeta funcional (Inaf, 2024). Na saúde, a precariedade também é flagrante, com 34% da população sem acesso sequer à atenção básica (IEPS, 2022), o primeiro degrau para um sistema sanitário eficaz. O cenário de infraestrutura repete o atraso. Estudos da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) apontam a necessidade de aplicar anualmente 4% do PIB (cerca de R$ 500 bilhões) para sanar os déficits do setor. A realidade, porém, deve ficar muito aquém: as projeções para o corrente ano não ultrapassam R$ 300 bilhões, aprofundando o abismo entre o necessário e o realizado e mantendo o país em uma trajetória de subinvestimento crônico.
Esse cenário consolida a sensação de um “Brasil, o eterno país do futuro”, eternamente promissor mas nunca realizado. A distância entre a gravidade dos problemas estruturais e o conteúdo do debate político sugere um abandono por parte da classe dirigente, que mantém atual questões levantadas por Darcy Ribeiro em 1995, como: “Até quando este país continuará sem seu projeto próprio de desenvolvimento autônomo e autossustentável?” (O povo brasileiro). Observamos, portanto, que os fatores que determinam a competitividade da economia, a dignidade do trabalho, a eficácia da saúde e a qualidade da educação são relegadas a um segundo plano, enquanto a cena pública é ocupada por eventos espetaculares e polêmicas midiáticas de curta duração.
Nesse contexto, hoje, o desafio que se impõe ao eleitorado e às instituições é recentralizar o foco. O futuro do país não será decidido em caminhadas ou em brigas sobre campanhas publicitárias, mas na capacidade de retomar um projeto nacional de desenvolvimento que enfrente, com seriedade e recursos, os déficits históricos que ainda condenam milhões de brasileiros a uma vida de oportunidades limitadas. Enquanto a política se esvaziar de substância, o futuro continuará sendo adiado.
*Alice Castelani de Oliveira: Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestra em Segurança Internacional e Defesa pela Escola Superior de Guerra (ESG) e bacharel em Ciências do Estado pela UFMG. Hoje, é membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED) e integrante dos grupos de pesquisa: Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP); Grupo de Estudos Estratégicos Raul Soares; Global IR and Brazil BRaS; Grupo Permanente de Pesquisa em Teoria, Filosofia e Ciências do Estado (Escola de Contas/TCEMG); Grupo Permanente de Pesquisa em Inteligência Artificial (Escola de Contas/TCEMG); e Rede Interinstitucional de Pesquisa em Instituições Internacionais (RIPPERP). Contato: alicecastelani@gmail.com

