Situação que inspira performance - créditos: divulgação
24-01-2026 às 10h06
Giovana Devisate*
Chega a ser enjoativo o tanto que lemos sobre performance hoje em dia nas redes sociais. Explorei performances artísticas no meu TCC da faculdade de História da Arte e me vi um pouco confusa quando essa palavra, que já existia tanto no campo artístico como no campo dos esportes, das tecnologias, carros e etc, passou a ser amplamente usada para falar de comportamentos sociais.
Renato Cohen diz que “a performance é antes de tudo uma expressão cênica” e que um quadro exibido para uma plateia é só um quadro, mas no momento em que vemos alguém pintando esse quadro, ao vivo, o acontecimento já poderia ser caracterizado e performance artística. A partir disso, podemos entender também que a performance depende da presença do público para ser caracterizada.
Recentemente, vi um vídeo da Lílian Farrish no qual ela dizia que a espiritualidade virou performance. Como prova, ela fala da Aline Campos, que se mostrou “performaticamente espiritualizada” e foi a primeira eliminada da edição atual do Big Brother Brasil.
No decorrer do vídeo, para além de trechos que mostram falas da Aline dentro da casa, Lilian apresenta, em diálogo com o tema do vídeo, a obra TV Buda, do artista Nam June Paik. Na videoescultura, de 1974, a estátua do Buda assiste a sua própria imagem em uma tela de TV, que reproduz exatamente a imagem adiante, como se o Buda estivesse sendo filmado, transmitindo a sua própria imagem meditando.
Nos dias atuais, isso é completamente possível. Lives, vídeos, publicações incansáveis onde nos vemos, nos postamos, nos comunicamos com a câmera e, para além disso, publicamos o que fazemos, transformando a nossa rotina, a nossa vida, a nossa dinâmica familiar, em conteúdo. É super possível fazer uma transmissão ao vivo de um momento tão íntimo e pessoal como o de uma meditação.
Lilian está certa: a espiritualidade virou performance! Contudo, acredito que, atualmente, é difícil pensar no que não virou. Tudo que gira em torno de um estilo de vida que pode ser capitalizado e vendido, passou a ser performance nesse sentido de desempenho, função e eficiência. O capitalismo conseguiu, verdadeiramente, transformar tudo em propaganda com o objetivo de lucrar em cima da vontade, da curiosidade, da necessidade do ser humano de se espelhar no outro e de querer ser melhor ou de querer parecer ser mais do que é.
Performance ganha um sentido mais profundo dentro do significado de desempenho, porque passa a ter a ver com o fato de sabermos que estamos sendo vistos. Editamos o que mostrar, selecionamos o que queremos que os outros saibam, escondemos o que pode não ter a ver com o discurso que quero passar… Isso vale para todos os nossos campos de trânsito na vida, como redes sociais, trabalhos, relações… Existir transformou-se em performance.
A grande percepção que podemos ter é de que a performance, muitas vezes, não é uma farsa, mas uma construção de sentido que parte de algo real, como um desejo, uma intenção, uma identidade, mas que passa por uma profunda edição e, em algum momento, passa a ter o seu sentido esvaziado, modificado, silenciado.
No momento em que vivemos, onde o consumo se tornou desenfreado, essa ideia existe dentro da lógica de que visibilidade e narrativa pessoal geram valor, atenção, dinheiro, visualizações e, consequentemente, viram produtos. Isso faz com que sejamos empurrados a performar autenticidade, fé e espiritualidade, criatividade, bem-estar, felicidade e tantas outras coisas que o algoritmo capturou e tomou para si.
Essa espiritualidade performática é só mais uma expressão da sociedade do consumo, que é capaz de transformar qualquer estilo de vida, imagem, personalidade, frustração e sonho em um produto disponível na prateleira das redes sociais e da vida.
O problema mora quando paramos de viver os momentos em sua amplitude, porque a imagem torna-se mais importante do que a experiência ou do que o discurso. É aí que esvaziamos os sentidos, de verdade.
Existe um esvaziamento do que é a espiritualidade, que deixa de ser sobre transcender, se curar, aproveitar uma jornada pessoal de fé, de vontade, de tranquilidade, de descobertas e de paz e passa a ser sobre performance, sobre se mostrar para os outros, de uma forma completamente narcisista e egóica. Ou, em alguns casos, sobre imposição de fé, como se fosse possível ser melhor ou mais do que os outros.
A fé deixou de ser travessia para se tornar identidade, capital simbólico e prova social, necessária para indicar pertencimento e autoridade. Não se trata apenas de certo narcisismo, mas de uma estrutura que exige que até a busca por transcendência passe pelo eu, pelo palco, pelo olhar do outro, pelas redes sociais e pela validação de conhecidos e estranhos.
Não é só a Aline que pode ser um retrato desse tema. A espiritualidade pode ser ampliada para a fé, como um todo. Já víamos, há muito tempo, a religião evangélica virando moda e fonte de conteúdos performáticos nas redes sociais, que fez com que livros como “Café com Deus Pai” ficassem entre os mais vendidos por meses seguidos.
Nesse cenário, o gesto antes gerado por um sentimento ou necessidade, foi transmutado e modificado. Acho que a grande virada de chave, para nós, é entendermos que esse é um caminho natural de hábito de consumo do nosso tempo, onde tudo é transmitido, filmado, transformado em conteúdo. Só assim vamos parar de nos assustar a cada vez que um novo tema se tornar algo “performático” porque, na verdade, tudo é. Nós somos.
Resta que saibamos identificar os excessos, como era possível fazer assistindo a Aline Campos no BBB. Ou, por outro lado, que saibamos nadar contra a corrente e não dar palco para aqueles que não nos interessam e viver com o silêncio, levando em conta as nossas necessidades, mas em uma vida de verdades, como uma forma de resistência simbólica nesse mundo que transforma até o invisível em produto.
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

