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23-01-2026 às 11h08
Fernanda Novello*
Diante da baixa efetividade na recuperação de recursos desviados em fraudes via Pix, o Banco Central colocará em operação a partir de fevereiro o Mecanismo de Devolução Especial (MED) 2.0. A nova versão amplia o rastreamento das transações fraudulentas e tenta corrigir uma das principais fragilidades do sistema: a pulverização rápida do dinheiro entre múltiplas contas, que hoje limita drasticamente a devolução de valores às vítimas.
O anúncio ocorre em um contexto de explosão dos golpes. Entre janeiro e setembro de 2025, o Brasil registrou, em média, um golpe de falso Pix por segundo, somando cerca de 28 milhões de fraudes no período, segundo levantamento da Associação de Defesa de Dados Pessoais e do Consumidor. Entre os esquemas mais disseminados está o chamado golpe do Pix errado, que se apoia menos em falhas técnicas e mais em comportamentos humanos, como confiança e pressa.
Ao mesmo tempo, o Pix se consolidou como a principal infraestrutura de pagamentos do país e passou a despertar o interesse de outros mercados. Dados do Banco Central mostram que, em 2025, o sistema movimentou cerca de R$35,3 trilhões em aproximadamente 80 bilhões de operações, reforçando seu papel central na economia brasileira. O crescimento acelerado, porém, ampliou também a superfície de ataque para criminosos.
Diferentemente de fraudes que exigem invasão de contas ou técnicas sofisticadas de hackers, o golpe do Pix errado explora o próprio funcionamento do sistema de pagamentos instantâneos, que prioriza velocidade e simplicidade.
“O golpe do Pix errado explora uma característica operacional do sistema: a independência entre transações quando a funcionalidade oficial de devolução não é utilizada. Ao realizar um novo Pix para devolver o valor, o usuário cria uma segunda operação legítima, o que permite ao fraudador acionar mecanismos de contestação e estorno do pagamento original”, afirma João Fraga, CEO da techfin Paag.
Na prática, o esquema pode gerar prejuízos em cadeia. A vítima devolve manualmente o valor recebido; o golpista, após a devolução, solicita ao banco o estorno da transferência original alegando erro ou fraude; se o pedido for aceito, a vítima perde tanto o valor devolvido quanto o montante inicialmente recebido.
O Mecanismo de Devolução Especial, criado para lidar com esse tipo de situação, já existe, mas apresenta eficácia limitada. Em 2025, apenas cerca de 9,3% do valor contestado foi efetivamente recuperado, conforme dados do Banco Central. Isso ocorre porque, na versão atual, o bloqueio dos recursos se restringe à primeira conta recebedora. Como o dinheiro dos golpes costuma ser rapidamente transferido para outras contas, a chance de recuperação cai drasticamente.
Segundo João Fraga, o impacto econômico dessa limitação vai além do prejuízo individual.“Quando o sistema não consegue recuperar os valores, o custo da fraude acaba sendo distribuído entre consumidores, instituições financeiras e o próprio ecossistema de pagamentos. Isso afeta a confiança no Pix e gera ineficiências que se refletem em custos operacionais mais altos para todo o mercado”, diz o executivo.
O MED 2.0 busca enfrentar exatamente esse gargalo. Com a nova configuração, o sistema passa a contar com um rastreamento ampliado das transações, permitindo acompanhar o caminho do dinheiro para além da conta inicial. Assim que um golpe é denunciado, ocorre o bloqueio automático da conta que recebeu os recursos. Caso não haja saldo disponível, o mecanismo segue a trilha da transferência e tenta bloquear a conta seguinte, repetindo o processo sucessivamente.
A expectativa é que a mudança aumente a taxa de recuperação, melhore a identificação das contas envolvidas em fraudes e eleve o custo operacional para os criminosos, ao dificultar a dispersão dos valores e ampliar o risco de identificação.

