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20-01-2026 às 08h05
Solange Mendes*
Quando tinha dez anos, numa das viagens com meu pai, fomos parar em Caruaru – PE. Na maior feira que eu já tinha visto, entre farinhas, verduras, frutas e vários animais para corte, fiquei sem rumo de tantos aromas e cores…
Menina, eu só queria uma boneca, uma bolsa colorida de palhinhas, e comer alfenins que são bichinhos branquinhos, feitos de cana de açúcar. Minha mãe comprava tudo que via pela frente, meu pai tomando uma Pitú e comendo uma buchada de bode numa das muitas barracas de comida, só dizia a minha mãe para achar as dentaduras …
É minha gente, na feira de Caruaru tinha várias dentaduras expostas ao sol e à chuva, as pessoas experimentavam ali mesmo, se desse certo isto é se encaixasse, compravam… Meu pai queria comprar uma, não sei de onde ele tirou que sabia o tamanho da boca de seu Ananias, um velho amigo lá de Governador Valadares, que era o seu braço direito e esquerdo.
Depois me lembro de uma eleição lá em Itaobim, onde um amigo nosso, candidato a vereador saiu distribuindo umas dentaduras que um protético fez, e como não pegaram nem pagaram, passaram a ser trocadas por votos. Só que no dia, muitos dos “sortudos” que haviam comprometido o voto para não perder a oportunidade de ter dentes de novo, demoravam a chegar na zona eleitoral, o candidato com medo de perder, correu para as casas dos eleitores. Algumas criaturas com as bocas inchadas, mal podiam falar, e acabaram sem condição de manter a palavra. Ele ainda insistiu que tirassem a dita e fossem. Mas com medo de ficar sem os dentes, ninguém atendeu, ele como não pagou nada por elas, só perdeu a eleição.
Passado um tempo, pelo menos uns dez tiveram sorte, o encaixe ficou perfeito, o sorriso largo durou por muitas eleições, pena que o “benfeitor” desistiu e não puderam pagar o voto.
Mas voltando ao assunto, uma amiga minha se casou, mas o marido morava e trabalhava em são Paulo, e ela ficava em Itaobim. Todo ano ele chegava abonado, comprando e pagando tudo, até acabar o dinheiro. Aí começava a beber, encher o saco, até que os parentes dela faziam uma vaquinha e ele voltava para são Paulo, sendo que toda vez que ia, ela ficava grávida, assim tiveram oito filhos e enquanto por lá ele estava, cá a família tinha que acudir ela e a prole. De tanto engravidar e a cada gravidez piorando os dentes, teve que tirar todos, ficou uns quatro anos banguela e ele no mesmo batidão, indo e vindo…
Uma vez cheguei, e a vi toda feliz. foi me ver e, claro mostrar os dentes e mais um menino que nasceu. Rimos, conversamos, ela me contou das dificuldades do casamento, pois as brigas constantes e a intromissão da família em nada ajudava, pois ele não mudava …
Dias depois ele já planejando a volta e ela preocupada, pois a família tinha dado um cheque mate, ou ela se separava ou eles não ajudavam mais…
Meses depois quando ele chegou, ela mesmo triste e saudosa, ouviu a família, e acabou o casamento. Ele, revoltado mandou uma carta, que eu só acreditei porque ela me deu para ler, com muita saudade e mágoa ele dizia que ela estava dando importância aos outros, e que não mais o queria, por isso, não era justo, ela ficar rindo com os dentes que ele lhe deu e que trabalhou muito pra pagar…. Achei um absurdo e falei que mais gastos ela teve, por ter que cuidar só, daquele monte de filhos de não se cuidar, e tome blábláblá! Mas não adiantou nada o meu pitaco. Antes da minha viagem de volta, nos encontramos, ela pendurada de meninos me deu um abraço, morrendo de rir, logo percebi, ele tinha devolvido a dentadura! Uns dois anos depois, quando chego e vou descendo do ônibus, vejo o casal, com dois dos meninos numa bicicleta, me cumprimentaram aos gritos, pois desciam ladeira da estrada de Jequitinhonha, ela apontou o guidão e com um sorriso cheio de dentes de fora a fora, toda feliz, grita toda orgulhosa: Olha o presente que eu ganhei!
Uma coisa eu sei, se não fosse o dinheiro de São Paulo, muita gente não tinha sido feliz!
*Solange Mendes é funcionária pública aposentada.

