Patagônia Argentina - créditos: divulgação
15-01-2026 às 10h20
Soelson B. Araújo*
Nos últimos anos, o governo do presidente argentino Javier Milei tem levado adiante uma agenda de privatizações e liberalizações extremas de ativos estratégicos, que tem provocado forte crítica interna e internacional. Entre estas medidas estão decisões que impactam diretamente a água como recurso essencial à vida, no contexto da Patagônia Argentina.
Embora não exista até o momento uma “venda direta da água da Patagônia” como se fosse um lote comercializado a terceiros, o governo tem promovido ações que podem levar à gestão privada de recursos hídricos e serviços essenciais:
Quatro grandes usinas hidrelétricas patagônicas foram incluídas em um processo de concessão e privatização — o que, na prática, significa transferir para operadores privados a gestão de infraestrutura crítica que influencia diretamente o ciclo hídrico e o uso da água regional.
O governo liberou a privatização de até 90% da Agua y Saneamientos Argentinos (AySA), a empresa de abastecimento de água e esgoto que atende milhões de habitantes na região metropolitana de Buenos Aires — uma ação que pode resultar no aumento de tarifas, menor fiscalização pública e maior influência de interesses mercadológicos sobre um serviço que deve ser garantido como direito humano.
Alteração de leis de proteção ambiental e propostas de flexibilizar a proteção de geleiras — que são reservatórios naturais de água doce — também geram preocupações de ambientalistas, pois abririam espaço para exploração econômica em áreas estratégicas de captação de água.
Todas essas iniciativas, ainda que distintas da “venda da água” em sentido literal, representam uma transferência de controle de bens e serviços hídricos à lógica de mercado e ao capital privado, o que torna o acesso à água vulnerável a pressões econômicas.
Por que essa iniciativa é absurda e perigosa?
A água é um bem universal e essencial à subsistência humana, reconhecido como direito fundamental nos principais frameworks internacionais de direitos humanos. Mercantilizá-la ou submeter sua gestão às forças de mercado ameaça de forma direta:
A Segurança Hídrica das Populações:
Quando se privatiza a gestão da água ou de serviços que a viabilizam — por meio de concessões, aumento tarifário e metas de lucro — tende-se a reduzir o acesso das camadas mais pobres da população, como já apontado em outros países em que isso foi tentado (ex.: experiências de privatização de água na França ou na Argentina em outro contexto histórico).
A Soberania Nacional sobre Recursos Naturais:
A transferência de ativos estratégicos — como usinas ou empresas de água — para operadores privados, inclusive estrangeiros, compromete a capacidade do Estado de formular políticas públicas de longo prazo que atendam às necessidades básicas da população.
Ações de Curto Prazo em Detrimento de Ecossistemas Inteiros:
A água está interligada a sistemas naturais complexos. Permitir que a sua gestão seja guiada pela maximização de lucro pode conduzir a decisões que ignoram recuperação ecológica, preservação de nascentes e equilíbrio dos ecossistemas.
A Patagônia: mais que um recurso, uma peça-chave para o continente
A Patagônia Argentina é um dos maiores reservatórios de água doce do Hemisfério Sul — com geleiras, lagos e rios que sustentam a biodiversidade, a economia regional e que influenciam ecossistemas transfronteiriços. A transformação desses sistemas em bens comerciais ameaça não apenas os direitos humanos básicos, mas a estabilidade ecológica regional que sustenta atividades como agricultura, pesca e turismo.
Lição histórica: o Vale do Jequitinhonha (MG) e a monocultura de eucalipto
Um exemplo marcante de como políticas públicas mal formuladas podem comprometer recursos hídricos essenciais ocorreu no Brasil, mais especificamente no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
Na década de 1970, durante a ditadura militar brasileira, o governo implantou um projeto de desenvolvimento que transferiu grandes extensões de terras no Alto Vale do Jequitinhonha para a estatal Acesita, com o objetivo de produzir carvão vegetal para abastecer o complexo siderúrgico de Minas Gerais. Para isso, implantou-se uma monocultura extensiva de eucalipto, uma espécie de rápido crescimento e alta produtividade de biomassa.
Com o tempo: mais de 60% da vegetação nativa do cerrado — essencial para a regulação hídrica regional — foi substituída por florestas de eucalipto.
Estudos indicam que essa substituição alterou drasticamente o balanço hídrico local, reduzindo a recarga dos aquíferos e baixando os níveis de água subterrânea em metros, afetando cursos de água, nascentes e fontes que abasteciam comunidades inteiras.
Comunidades que antes podiam encontrar água em abundância para consumo, agricultura e criação de animais hoje lidam com escassez hídrica, secas de veredas e lençóis d’água e queda da qualidade de vida.
Terras que eram de uso comunitário foram apropriadas, alterando profundamente as formas tradicionais de produção e subsistência das famílias rurais locais.
Privatização não solucionou o problema: posteriormente, a Acesita foi privatizada em 1992 e hoje a empresa atua sob o nome Aperam Bioenergia, player global controlada pelo grupo eropeu, ArceloMital. Isso exemplifica como um projeto inicialmente estatal e voltado ao “desenvolvimento” acabou se convertendo, sob lógica de mercado, em uma operação que prioriza a produtividade e o lucro em detrimento dos recursos naturais essenciais e dos direitos das comunidades locais.
Informações atualizadas de fontes do jornal Diário de Minas indicam que mais de trinta represas, construídas em diversos municípios pela antiga Acesita e pela Aperam Bioenergia para aproveitar nascentes de veredas como reservas hídricas próprias, também secaram.
Paralelos críticos: Patagônia e Jequitinhonha
A comparação entre o caso argentino e o brasileiro oferece um alerta poderoso:
Transformação de recursos essenciais em commodities ou insumos estratégicos de mercado (água na Patagônia; carvão vegetal no Jequitinhonha) sempre ocorre pressionando as bases ecológicas dos territórios;
Projetos de “desenvolvimento” sem proteção socioambiental podem levar à exaustão ou degradação de recursos que sustentam vidas e modos de produção comunitários;
A lógica de privatização ou de abertura total ao mercado, quando aplicada a recursos naturais essenciais, tende a beneficiar grandes grupos econômicos em detrimento de populações locais e da sustentabilidade de longo prazo.
A água não pode ser mercadoria. Ela é um direito humano fundamental e um bem comum indispensável à vida. Quando governos — seja na Argentina sob Milei, seja no Brasil sob regimes passados e na atualidade — adotam políticas que colocam recursos hídricos sob controle mercadológico ou de interesses privados, o que está em jogo não é apenas eficiência econômica, mas a própria garantia de vida e dignidade humana.
O caso do Vale do Jequitinhonha nos mostra que os danos às bases naturais podem ser irreversíveis ou de difícil remediação quando interesses econômicos se sobrepõem aos direitos das pessoas e dos ecossistemas. A água, sendo essencial para todos, deve ser protegida por políticas públicas robustas e democráticas, que reforcem a soberania coletiva e a justiça ambiental.
*Soelson B. Araújo é empresário, jornalista, escritor

