Conflito EUA e Venezuela - créditos: divulgação
10-01-2026 às 12h14
Rogério Reis Devisate
Maduro caiu. Ficaram decepcionados os que esperavam fortes reações ou a 3ª Guerra Mundial. China e Rússia não reagiram com firmeza. Parece que fizeram as contas e entenderam que é melhor que os EUA cubram com a sua influência a Venezuela e as Américas, para que pudessem explorar o precedente e jogar melhor nas suas áreas de influência: a China com Taiwan e a Rússia com a Ucrânia. Simples assim.
Por outro lado, havia sinais de que as esquerdas se mobilizariam para resistir ao Imperialismo Ianque, mas a rapidez da ação americana foi tão grande que neutralizou qualquer pretensa reação de países que também são foco de possíveis ações, como a Colômbia. Sob outro foco, a Venezuela, sem Maduro, não deve manter o seu interesse político e militar no petróleo da Guiana. Além disso, o Brasil já tem cá os seus problemas com o caso, diante da fronteira de Roraima e a aparente instabilidade local.
Quando se fala no “imperialismo” e na “Soberania” com tom crítico aos EUA, é importante não se perder de vista que eram de Cuba muitos dos seguranças do Maduro, que havia militares russos no território Venezuelano e que existia uma relação próxima entre a China e a Venezuela (com 29,6% de todos os projetos realizados pela China nos países da América Latina).
Outro aspecto a ser considerado era o caráter de exploração dos civis por Maduro, colocando-os com escudos quando os fez integrar as suas milícias armadas, que contavam com 4,5 milhões de pessoas.
Interessante notar que, após a queda do Maduro e a posse da nova presidência, anunciou-se a libertação de presos políticos (fato que confirma o caráter da ditadura existente lá) a se chocar com as notícias de que há prisões aleatórias de pessoas, incluindo 14 jornalistas. Também se noticia que as rondas armadas são feitas por policiais e “colectivos” fiéis a maduro – milícias mascaradas!
Isso tudo ocorre no país que possui a maior reserva de petróleo do mundo, embora pareça produzir apenas 30% da sua capacidade de extração. Assim, a tecnologia e os investimentos das petrolíferas na região hão de aumentar – e logo – o fluxo de produção e de dinheiro para o povo e o país.
Noutro prisma, não pode ser dispensada a ideia de que o atual governo já expressou o desejo de “trabalhar junto” com os EUA. Isso significa a governabilidade e a manutenção de bases do aparelho estatal vigente e o imediato afastamento da nomeação de um governo biônico, inclusive com a volta da ganhadora do prêmio Nobel. Uma jogada de mestre do atual governo. Para todos os fins e efeitos, Maduro é página virada. Daqui em diante só interessa o futuro. O passado já passou.
Existe outra questão importante, pois Cuba, um grande símbolo da esquerda global, sofrerá com a diminuição ou paralização do fluxo de dinheiro venezuelano, sob a forma de subsídios no fornecimento de petróleo. Prevê-se que Cuba verá o agravamento da sua crise de saúde e alimentos, além da crise energética, com os seus frequentes apagões. Vaticina-se que cairá o regime atual, por uma mudança que exigirá o sepultamento desses 60 anos de aventura utópica e do discurso de dificuldades em decorrência do embargo norte-americano que já dura tantas décadas… a um país que vive desse adversário e, que nunca, jamais, conseguiu construir uma economia sustentável ou criar alternativas econômicas viáveis para fugir do “embargo”, pois Ditaduras sobrevivem na eterna luta contra inimigos reais ou imaginários.
O Brasil tem interesses na paz e na parceria com a Venezuela, mas não poderia mais ficar defendendo uma bandeira próxima a de colegiados de bombordo, pois as duas maiores potências da esquerda global – China e Rússia – não reagiram militarmente e o povo venezuelano foi festejar nas ruas a queda do Maduro.
Os grandes dividiram o mundo, construindo os seus monumentos imperialistas para cada um dos seus castelos e reinos vinculados. O mundo mudou, a política mudou. Ninguém quer uma 3ª Guerra, ninguém quer um aceno bélico incendiário e nuclear, cujo final não se controle. Ninguém quer a falência de um sistema mundial financeiro e mercantil. Ninguém quer ver o Armagedon ou os quatro cavaleiros do apocalipse. Para isso, tudo tem que se acomodar.
Ah, com a nova Venezuela aderindo aos EUA, o que fariam os discursos esquerdistas por uma reação ao imperialismo se a China e a Rússia parecem estar acomodando a situação em prol do seu imperialismo nas suas regiões e em face de Taiwan e da Ucrânia? Não se pode ser contra o imperialismo de uns e ser a favor do imperialismo de outros. Fim do discurso e da sua legitimidade.
Importante registrar que se deve ter cuidado com aproveitadores que podem criar campanhas para arrecadar dinheiro para que possam organizar lutas ou qualquer tipo de resistência, na Venezuela ou nos EUA, por uma causa que é divorciada da realidade do povo venezuelano, que parece ter gostado demais da liberdade de poder ir para as ruas comemorar a queda do Maduro. A propósito, Maduro será julgado em território norte-americano. O mundo saberá do resultado. Nada mais se falará sob o ponto de vista político que já é página virada da história.
Uma dúvida persiste, pois alguém receberá o prêmio de 50 milhões de dólares que os EUA haviam oferecido por pistas que levassem à prisão do Maduro? Alguém o traiu? Alguém próximo?
Assim, o ano de 2026 começa já resolvendo um monte de variáveis que estavam desenhadas nos mapas e relatórios, pelo mundo afora. Observemos as movimentações das peças dos demais atores imperialistas, por Taiwan e Ucrânia. Fora isso, o dólar e o Euro se mantêm estáveis, as bolsas seguem o seu rumo e o mundo globalizado caminha em condições de estabilidade e paz não muito diferentes do que 2025 já tinha.
*Rogério Reis Devisate é advogado/RJ, Membro da Academia Brasileira de Letras agrárias da União Brasileira de Escritores e da Academia Fluminense de Letras, presidente da comissão Nacional de Assuntos fundiários da UBAU; membro da Comissão Nacional de Direto Agrário da OAB/RJ, Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ

