Créditos: Divulgação
06-01-2026 às 10h53
Marcelo Barros Gomes*
- Três cenários até 2100: mais do mesmo; reformas graduais; transformação consistente.
- Plano de 75 anos: Década da Fundação (2026-2035) com 6 pilares, visando preparar o país para a Revolução Educacional (2035-2050) e para que possa finalmente ter Ascensão ao protagonismo (2050-2080), com legado dentre os melhores países para se viver do mundo em 2100.
- Risco central: descontinuidade política; resposta: Pacto Nacional 2026.
- Vetores críticos: bônus demográfico até 2040, transição verde, Estado digital, integração às cadeias globais.
Brasil 2026-2100: salto à modernidade ou abismo da irrelevância
Em 2026, o Brasil encara muito mais do que um ciclo eleitoral; encara o espelho de sua própria história. Atravessamos o primeiro quarto do século XXI em um estado de “quase-realização”. Se a resiliência institucional e o agronegócio nos salvaram do abismo, o país que entregamos hoje está aquém de sua promessa. Vivemos sob o estigma dos “voos de galinha”, de desindustrialização precoce, infraestrutura arcaica, e políticas que ainda ignoram a urgência climática. Sobrevivemos a crises, pandemias e políticas esdrúxulas, mas falhamos em converter estabilidade em reformas abrangentes, mas pontuais e reativas. O debate anacrônico entre esquerda e direita tornou-se um ruído enfadonho que adia nosso encontro com a modernidade. A pergunta para 2026 é direta: que Brasil queremos legar aos nossos bisnetos?
Raio-X do atraso evitável e do potencial reprimido
Desde 2000, o PIB brasileiro saltou de US 2,2 trilhões. Parece muito, mas o crescimento médio de 2,5% é tímido para o que o país pode oferecer. O Instituto 3Ipêsanalisou 180 indicadores globais e a conclusão é inequívoca: temos condições para figurar entre as três maiores potências mundiais até 2100. O que nos trava? Ocupamos o 87º lugar no Indice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU e o vergonhoso 70º lugar no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) – uma avaliação educacional realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a cada três anos. O programa avalia o desempenho dos estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências, permitindo que os países comparem seus sistemas educacionais com padrões internacionais. Os resultados do PISA ajudam a identificar tendências, pontos fortes e áreas que necessitam de melhoria, além de fornecer subsídios para a formulação de políticas educacionais. Enquanto, por exemplo, 85% dos jovens sul-coreanos dominam a matemática básica, apenas 27% dos brasileiros conseguem o mesmo. Sem educação, estaremos fatalmente relegados à irrelevância.
Três destinos possíveis até 2100
Os modelos aplicados pelo Instituto 3Ipês projetam três cenários para os próximos 75 anos:
- O “Mais do mesmo” (40% de probabilidade): crescimento de 1-2%, no qual continuaremos sendo o “eterno país do futuro”, presos na armadilha da renda média.
- Reformas graduais (35% de probabilidade), com crescimento de 3-4%, ensejando alguma aproximação relevante com o primeiro mundo, mas ainda sem voz nas grandes decisões globais.
- Transformação consistente (25% de probabilidade), na qual o crescimento atinge 5-6% e o Brasil se torna uma superpotência com IDH nórdico (0,944), PIB per capita de US$ 75 mil ao ano e liderança institucional, de inovação, competividade, segurança alimentar, energética e ambiental.
O plano de 75 anos: engenharia do futuro
Para que o Brasil deixe de ser o “país do amanhã” e se torne a potência de 2100, precisamos de um cronograma rigoroso. A primeira fase é a mais crítica: a Década da Fundação (2026-2035), organizada em pelo menos seis frentes simultâneas.
Fase 1 (2026-2035) — arrumando a casa, finalmente: 6 pilares estratégicos
- Execução impecável da reforma tributária.
O desafio de 2026 a 2035 é a execução técnica efetiva. A reforma tributária precisa ser implementada sem percalços, sem “jabutis” e com segurança jurídica absoluta. O objetivo é consolidar um sistema moderno que desonere a produção e o investimento, eliminando o labirinto burocrático que hoje asfixia a competitividade e a indústria de alta tecnologia. - Melhoria institucional plena e ambiente de negócios global
Para atrair os trilhões de dólares necessários em investimentos, o Brasil precisa de regras do jogo estáveis e de governança azeitada. Isso envolve aprimorar a segurança jurídica e a integridade pública e empresarial, garantir boa regulação e plena integração às cadeias globais de valor, em convergência às melhores práticas internacionais. O objetivo é que o país deixe de ser uma ilha econômica e se torne porto seguro do capital internacional, com melhora significativa no ranking de ambiente de negócios. - Orçamento por desempenho e marco fiscal de médio prazo.
O Estado deve ser orientado por resultados: entregar mais e melhor. O orçamento público deve transformar-se em ferramenta de gestão com foco no desempenho, amparado por marco fiscal de médio prazo que garanta previsibilidade e sustentabilidade. Convém integrar e submeter as políticas públicas a auditorias de impacto constantes, substituindo o amadorismo por decisões baseadas em evidências. Deve-se abandonar a ideia de que o Estado, diferentemente das empresas, nunca quebra (a si próprio ou aos contribuintes). - Planejamento estratégico e indicadores-chave (KPIs) nacionais
O Brasil precisa de um amplo e rigoroso “painel de controle”, com o estabelecimento de indicadores-chave de desempenho (KPIs) nacionais claros e transparentes para educação, saúde e produtividade, por exemplo. Esses marcos permitirão que a sociedade monitore o progresso e que o governo ajuste rotas com base em resultados mensuráveis, blindando o planejamento dos ciclos eleitorais. - Revolução na infraestrutura de dados e logística
A infraestrutura do futuro é digital e multimodal. A meta até 2035 é universalizar 5G/6G em todo o território. Em paralelo, a integração de ferrovias e cabotagem deve reduzir a dependência do modal rodoviário, tornando a logística brasileira mais ágil, competitiva e sustentável. - Estado digital e desburocratização radical
Digitalizar não é apenas modernizar: é redesenhar a relação entre cidadão, empresa e governo. O objetivo é um Estado 100% digital, em todos os níveis federativos, com serviços cujo design elimine os gargalos que hoje inibem o empreendedorismo. Menos processos, mais agilidade para quem produz.
As próximas fronteiras (2035-2100)
- 2035-2050 — A Revolução Educacional: com a base institucional sólida, o foco vira o capital humano. Devemos reformular o ensino com ênfase em inovação e IA elevando o investimento em P&D para 4% do PIB. Não significa que devemos iniciar a pensar essa revolução em 2035, devemos pensar já. E nessa fase deve-se consolidar e manter o legado dos 10 primeiros anos da tão esperada revolução para o futuro.
- 2050-2080 — A Ascensão ao Protagonismo: o Brasil assume liderança mundial em competitividade, previsibilidade, qualidade educacional e institucional, segurança alimentar e transição energética, com matriz 100% renovável e pobreza reduzida a níveis marginais.
- 2080-2100 — O Legado: consolidação como uma das três maiores economias do mundo. Uma nação próspera, justa e sustentável, que finalmente cumpre seu destino inevitável de liderança global.
O grande obstáculo: descontinuidade
O maior risco não é financeiro, é político. Cada governo tenta reinventar a roda, negando o passado. Precisamos de um Pacto Nacional para 2026: um acordo suprapartidário de 75 anos, inspirado no modelo nórdico do pós-guerra, entre tantos outros. O Brasil já provou que sabe vencer: somos líderes na aviação, no agronegócio e na matriz energética. Temos ainda o final “bônus demográfico” até 2040 — uma janela de oportunidade única, mas que se fecha rapidamente. O Instituto 3Ipês atua como um centro de pensamento, formação e oferta soluções customizadas para transformar metas em realidades concretas, transições de governo em momentos de continuidade com aceleração dos ideais de futuro. A Amazônia, por exemplo, não é um problema; é o maior ativo estratégico do planeta. A transição verde pode criar pelo menos 2 milhões de empregos até 2030. O Brasil tem o talento, o território e os dados. Falta-nos a coragem de abandonar a lógica reativa de apenas “não sucumbir” e, enfim, liderar e acelerar para o futuro. Isso depende em forte medida de políticas públicas efetivas, continuadas e consistentes, que deem suporte técnico ao pacto e anseios políticos.
O passo fundamental: criação de um núcleo de liderança sólido, consistente e robusto para conduzir reformas e prioridades de maneira transversal, integrada e sustentável: o Centro de Governo
Os governos mais bem estruturados do mundo compartilham uma característica fundamental que frequentemente escapa à percepção imediata: dispõem de unidade diretamente vinculada ao chefe do Poder Executivo, dotada de autoridade para conduzir prioridades transversais, as principais transformações estruturais e reformas voltadas ao desenvolvimento de longo prazo, com visão transversal e comunicação fluida, ágil e efetiva entre as diferentes pastas e níveis de governo.
Trata-se do Centro de Governo. Entre as principais incumbências dessa unidade destacam-se a promoção do planejamento estratégico de longo prazo, a garantia da adequada execução, entrega e coerência dos projetos estratégicos de Estado, bem como a coordenação de uma comunicação governamental efetiva e consistente.
Essas unidades desempenham papel análogo ao de um maestro em uma sinfonia: conferem a harmonia e a coerência necessárias à atuação governamental e atuam de forma célere e eficiente na prevenção e solução de conflitos e desalinhamentos entre ministérios ou secretarias e entre os distintos níveis de governo. Essa configuração deve ser desenvolvida em todos os entes federativos. O Instituto 3Ipês tem apoiado de forma definitiva esse caminho virtuoso em alguns entes federativos. Os resultados já estão visíveis e promissores, na aceleração das entregas e nos impactos alcançados.
Críticas e a síndrome do “impossível”
“Utopia!”, “Impossível crescer 4-5% por décadas!”, argumentam os céticos pessimistas. Nada melhor do que algumas constatações factuais para responder: a China cresceu 9% ao ano por 30 anos; a Coreia do Sul, 8% por duas décadas; Singapura saltou de porto colonial a centro financeiro global em uma geração. O impossível torna-se viável quando há planejamento e, sobretudo, boa execução das coisas certas a serem feitas, baseadas em dados e evidências.
A responsabilidade da nação
A transformação transcende Brasília e capitais nos estados. É um pacto nacional que exige ação de cada setor:
- Empresários: investindo cada vez mais em inovação e capacitação; pensando em legado, não apenas em lucro imediato.
- Jovens: dedicando-se ao estudo com foco, sonhando alto e planejando cada passo e conquista.
- Cidadãos: fiscalizando o gasto público, exigindo transparência e votando com o futuro em mente.
O legado de 2100
Quando nossos bisnetos abrirem os livros de História em 2100, o que lerão sobre nossa geração? Que desperdiçamos uma das maiores janelas de oportunidade do Brasil? Ou que tivemos a coragem de sonhar e fazer acontecer? O Brasil de 2100 que projetamos não é ficção científica. É pensamento crítico e sistêmico, exercício de foresight e forecast, de análise de cenários, em modelos quantitativos e qualitativos, a serem aplicados com vontade política sustentada. Uma nação próspera (entre as maiores do mundo), justa (IDH nórdico), sustentável (matriz 100% renovável) e globalmente respeitada deve ser iniciada agora.
Temos escolha? Sim. Temos tempo de sobra? Não.
A janela está aberta, mas não para sempre. O mundo acelera. Ficar parado é optar pela irrelevância definitiva. Temos coragem para sonhar grande? Disciplina para executar por 75 anos? Sabedoria para manter o foco? 2025 termina com essa provocação na mesa. 2026 começa com uma grande oportunidade política da nossa história: transformar o desenvolvimento de longo prazo em um compromisso inegociável aqui e agora. Não é sobre esquerda ou direita. É sobre futuro ou passado. Brasil grande ou Brasil pequeno. A escolha é nossa. A responsabilidade, também. O Instituto 3Ipês apoiará e fornecerá as ferramentas. A decisão final deve perpassar e ser levada às urnas de 2026, e, acima de tudo, deve ser acompanhada e conduzida pela sociedade no essencial período pós-urnas. O que você pode fazer?
*Marcelo Barros Gomes é Diretor Acadêmico do Instituto Internacional de Políticas Públicas e Soluções (Instituto 3Ipês), Mestre em Administração Pública e Políticas Públicas pela London School of Economics (LSE UK) e Especialista em Auditoria de Governo pelo Government Accountability Office (GAO, Washington D.C. (USA)). Auditor do TCU desde 1995, com diversas funções de dirigente no Controle Externo. Ocupou cargos de Subchefe e Secretário Especial na Casa Civil da Presidência da República e de Secretário Executivo do Conselho de Ministros Brasil-OCDE (2019-2021).
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gmarcelobarros@gmail.com
O estudo completo “Brasil 2026-2100: Caminho para Liderança Global” será lançado no segundo semestre de 2026 no Site do Instituto 3Ipês.

