João Campos, prefeito reeleito de Recife - créditos: Folha PE
04-01-2026 às 16h06
Samuel Arruda*
Um episódio que alcançou repercussão nacional envolve a nomeação de Lucas Vieira Silva para o cargo de procurador judicial do município do Recife, no âmbito de concurso público realizado pela Prefeitura durante a gestão do prefeito João Campos (PSB). A controvérsia surgiu após a utilização de uma vaga reservada a Pessoa com Deficiência (PcD) para viabilizar a nomeação do candidato.
Inicialmente, Lucas figurava na 63ª colocação da ampla concorrência, posição que não lhe garantiria nomeação imediata. Posteriormente, no entanto, ele foi reenquadrado administrativamente como PcD, o que resultou em seu reposicionamento para a 1ª colocação nessa modalidade e, consequentemente, em sua nomeação para o cargo. A alteração da classificação, realizada após a homologação do concurso, gerou questionamentos sobre os critérios adotados, especialmente pela ausência de explicações públicas detalhadas por parte da administração municipal.
O caso ganhou ainda maior visibilidade em razão dos vínculos familiares do nomeado. Lucas Vieira Silva é filho de uma procuradora de contas do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) — órgão responsável por fiscalizar as contas da Prefeitura do Recife — e também do juiz Rildo Vieira Silva, integrante do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). Esses vínculos levantaram suspeitas e alimentaram debates sobre possível conflito de interesses, favorecimento indireto e fragilidade dos mecanismos de controle institucional.
Meses após a controvérsia envolvendo o concurso, o Ministério Público deflagrou a Operação Barriga de Aluguel, conduzida pelos GAECOs de Pernambuco e de Minas Gerais, voltada à apuração de um suposto esquema de corrupção que poderia ultrapassar R$ 500 milhões. A investigação envolve fraudes em licitações, uso irregular de atas de registro de preços e possíveis desvios de recursos públicos.
De acordo com informações divulgadas pelo GAECO, a Prefeitura do Recife teria aderido a algumas dessas atas, firmando contratações que, somadas, ultrapassariam R$ 100 milhões. As apurações também passaram a investigar indícios de “sombreamento” em serviços de engenharia, prática na qual um mesmo serviço é supostamente contratado e pago mais de uma vez, com sobreposição de objetos contratuais.
Em novembro, o inquérito foi redistribuído para a vara sob responsabilidade do juiz Rildo Vieira Silva, pai de Lucas. Posteriormente, o magistrado anulou integralmente a investigação, decisão que resultou na interrupção das apurações conduzidas pelo Ministério Público, ampliando as críticas e os questionamentos sobre imparcialidade e governança institucional.
As investigações também identificaram ligações com um consórcio intermunicipal de prefeitos do Norte de Minas Gerais, sediado em Montes Claros, local onde equipes do GAECO estiveram para recolher documentos e aprofundar a análise das contratações suspeitas.
O conjunto desses fatos passou a ser utilizado por críticos da gestão municipal como exemplo de fragilização dos princípios da legalidade, moralidade e impessoalidade, previstos no artigo 37 da Constituição Federal, reacendendo o debate sobre transparência administrativa, controle de concursos públicos e a atuação dos órgãos de fiscalização e do Judiciário.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

