General Heleno diz ter Alzheimer - créditos: divulgação
30-11-2025 às 11h42
Caio Brandão (*)
Demerval Quaresma quer ser presidente do Brasil. Acordou cedo, foi à biblioteca municipal e buscou informações. Encontrou um exemplar descorado da Carta Magna, mas o texto remontava a 1988 e a edição se apresentou em bom estado. Quaresma sentou-se com dificuldade, com ossos do esqueleto estalando, mas conseguiu o feito, ainda que ofegante. O problema maior será para levantar-me, pensou. Mas, foi à luta. Achou o que procurava no artigo 14 da Carta Magna, e foi logo fazendo checklist: sou brasileiro, sei ler e escrever, estou no pleno exercício dos direitos políticos, o meu título de eleitor está válido, tenho mais de 35 anos e me encontro filiado a um partido político. É só isso? Indagou a si mesmo, mas era verdade, estava escrito lá, na Constituição da República, concluiu Demerval.
Quaresma se refez, porque estava deprimido por não ter sido aprovado em concurso público para o cargo de coveiro, em sua cidade natal. A prova não foi difícil, segundo ele, mas o princípio de Alzheimer, que o acomete, turvou a sua capacidade de responder às questões da prova de forma correta.
O Alzheimer vem devagar, sorrateiro, ardiloso, traz dificuldades para a memória recente, apagando fatos, informações, conversas e a agenda de compromissos. Quaresma tinha consciência disso e, portanto, evitava comprometer-se, gerenciar e fazer tarefas complexas, lidar com dinheiro e fazer planejamentos estratégicos, como a reforma do galinheiro de sua casa, reivindicação antiga de Dona Maria, sua esposa, inconformada com o abandono do recanto onde se recolhiam as poedeiras da família.
A reprovação para coveiro pode ter sido útil, ponderou Demerval em seus pensamentos, porque ele poderia ser capaz de enterrar o caixão e deixar o defunto de fora, ao relento. O Alzheimer, já sabia Demerval, compromete a capacidade do indivíduo para a solução de problemas, principalmente no encaminhamento de soluções estratégicas, como é o caso de um caixão com defunto dentro, pressão da família, horário de crepúsculo, fluidez do mecanismo de descida da urna na cova e outras tantas minúcias, como a arrumação das coroas de flores no entorno da campa.
Assim, melhor ser presidente, pensou, porque não existe prova em concurso, não pedem exame médico de saúde física e mental e ainda existe um mundo de “aspones” para auxiliar o primeiro mandatário a dar conta do seu mister. Ademais, se o presidente errar, sempre poderá crucificar algum ministro e tratá-lo como incompetente e, quiçá, como corrupto.
A presidência, para Demerval, traria, nas suas conjecturas, um desafio maior do que o galinheiro da família, em perspectiva, e a satisfação das poedeiras, em abandono, porque o Alzheimer poderia comprometer a sua fluência verbal e a capacidade de resolver problemas complexos, típicos do cargo.
Dona Maria, na sabedoria de esposa dedicada e perspicaz, ponderou de pronto que havia precedente nessa questão, referindo-se ao noticiário recente, contemplando a figura de um ilustre general, de trajetória destacada na Força, que conseguiu superar obstáculos e manter-se e projetar-se no cargo, em que pese o ônus da doença e de suas graves consequências. Ademais, ponderou Dona Maria, estivesse o general sob o ônus da doença, quando em missão da ONU no Haiti, as coisas poderiam ter saído mais do controle do que o ocorrido, de triste memória.
Mas de quem se trata? perguntou Demerval.
Maria, com a visão fixa na cebola que descascava e os olhos encharcados, com lágrimas escorrendo pelo rosto rosado e marcado pelo tempo, citou o General Heleno, recentemente condenado em processo de grande repercussão, em companhia de outros tantos que, segundo ela e argumentando na sua simplicidade, teriam sido punidos por algum malfeito no exercício do cargo. Maria, normalista – fez o curso de professora primária -, tinha a experiência de regente de classe e bem sabia acerca da capacidade de um grupo de maquinar coisas indevidas e partir para o confronto em desfavor do status quo.
Heleno, segundo Maria, conforme por ela lido em noticiário amplamente divulgado em jornais e na televisão, teria conseguido o benefício de prisão domiciliar, em face de idade avançada, várias comorbidades e, inclusive, conforme argumentado pelos seus advogados, estar sofrendo de Alzheimer desde o ano de 2018.
Como assim, retrucou Demerval, acrescentando: em 2018, pelo que sei, o general Heleno estava integrado à campanha presidencial do Bolsonaro e, logo após a vitória do Jair, o general foi cogitado para Ministro da Defesa e acabou sendo nomeado para a chefia do Gabinete Institucional da Presidência da República, e ainda acumulou as funções de Secretário Executivo de Defesa Nacional. Ademais, o general, do alto do seu descortino e sem maiores contestações, aprovou em 2021 vários projetos de pesquisa de ouro em São Gabriel da Cachoeira, na fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela e, em 2023, pouco antes de deixar o cargo, também autorizou a exploração de ouro em Iracema, em Roraima, em área vizinha ao território indígena da reserva Yanomami.
Veja, minha querida, disse Demerval a Maria, enquanto acendia um cigarro da marca Piccadilly, seu preferido, que o homem sabia o que fazia, apesar da doença. Ademais, talvez o Alzheimer não se manifestasse no cotidiano profissional, mas apenas em delírios nas variáveis do sono profundo, quando recolhido ao leito.
Você tem razão, Demerval, porque mesmo com essa doença sinistra, o general pode determinar as diretrizes da Agência Brasileira de Inteligência, a ABIN, que à época ainda se encontrava sob a jurisdição do GSI. Outrossim, completou Demerval, também vinculados à GSI se encontram a Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional, o Comitê Gestor de Segurança e Informação, o Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro e o Comitê Executivo do Programa de Proteção Integrada de Fronteiras.
Tudo isto? Perguntou Dona Maria.
— Tudo isto e muito mais, respondeu Demerval, acrescentando: esse GSI também tem sob o seu comando a Secretaria de Segurança Presidencial, a Secretaria de Acompanhamento de Assuntos Estratégicos, a Secretaria de Coordenação e Assuntos Aeroespaciais e a Secretaria de Segurança da Informação e Cibernética.
Meu Deus, exclamou Maria, que disse:
— Nossa, então a capacidade de raciocínio lógico e de gestão do general superou a doença de maneira impressionante. Portanto, Demerval, completou Maria, você não apenas pode ser coveiro, mas também pode ser presidente do Brasil e vamos à luta, concluiu.
(*) Caio Brandão é jornalista

