Idalísio e Mário Eugênio, vítimas da ditadura - créditos: divulgação
29-03-2026 às 13h36
Tadeu Martins*
Hoje, 31 de março de 2026, relembramos com tristeza os 62 anos do golpe de 1964, que instalou a ditadura militar no Brasil. Os 21 anos mais cruéis e sanguinários da nossa história. Não há motivo para comemorar esta data. Apenas relembrar os acontecimentos e continuar lutando para que isto jamais ocorra novamente no Brasil.
Quero falar aqui de dois desses muitos mártires, vindos do Vale do Jequitinhonha, que deram as suas vidas para que hoje tivéssemos liberdade de expressão, de organização e de defender os nossos direitos.
IDALÍSIO SOARES ARANHA FILHO nasceu em Rubim, em 21 de agosto de 1947. Fez o curso primário em Rubim e o curso ginasial no Colégio São José, em Teófilo Otoni, onde eu também estudei. Veio para Belo Horizonte, onde estudou Psicologia na UFMG. Foi Presidente do Centro de Estudos de Psicologia e Presidente do Diretório Acadêmico da FAFICH. Após três anos de UFMG, foi para o Araguaia, em 1971, junto com a esposa VALQUÍRIA COSTA, que era de Pirapora, para trabalhar com a organização de camponeses, contra a ditadura militar e por uma vida mais digna para os brasileiros.
Como muitos dos filhos do Jequitinhonha, idalísio gostava de tocar violão e cantar. E foi tocando e cantando que ele estava com a esposa, em agosto de 1972, quando a sua casa foi invadida por militares, que os assassinaram covardemente e desapareceram com os seus corpos. Até hoje não foram encontrados. Idalísio e Valquíria são dois dos “desaparecidos” da ditadura militar. Muitos desapareceram assim, assassinados pelos militares, que fingiam não saber do paradeiro daqueles jovens idealistas, que queriam apenas um Brasil livre da truculência e da violência dos militares.
MÁRIO EUGÊNIO RAFAEL DE OLIVEIRA, nascido em Comercinho, em 03 de janeiro de 1953, foi meu colega de República, na Rua Pouso Alegre, em Belo Horizonte, no início dos anos 70. Foi para Brasília, onde se formou em Comunicação Social, na UnB, e trabalhava no jornal Correio Brasiliense e na Rádio Planalto, onde apresentava o programa “Gogó das Sete”, e, apesar dos riscos, tinha coragem para denunciar militares e milicianos que exploravam, torturavam e assassinavam brasileiros.
No dia 11 de novembro de 1984, ele saía da Rádio Planalto, às 23h55min após gravar o programa Gogó das Sete, que iria ao ar no dia seguinte. Ao chegar à área do estacionamento em frente ao edifício onde funcionava a Rádio recebeu do policial civil Divino José de Matos, conhecido como Divino 45, sete tiros na cabeça quando estava próximo ao seu carro.
O policial Moacir de Assunção Loiola, também suspeito de participação no crime, morreu poucos dias depois de dar seu depoimento na delegacia de Luziânia, em junho de 1985, aparentemente por suicídio.
Como suspeitos de mandantes do crime, o inquérito policial apontou o Secretário de Segurança do Distrito Federal, o então coronel Lauro Melchíades Rieth, e o delegado coordenador da Polícia Especializada, Ary Sardella.
Um conjunto de reportagens sobre a morte de Mário Eugênio, intitulado “O Esquadrão da Morte em Brasília e o assassinato do jornalista Mário Eugênio”, feitas pela equipe do jornal Correio Braziliense, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1985.
Hoje, dedico as minhas preces e as minhas lágrimas a essas três vítimas da ditadura militar. A minha tristeza é muito grande, quando me lembro do ex-presidente Bolsonaro, eleito pelo voto direto dos brasileiros, dizendo que nunca houve ditadura no Brasil, e pedindo ao povo brasileiro para comemorar esta data, exaltando os militares que expulsaram do país milhares de brasileiros, que torturaram e mataram brasileiros que queriam um país melhor, mais humano e mais justo.
Quero aqui dedicar a minha amizade, respeito e gratidão, a dois outros companheiros, que estão vivos, com os quais eu aprendi muito, e que também foram vítimas da truculência dos militares. Meus mestres, amigos e companheiros de caminhada em muitos momentos importantes na luta contra a ditadura militar.
ANTÔNIO FARIA LOPES, bancário, escritor e ex-deputado estadual, que foi preso e torturado. Uma das pessoas mais justas e solidárias que conheço.
APOLO HERINGER LISBOA, médico e escritor, criado em Salinas, que foi preso, viveu clandestinamente no Brasil, até ser exilado, passando pelo Chile, França e Argélia. Na Argélia dividiu uma pequena casa com o também perseguido e exilado Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco.
Em 1968, quando eu tinha 15 anos, tive a consciência de que era preciso lutar contra a ditadura militar que massacrava o povo brasileiro. E desde então nunca abandonei esta trincheira, contra a opressão, a mentira e os desmandos dos poderosos que aprisionam corações e mentes do nosso povo. É difícil acreditar que brasileiros votaram em Bolsonaro e o elegeram presidente, mesmo sabendo que ele não tinha NENHUMA proposta concreta em defesa do Brasil, mas falando claramente em liberar armas e matar opositores de esquerda. Um homem que elogia abertamente os piores torturadores do Brasil e da América Latina. Agora, infelizmente, muitos bilionários e outros tantos incautos pobres-de-direita, já estão em campanha para eleger o Flávio Rachadinha, filho do pior governante que o Brasil já teve, Podem esperar uma verdadeira onda de mentiras nas redes sociais, mais uma estratégia da extrema direita para iludir e enganar o povo.
Idalísio, Valquíria e Mário, vocês não morreram em vão.
Faria e Apolo, vocês não lutaram e sofreram em vão.
Podem ter certeza de que muitos brasileiros, inspirados em vocês, continuarão a defender a liberdade e a dignidade do povo brasileiro.
VIVA O BRASIL!
#DitaduraNuncaMais
*Tadeu Martins é Escritor e Presidente da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha – ALVA

